HESITAÇÕES, ATRASOS, IMPROVISOS…

As palavras que escolhi para o título deste artigo são do Presidente da República em entrevista à RTP - e repetidas na comunicação ao país sobre o estado de emergência – que, na sua opinião, estão a marcar a gestão da pandemia.Vindas de quem vêm, ou seja, do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que tem dado, ao longo do seu mandato, um permanente apoio ao Governo, merecem um suplementar motivo de reflexão. Tem o PR toda a razão: na verdade, os erros somam-se e os sinais de desorientação dentro do Governo sucedem-se. De divisão e desnorte, de descoordenação e cansaço. De “vazios”. Marcelo ocupa “vazios” do Governo – Marques Mendes dixit e o EXPRESSO titula – 27 de novembro, pág. 8.Depois de uma longa novela, de muitas negociações, ameaças e acusações, a proposta de Orçamento do Estado para o ano que vem foi aprovada no Parlamento com a ajuda ao Governo a vir do PCP, Verdes e PAN.O “processo” de aprovação e votação final do Orçamento para 2021 constituiu “um dos mais deprimentes exercícios políticos já vistos. Uma feira montada onde se negociaram 1365 propostas de alteração e onde a tática partidária prevaleceu sobre o resto. Tudo isto em cima de uma das maiores crises de sempre” (Luís Marques, Suplemento de “Economia” do Expresso, pág. 11). Desse exercício político saiu um Orçamento mutilado que, tendo “nascido engelhado sai na votação final global transformado numa manta de retalhos ora incoerente, ora fútil, ora perigosa” – Manuel Carvalho, Editorial do “Público”, de 27 de novembro. Justificando, escreve o mesmo jornalista: “Quando, no auge de uma crise terrível, se desata a dar tudo a todos, quando, num momento que exige prudência, se põem até em risco contratos assinados pelo Estado, quando, numa altura em que se recomenda sentido de prioridades, os deputados se distraem com bizarrias ridículas, há razões para ter medo. Se, como advertiu o Presidente em Março, «não se pode começar a legislatura com ambiente de fim de ciclo», a história do Orçamento prova que esse ambiente se adensou e começa a ficar irrespirável”.Quando o Primeiro Ministro decidiu atacar com particular agressividade e quase em exclusivo o PSD (de cuja decisão, aliás, discordo, porque os contratos devem ser respeitados, em homenagem ao velho princípio do Direito Romano pacta sunt servanda), acusando-o de irresponsabilidade e eleitoralismo por ter votado a favor da suspensão da transferência de mais de 470 milhões de euros para o Novo Banco até ser conhecido o resultado da auditoria pedida ao Tribunal de Contas, está a querer esconder-nos dois factos evidentes: em primeiro lugar, que foi ele próprio quem, em maio passado, defendeu idêntica solução; e que a proposta ora apresentada partiu do Bloco de Esquerda, tendo sido também apoiada pelo PCP, que ele tanto elogiou por “não ter desertado” e por ter viabilizado o OE para 2021. Isto para não falar na sua decisão, tão arrogante como infeliz (e mal-agradecida), de afastar o PSD de qualquer solução de aprovação do OE. Pois não foi o 1º Ministro que, em agosto, afirmou que, no dia em que o Governo precisasse do PSD para viabilizar o OE, nesse mesmo dia o Governo cairia?Com esse procedimento, António Costa fraturou, rompeu, bloqueou. Separou o centro-direita da sua governação, bloqueou o acesso do centro e da direita democrática “a qualquer solução de reforma do regime e até de uma solução solidária para os tempos de exceção em que vivemos”. Em suma, rompeu o país político.E, como escreve Miguel Sousa Tavares, “mesmo sabendo que quando precisa de aprovar uma declaração de estado de emergência para enfrentar a pandemia ou quando precisa de ver chumbadas as mais ruinosas propostas de alterações orçamentais é com o PSD que conta e não com os seus extremados parceiros de circunstância, António Costa e o PS não tiram daí as ilações que se impõem”. Repito: Costa separou, rompeu, bloqueou. Que o “Bloco” que ele escolheu lhe valha na aprovação do OE para 2022!Pergunto, talvez com ingenuidade, mas por certo com boa fé: porque será que a política tem de fazer ruturas e fabricar compartimentos incomunicáveis em vez de  criar laços e lançar pontes e conexões?Volvamos agora os olhos por uns momentos para a gestão da pandemia.Marta Temido tem-se revelado como “Ministra do Serviço Nacional de Saúde” e não, como seria suposto, enquanto a Ministra da Saúde. E, mesmo em relação àquela área específica, está-se transformando cada vez mais na sua Ministra da Comunicação e Propaganda. Mas as hesitações, atrasos e improvisos continuam… Os erros e desilusões sucedem-se. A incorreta e incompleta distribuição da vacina para a gripe é um exemplo que revela a falta de planeamento e de concretização das expetativas que ela própria ajudou a criar. A três semanas do início do inverno há ainda milhares de pessoas por vacinar contra a gripe comum. Mas não posso deixar de referir a minha experiência feliz graças à ação impecável da minha Junta de Freguesia que organizou a vacinação grátis para os residentes de mais de 65 anos, na sua sede, no Lumiar (creio que a freguesia com maior população residente da Lisboa atual). Bem pensada, bem executada, com cuidado e afeto. Uma boa recordação neste ano para esquecer…Os erros e incorreções detetados levam-nos a recear a sua repetição, e em maior escala, no plano de vacinação contra a Covid-19. Só agora é que começaram a pensar no como seria… Tarde e mal! A trapalhada levantada pela proposta preliminar tornada pública, segundo a qual “a DGS coloca idosos como última prioridade” (capa do EXPRESSO de 27 de novembro), com o alegado argumento de que se teria dado “prioridade a grupos para os quais se estima que a vacina terá maior eficácia” é uma desculpa esfarrapada (só em Portugal é que se deu por isso??!) . Até o Primeiro Ministro veio na hora denunciá-la e o Presidente da República classificou-a (benevolamente) de “ideia tonta”. Estamos na cauda da Europa como sempre e também nisto. Por amor de Deus, pensem depressa mas pensem bem. E, se querem um conselho de quem fez a guerra na Secção de Receção e Expedição de Material do Serviço de Abastecimento na Base Naval de Luanda do Comando Naval de Angola, peçam a colaboração dos militares. Eles têm uma excelente formação em gestão de stocks, logística e Administração e exercem-na com notável competência, disciplina, seriedade e adequação. Deixem-se de preconceitos e recorram a quem sabe e tem experiência nem que seja estrangeiro. Para que é que estamos numa “união” europeia? É uma oportunidade de aprender e fazer melhor aquilo que tem de ser bem feito!Lisboa, 2 de dezembro de 2020