Este Papa Francisco é um sonhador! Diz que dorme bem, e sonha.

Sonha muito. E provoca os nossos sonhos! Ele que tem a inspiração de S. Francisco de Assis, possui também a bênção de S. José que, sonhando, compreendia o que Deus pretendia dele. A 24 de Novembro de 2013, no primeiro ano do seu pontificado, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, pensa naturalmente na Igreja e sonha com «uma renovação eclesial» que considera «inadiável.» Escreve: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação.» (n. 27) A 25 de Março de 2019, Francisco assina a Exortação Apostólica “Cristo vive”. Dirigida aos jovens, compreensivelmente ela está cheia de referência ao sonho. Sonhando com os sonhos destes, escreve: «Certamente nós, membros da Igreja, não precisamos de aparecer como sujeitos estranhos. (…). Ao mesmo tempo, porém, devemos ter a coragem de ser diferentes, mostrar outros sonhos que este mundo não oferece, testemunhar a beleza da generosidade, do serviço, da pureza, da fortaleza, do perdão, da fidelidade à própria vocação, da oração, da luta pela justiça e o bem comum, do amor aos pobres, da amizade social.» (n. 36) Depois, ao longo da Exortação, o sonho é uma espécie de pano de fundo de uma escrita de convite e desafio aos jovens. «Devemos perseverar no caminho dos sonhos. (…) Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas.» (n. 142) E, no número seguinte, acrescenta: «Jovens, não renuncieis ao melhor da vossa juventude, não fiqueis a observar a vida da sacada. (…) Não sejais carros estacionados, mas deixai brotar os sonhos e tomai decisões. (…) Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! Abri as portas da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes do tempo.» Indubitavelmente, é um Papa a sonhar com uma juventude que não pode renunciar aos sonhos. São estes sonhos que, no sonho de Francisco, podem abrir os jovens para um sonho maior, porque «Jesus pode unir todos os jovens da Igreja num único sonho» (n. 157). Por isso, logo a seguir, o Papa transcreve um belo extracto de um discurso seu pronunciado dois meses antes no Panamá, na XXXIV Jornada Mundial da Juventude. É um texto de cariz teológico que fala de «um sonho concreto, que é uma Pessoa» e que bem vale a pena transcrever: «um sonho grande, um sonho capaz de envolver a todos. O sonho, pelo qual Jesus deu a vida na cruz, e o Espírito Santo no dia de Pentecostes foi derramado e gravado a fogo no coração de cada homem e mulher, no coração de cada um. (…) Gravou-o com a esperança de aí encontrar espaço para crescer e desenvolver-se. Um sonho, um sonho chamado Jesus, semeado pelo Pai: Deus como Ele, como o Pai, enviado pelo Pai com a confiança que crescerá e viverá em todo o coração. Um sonho concreto, que é uma Pessoa, que corre nas nossas veias, faz exultar e dançar de alegria o coração.»Este Papa é um sonhador! Quem não se lembra? No passado dia 2 de Fevereiro, o Papa Francisco assinou a Exortação Apostólica “Querida Amazónia”. Partilha aí os quatro sonhos que a Amazónia lhe inspira: um “sonho social” a impor-se como «grito profético» que defenda «um árduo empenho em prol dos mais pobres»; um «sonho cultural» que se espraia pela valorização do tesouro das culturas e salvaguarda das suas raízes; um «sonho ecológico» para o cuidado da natureza e da criação em geral; um «sonho eclesial» de «encarnação da Igreja», que desenvolva um processo necessário de inculturação, que nada despreza do bem que já existe nas culturas, «mas recebe-o e leva-o à plenitude, à luz do Evangelho.»Agora, já neste mês de Outubro, evocando o «sonho de uma sociedade fraterna» de São Francisco de Assis, estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb que com ele assinara no encontro em Abu Dhabi a Declaração sobre a “Fraternidade humana: em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum” no início de Fevereiro de 2019, o Papa Francisco brinda-nos com a encíclica social “Fratelli Tutti” (“Todos Irmãos”), apresentando-a como uma «humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas actuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras.» (n. 6) Evocando a pandemia da Covid-19, que «deixou a descoberto as nossas falsas seguranças» e com que «ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto», Francisco deixa uma espécie de aviso ao mundo: «Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.» (n. 7) Para não se «negar a realidade» importa aproveitar o tempo que estamos a viver. Realçando a dignidade de cada pessoa humana - fundada não nas circunstâncias conjunturais mas no valor do seu próprio ser - e impulsionado pelo desejo de «fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade», acrescenta o Papa, citando um recente discurso seu: «Entre todos: “Aqui está um óptimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…), precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilie, e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos.”» (n. 8) E Francisco conclui com um sentido apelo: «Sonhemos como uma única Humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma Terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos.» Será por isso que o Papa Francisco acaba a encíclica dizendo que nesta reflexão sobre a fraternidade universal se inspirou especialmente em São Francisco de Assis, mas também noutros «irmãos» que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi e «muitos outros», como escreve.Este Papa Francisco é um sonhador! E agora convida-nos a sonhar com ele! «É juntos que se constroem os sonhos», os sonhos da construção de «uma única Humanidade» fundada na «amizade social» e numa «fraternidade universal». Fraternidade sem a qual a liberdade e a igualdade facilmente confluem num «individualismo radical», «o vírus mais difícil de vencer».Se é do “poverello” que vem a inspiração ao Papa para a redacção desta encíclica, bem poderemos lembrar o sonho de Francisco de Assis em Espoleto quando cavalgava para o campo de batalha, como se poderá evocar a mensagem ouvida por aquele Santo a partir do crucifixo de São Damião: «Francisco, vai reparar a minha casa que está a cair em ruínas.» Agora será a Terra, casa comum de seres humanos provocados a reagirem com um novo sonho de Fraternidade Universal e Amizade Social. Este Papa Francisco é um sonhador! E agora convida-nos a sonhar com ele! Como irmãos. “Fratelli Tutti”. Porque somos “Todos Irmãos”. Ninguém pode ficar indiferente a uma cultura diferente.Guarda, 15 de Outubro de 2020.