DAS ESQUERDAS

Todos se lembram como, na sequência da derrota nas eleições legislativas de 2015, a esquerda, sob a batuta estratégica de António Costa, secundada por Catarina Martins e por Jerónimo de Sousa, fez ruir o tradicional  “leque da governação” e criou, no seu lugar, a “geringonça” que nos governou durante quatro anos, num governo do PS sustentado no Parlamento pelos partidos da esquerda radical – BE, PCP e Verdes. Essa parceria parlamentar foi precedida por acordos escritos (papéis assinados) por todos os acordantes, conforme exigência do (à época) Presidente Cavaco Silva.Com maiores ou menores dificuldades, quatro orçamentos depois e não obstante o drama dos incêndios trágicos de 2017, o acordo manteve-se firme e, com a permanente solidariedade institucional do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), permitiu importantes conquistas ao povo de esquerda, com a reversão de muitas das medidas de austeridade impostas pelo governo PSD/CDS, presidido por Pedro Passos Coelho. Tal vinha na sequência das exigências da troika, que nos permitiu evitar a bancarrota que estava iminente, legada pela governação despesista de José Sócrates. A geringonça foi, nessa medida, um sucesso e dele retirou o PS proveitos eleitorais evidentes nas eleições parlamentares de 2019, que ganhou, embora sem maioria absoluta. O BE perdeu votos mas manteve o número de mandatos, ao passo que o PCP perdeu oito assentos parlamentares.Ao longo dos quatro anos da geringonça, o BE foi alimentando uma crescente aspiração ao poder. Partido ambicioso, de quadros urbanos, não dispondo de influência nos mundos sindical e autárquico sequer similar ao PCP, a sua ambição centrou-se na possibilidade de formar governo com um PS minoritário, necessitado dos seus votos no Parlamento. Tudo fez por isso para evitar a maioria absoluta do Partido Socialista, tendo festejado esse objetivo uma vez alcançado. Chegou a falar-se em Mariana Mortágua para a pasta das Finanças. Todavia, António Costa privilegiou desde sempre a parceria do (com o) PCP, partido mais previsível e leal, logo, mais fiável. Os sinais de distanciamento entre os partidos à esquerda do PS já eram visíveis no tempo da pré-campanha e da campanha eleitorais. Entretanto, o arranque da legislatura ofereceu provas de que a tensão entre PS e BE e o afrontamento entre este e o PCP estavam instalados.As abstenções dos antigos parceiros permitiram, porém, aprovar o Orçamento para 2020. Mas os escolhos colocados à navegação por parte do PS aumentaram substancialmente. A crise em torno do IVA da luz é bem elucidativa a esse respeito. A “azia” do BE vem-se tornando cada vez mais visível. Exemplos recentes e claros: a prontidão com que anunciou que não apoiaria a escolha de Vitalino Canas, proposto pelo PS para o Tribunal Constitucional sem que o Bloco fosse previamente consultado e o aviso ao Governo de que “não conte com o BE para nenhuma alteração legislativa que sirva para impor um aeroporto” contra a vontade dos autarcas da região ou contra a população da margem sul de Lisboa.O PS vira-se agora, parece que em vão, para a muleta do PSD de Rui Rio, sinalizando o interesse nacional de um apoio deste no sentido de poder viabilizar, no Parlamento, a alteração do diploma que agora exige o parecer favorável de todos os municípios afetados pela localização do aeroporto. Entretanto, nas páginas do “Público” o líder parlamentar do Bloco, Pedro Filipe Soares questionava como se veria o PCP no papel de possível “muralha de aço” do Governo. Respondendo de forma dura, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, escrevia, também no “Público”, o seguinte: “Faz mal o BE em atirar-se ao PCP”, acusando o Bloco de ser o “avalista da encenação” do PSD na novela do IVA da eletricidade. Ou seja, como se observa no “Expresso” de 22 de fevereiro, “perdido o que os mantinha unidos, fosse a recuperação de rendimentos, fosse o posicionamento anti-Passos Coelho, ficou visível neste Orçamento que não há uma estratégia comum entre os partidos da geringonça”. Em resumo, como se escreve num outro texto do mesmo semanário, intitulado “Esquerdas cada vez mais desunidas”: «PCP e Bloco trocaram acusações e PS está em litígio aberto com o BE. Esquerda caminha sobre os destroços da “geringonça”».Isto não significa, no entanto, que estes sinais de desentendimento venham a originar uma rutura entre os antigos “aliados” à esquerda do PS. Por exemplo, sobre as parcerias público-privadas (PPP) na saúde, o anúncio do lançamento pelo governo de concurso para a continuidade da PPP no Hospital de Cascais levou os líderes do PCP e do BE a convergirem na crítica de uma tal iniciativa, considerando a decisão como “inaceitável” (Jerónimo de Sousa) ou “perigosa” e “imperdoável” (Catarina Martins). Mas tal reação contra a medida anunciada é sobretudo um sinal do fim da “geringonça”.Na votação na generalidade dos cinco projetos de lei sobre a despenalização da morte assistida (eutanásia) as posições do BE e do PCP não podiam ser mais distintas e diversas. O primeiro, partido jovem e urbano, para cujos quadros a realidade da morte concreta é algo de muito distante e que acontece principalmente aos outros, foi a locomotiva contidamente festiva que conduziu o comboio do voto a favor da despenalização. O PCP, partido mais velho e sofrido, bom conhecedor da população rural e operária, votou contra todos os projetos, incluindo o do seu satélite “Os Verdes”, que assim fez uma prova de vida autónoma.Entretanto, Rui Tavares, qual mestre-escola triste que há muito decidiu fazer sua a cruzada da educação das “esquerdas”, confronta-se com as provas de incapacidade política concreta que deu no “Livre”, que fundou ou ajudou a fundar. A ninguém escapou o “olhar de esquilo assustado” com que recebeu o grito raivoso de Joacine: “Mentira! Mentira!” na reunião em que se discutia o futuro dela no partido…Por fim ainda uma palavra sobre as presidenciais de janeiro de 2021. Depois do anúncio da candidatura por parte de André Ventura, continuam a ouvir-se vozes dentro ou próximas do PS apelando à candidatura de Ana Gomes. Agora foi a vez de Paulo Pedroso. Não sei se o objetivo consiste em incomodar António Costa ou tirar um pouco mais ao pouco sono de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas de uma coisa estou certo: se tal apelo for ouvido e se Ana Gomes for candidata, a campanha eleitoral para as presidenciais será para MRS a tempestade perfeita. Com dois candidatos populistas e resistentes, muito experimentados na comunicação televisiva e na oratória de combate, além de ter de enfrentar os representantes do BE (provavelmente Marisa Matias, já que Francisco Louçã se deverá querer reservar para 2026) e do PCP, além do inevitável Tino de Rans, Marcelo não nadará por certo num mar de rosas… Claro que será sempre o candidato favorito - e mal seria se assim não fosse – mas sem braçada que lhe consiga os 70% de Soares. É que, como este diria: “Há mar e mar…”Lisboa, 26 de fevereiro de 2020