DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


O famoso escritor Hans Christian Andersen (1805-1875) fez uma visita a Portugal, em 1866, tendo publicado um livro com as memórias da sua viagem.
Transcrevemos aqui um extrato das suas impressões de Coimbra:
O caminho conduzia ao rio, onde a meio e mais largo havia alguns alpendres de madeira servindo de barracas de banho. Mulheres com as saias arregaçadas passavam o rio a vau, encurtando assim o caminho mais longo pela ponte velha de muitos arcos que da cidade conduz ao convento de freiras na outra margem, Santa Clara, edifício enorme, perto da “Quinta das Lágrimas”. Nesta quinta está ainda, meio em ruínas, o palácio onde a bela e infeliz Inês de Castro com os filhos inocentes foi assassinada. É sabido que o infante português D. Pedro casou com a formosa Inês, que também era de sangue real. O casamento foi, contudo, secreto, não tendo D. Pedro ousado confessá-lo ao pai austero que, informado do acontecimento, o obrigou a matrimoniar-se com outra dama e mandou matar Inês. Foi neste palácio e nesta quinta que isso aconteceu. Quando o pai morreu pouco depois, D. Pedro, já rei, mandou exumar o cadáver da sua amada e colocá-lo com toda a pompa real num trono, tendo toda a corte de ajoelhar diante dele e beijar-lhe a mão.
Na “Quinta das Lágrimas”, como é denominada a quinta anexa ao palácio onde Inês foi assassinada, murmura ainda a fonte junto à qual ela e D. Pedro se sentaram muitas vezes sob os altos ciprestes. Ainda não há muito tempo havia numa árvore uma inscrição onde se podia ler: «Eu dei sombra à Inês formosa». A árvore foi tombada por uma tempestade, a fonte cessará um dia de murmurar, mas os versos que Camões escreveu sobre Inês em Os Lusíadas, esses nunca se extinguirão. Estão gravados numa placa de mármore junto à fonte ainda corrente e dizem, em palavras sonoras e ritmos melodiosos que não somos capazes de reproduzir: «As filhas do Mondego por muito tempo choraram, as lágrimas recordando aqui derramadas; na cristalina água da fonte se transformaram, um nome lhe dando que ainda perdura – a ventura do amor. Essa ventura aqui a encontrou. Vês como corre a água fresca orvalhando as plantas? A fonte são as lágrimas e o seu nome – a ventura do amor».

No próprio dia em que cheguei, recebi de tarde a visita de um professor de história da literatura, natural de Eslésvico, que me disse estarem só alguns dos meus contos traduzidos em português, como “A rosa mais bela do mundo”, mas que ele, em colaboração com um jovem cientista de Coimbra, tencionava verter não só obras minhas como também os romances históricos de Ingemann, crendo que a literatura dinamarquesa era, de modo geral, susceptível de despertar o interesse do povo português.
Com ele fui na manhã seguinte assistir a uma cerimónia na Universidade, na qual um jovem doutor recebia o capelo. A sala estava cheia, na maior parte estudantes. Em ambos os lados sentavam-se os professores das faculdades, com as suas insígnias de variadas cores, branco e azul, vermelho e amarelo. O doutorando ajoelhava sobre um estrado próximo do trono real. Sobre a sala abriam-se grandes janelas de balcão salientes, repletas de senhoras. Uma orquestra estava colocada junto à entrada da sala. Fui convidado para assistir à cerimónia e recebido com todas as atenções. Vi depois a imponente capela, a sala do trono e a biblioteca em estilo rococó, com magníficos arcos, ouropéis e pinturas no tecto. O bibliotecário mostrou-me várias edições raras de Os Lusíadas, ilustradas com belas gravuras de cobre.
Vi também duas Bíblias manuscritas, com páginas que pareciam uma pura renda de ornatos artísticos, mas que, observadas por uma lente, eram cada uma delas uma pequena obra-prima de engenho e paciência. Podia-se verificar que cada linha destes rendilhados e ornatos mais não era do que palavras escritas de uma Bíblia em hebraico, hábil e pacientemente compostas.
Toda essa manhã choveu torrencialmente, o que era bastante anormal para a estação. Gracejando, dizia-se que tinha sido eu que havia trazido um Verão nórdico. Assim parecia realmente. Que tempo! As pessoas tinham de abrigar-se nos portais das casas, as ruas eram verdadeiros regatos e caminhos e passeios estavam completamente inundados. Assim chovia ainda quando, sob o guarda-chuva, saltando de pedra em pedra, desci da Universidades, observando de longe o rio, então já com água. As bátegas de chuva fustigavam e uma espécie de véu líquido cobria os campos e toda a magnificência dos bosques da região. Os grandes ciprestes junto à fonte dos amores na “Quinta das Lágrimas”, como foi denominado por Camões e pelo povo a “quinta” onde Inês foi assassinada, pareciam bastões de marechal envoltos em crepe, diante do palácio, sarcófago de recordações.
Coimbra é uma cidade que se deve visitar não apenas uns dias, mas durante algumas semanas, convivendo com os estudantes, procurando o ar livre e a bela natureza, isolando-se e deixando que na memória se desenrolem lendas e canções, recordando a história da cidade.