Olhos nos olhos


Todos os anos, à medida que se aproxima o Verão, a comunicação social vai falando do perigo acrescido dos incêndios, lembrando as necessidades de prevenção e sensibilizando as autoridades para as necessidades, em meios materiais e humanos. À medida que as chamas vão lavrando, a comunicação social, mormente os canais televisivos, entra-nos pela casa dentro, mostrando árvores a arder, bombeiros lutando denodadamente contra as chamas, homens e mulheres chorando as perdas em vidas e haveres e dando voz a queixas sem fim, pelas omissões de meios de socorro e pela falta atempada de medidas preventivas.
No presente ano, ao fazer-se o balanço do ocorrido, temos de concordar que as autoridades cumpriram o seu papel. O governo pôs à disposição do país os meios aéreos que se mostravam necessários, equipou os bombeiros de material e até lançou mão das forças armadas para combater alguns fogos preocupantes.
A comunicação social cobriu os acontecimentos e por ela ficamos a saber, uma vez mais, que um grande número de fogos teve origem criminosa. A G.N.R. e a Polícia Judiciária cumpriram, também elas, uma vez mais, o seu dever e identificaram e prenderam um grande número de pessoas, que, depois de ouvidas pelo juízes, aguardam, em prisão preventiva, o decorrer da instrução dos respectivos processos. Contudo, em relação a alguns dos detidos, ficou a saber-se que confessaram ter ateado os fogos para verem o espectáculo, outros porque queriam ser bombeiros e não resistiam, ao impacto das imagens que as televisões transmitem.
Não advogamos a censura nem de alguma forma pretendemos ver limitado o direito fundamental da liberdade de informação. Contudo, parece-nos que seria sensato que as televisões, por iniciativa própria, limitassem a exibição de imagens da floresta a arder.
Por outro lado, e respeitado o princípio da presunção de inocência até trânsito em julgado de sentença condenatória, importa que, após esse período, os portugueses fiquem a saber quem deitou fogo, quais as motivações dessas pessoas e quais foram as sentenças que os condenaram. É importante que os portugueses saibam quem, como e porquê destrói o património comum e talvez que, sabido isso, a comunicação social televisiva se reúna e, por iniciativa própria, auto limite aquelas imagens que, comprovadamente, levem pessoas, por doença e falta de autocontrolo, a lançar a primeira acha na fogueira.