Fique em casa off-line...

Computadores para as escolas, vacinas para a gripe, apoios empresariais e prémios para os profissionais de saúde são apenas alguns exemplos de algo que não correu bem, em termos de promessas do governo. Esperemos que o plano nacional de vacinação para a Cvid-19 não siga os mesmos passos, para bem de todos nós e do país. É nos momentos de crise, perante dificuldades, que se demonstra a qualidade da governação que assenta sobretudo na qualidade da decisão. É também na dúvida sobre a qualidade da decisão que assenta o ceticismo de quem vê a pandemia em trajetória crescente e os hospitais em colapso, com médicos a terem que decidir quem pode e não pode ser tratado. De forma mais crua, é o mesmo que dizer que os médicos estão a ser empurrados para circunstâncias de terem que escolher quem é que vai viver e quem é que não vai sobreviver. Os imperativos éticos e morais que estão associados a uma decisão desta natureza, dolorosos para a grande maioria dos clínicos, são os mesmos que se deviam colocar aos deputados do PS, BE e PAN no momento de aprovarem a iníqua lei da Eutanásia. Mas isso é uma matéria de absoluta insensibilidade para muitos, porventura os mesmos que frequentemente se pronunciavam sobre os danos da pandemia em países terceiros e que agora manifestam desdém e indiferença com o que se passa em Portugal. Somos o país do mundo com maior número de infeções e óbitos pela Covid-19. Não há nada pior do que ter a realidade a desmentir a narrativa política. Isto tanto serve para o governo como para os partidos políticos. Não há direito de exclusividade nesta matéria. Foi isso que aconteceu com o nosso país. De um Portugal milagreiro da Covid-19 passámos a país caótico na gestão da pandemia. Foi um salto enorme dado em poucas decisões.Quando o exemplo e as notícias do mundo aconselhavam prudência e confinamento, o governo optou pela simpatia e populismo de aligeirar as medidas de contenção no período de Natal, contrariando aquilo que estava a ser feito por toda a Europa.A tragédia estava anunciada e não faltaram avisos nesse sentido. Quem tinha que decidir, decidiu e quem não tinha que pagar, está a sofrer as consequências. É nesta realidade que agora nos afundamos.Quando tudo corre bem e a economia cresce, o desemprego é residual, a cobrança de impostos vai de vento em popa e até permite distribuir por aqueles que pouco ou nada fazem, não se acautelando o futuro, corre-se o risco de se ser ultrapassado pelos acontecimentos e de se entrar em conflito com a própria realidade. Foi exatamente aquilo que aconteceu em Portugal.O Estado, mais uma vez, falhou e deixou mal quem nele confiou.Olhemos também para o que se passou no setor da Educação. Numa segunda-feira as escolas não eram locais de transmissão do vírus e não iam fechar, mas fechavam os ATL; na terça-feira os ATL iam abrir, pois ninguém dos decisores se tinha lembrado de que eram estruturas de apoio imprescindível à atividade letiva; na quarta-feira anunciou-se a testagem massiva nas escolas que iriam continuar abertas; na quinta-feira as mesmas escolas fechavam pelo período de quinze dias. Todos estes dias são dias da mesma semana. É de perguntar: O que é que o governo desconhecia na segunda-feira que já sabia na quinta-feira? Sabia o mesmo, respondo eu. Aquilo que se passou com as escolas, passou-se no ano passado com as máscaras. Chegaram a dizer-nos que podia ser perigoso usá-las e hoje são obrigatórias.Na Educação, era necessário fechar, pois as escolas colocavam em risco milhares de pessoas, então o Governo, depois de fingir que estava preocupado com as crianças, mandou parar tudo e decidiu que a interrupção seria considerada pausa letiva. Aquilo que efetivamente aconteceu, é que não tinha alternativa, pois ir para aulas online iria evidenciar que não tinha havido capacidade para criar as condições para o efeito. Sem palavras para a incompetência do ministro da educação. Quase um ano para preparar alternativas ao ensino presencial (que seriam sempre coxas, pois o ensino presencial é insubstituível) e chegados aqui mandamos centenas de milhar de crianças para casa, sem rede e nas mãos dos pais que lutam para manter rendimentos. Governem-se off-line. Mais grave ainda e até inconstitucional foi a posterior decisão de impedir essa mesma aprendizagem por quem estava preparado para o fazer.Com efeito, o dever de o Estado promover “a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais (…)” está consignado no artigo 73.º, n.º 2 da Constituição.Com a ideologia dominante, o país não pode nivelar por cima, tem que seguir numa linha de mediocridade, mesmo que isso signifique um atropelo aos direitos e liberdades constitucionais. A regra foi, como somos incompetentes, vamos parar o país e paramos mesmos aqueles que podem andar. A maior pobreza é a pobreza de espírito e até nisso já nos impõem que sejamos pobres. O governo esqueceu-se de fornecer computadores aos alunos e, por essa razão, as escolas particulares também não podem lecionar aulas on-line.É absolutamente vital, para o futuro de todos nós, sobretudo das nossas crianças e jovens, que o governo não falhe no plano de vacinação da Covid-19.Fique em casa e reflita sobre isto.