À medida que os anos se vão sucedendo, mais me espanta a mediocridade das elites reinantes.

A ignorância que se vai desenrolando no discurso actual, faria corar de vergonha o menos bem classificado dos professores primários das décadas anteriores aos anos setenta.Quase no início do novo ano lectivo, relembro a polémica que o Ministro da Educação trouxe à opinião pública quando se permitiu impor regras nas escolas privadas sobre o ensino à distância em tempos difíceis de pandemia; o problema maior era a falta de computadores nas escolas públicas e, o titular da pasta da educação, de pronto, nivelou por baixo, em nome das desigualdades … A referida regra foi, cinicamente, desmentida quando a contestação surgiu.O episódio, de má memória, fez-me recuar à minha infância passada numa aldeia do interior mais profundo, onde a sabedoria dos pais vencia barreiras e abria portas para um futuro diferente aos filhos. A tradição oral ia mantendo vivas histórias só compreensíveis a quem vivenciava o quotidiano de uma comunidade rural, sustentada pela actividade agrícola de subsistência. Nos anos cinquenta, a realidade dura dos habitantes nessas aldeias, exigia um aproveitar de tudo o que cultivava, criando ciclos de vida do que hoje é considerado lixo. O que atrás expus, pretende situar a história que foi contada pela minha mãe aos filhos, como incentivo ao trabalho e ao nunca cruzar os braços perante os desafios e a luta que a vida iria exigir de nós. «Um senhor ficou viúvo com uma filha pequena. Voltou a casar e desse casamento, nasceu uma menina. Foi essa filha que recebeu todo o mimo e afecto da mãe biológica, enquanto a enteada foi crescendo sob severas e árduas tarefas impostas pela dureza da madrasta.  As duas jovens cresceram e assimilaram as vidas que faziam o seu quotidiano.Casaram no mesmo dia e, foi no dia do casamento que a mãe e madrasta, as chamou junto de si e disse: - De hoje a um ano, vou fazer uma visita a cada uma de vós. Nesse dia, quero ver as cinzas da lareira, os rabos da eira* e a água da masseira**.Decorrido o prazo dado, a mulher iniciou a visita pela casa da enteada e pediu lhe mostrasse o que havia pedido no dia do casamento.A jovem, feliz, apressou-se a corresponder ao pedido e disse: - Aqui estão as cinzas da lareira. Perante os olhos da mulher, várias meadas de linho, alvas de neve, revelavam o trabalho e aproveitamento dado às cinzas.- Venha ver os rabos da eira.Chamou então a criação da capoeira que, no pátio, comia os restos de grãos vindos do varrer da eira.Por último, dirigiram-se às pocilgas, onde gordos porcos atestavam o bom aproveitamento das águas da masseira.A mulher saiu da casa da enteada e dirigiu-se à da filha. Pediu-lhe, então, correspondesse aos três pedidos feitos há um ano atrás.A filha levou-a a um anexo onde, a um canto, estavam as cinzas amontoadas; a um outro canto, os rabos da eira e, em depósito para líquidos, a água da masseira cheiro nauseabundo exalava.Dando-se conta do erro cometido na educação da filha, gritava:-Ai triste de mim! Dei à enteada a educação que deveria dar à filha!»Fazendo a ligação à parte inicial do artigo, estranho que muitos dos que dizem ser a escola pública o melhor dos mundos, matriculem os filhos nas melhores escolas privadas. O discurso oficial tem de ser coerente com as atitudes que se tomam. Quem tem poder de decisão deve dar aos outros o que quer para si e para os seus. Ensinei, ao longo de 40 anos, na escola pública e sempre tive os filhos no ensino público. Enalteço os óptimos professores que souberam e sabem dar o melhor de si (muitas vezes em condições tão adversas e tão sofridas) para abrirem Mundo a tantos jovens ávidos do Saber e a todos os outros que nem se permitem sonhar com vidas melhores do que as dos seus antecessores.Foi e é na luta hercúlea do quotidiano destes profissionais, que não nivelam por baixo nem se contentam com a mediocridade para satisfazer estatística, que devemos confiar. Ao longo de décadas, foi a escola pública o elevador social que permitiu Futuros de sucesso a muitos daqueles que nem se permitiam acreditar que os sonhos podiam ser realidade.Exijamos um ensino de qualidade de modo a podermos ver obreiros com valores, criativos e empreendedores que pensem Portugal a longo prazo do qual os nossos netos se possam orgulhar.É crime o que se está a fazer a sucessivas gerações!SÓ a EDUCAÇÃO pode alterar o rumo de aparências e fantasia com que nos tentam anestesiar!* - Rabeiras, palhiços ou detritos que ficam misturados no centeio ou trigo a seguir à debulha, no acto de malhar.** - Tabuleiro grande onde se amassa o pão.Nota: O texto não obedece ao acordo ortográfico