A borboleta branca


Eram uma vez dois meninos que gostavam muito de histórias. Gostavam de histórias como gostam todos os meninos da idade destes dois meninos que gostavam muito de histórias.
Aqueles dois meninos, que gostam muito de histórias como gostam todos os meninos da sua idade, ainda não sabem ler, como não sabem ler os meninos que, como eles, gostam muito de histórias. Por isso pedem aos pais e avós para lhe lerem as histórias ou então para lhes contarem histórias, porque os pais e avós já sabem todas as histórias e nunca se cansam de contar histórias para os meninos que gostam muito de histórias. Nem que sejam histórias já contadas uma, duas, três ou infinitas vezes. É bom, é bom ouvir novamente, direitinho, aquelas histórias de encantar, ou de ajudar a comer a papa pela manhã, ou então à noitinha para adormecer.
- Conta avô. Hoje pode ser aquela da raposa matreira que gostava muito de caçar as galinhas, os patos ou os perus do Sr. Joaquim.
- E o que quer dizer «matreira»? – Pergunta o avô, para logo os dois responderem em uníssono:
- «Matreira» quer dizer «manhosa» para caçar as galinhas.
E o avô, imitando o som de cada espécie, lá repetia pela enésima vez a história das aves do Sr. Joaquim, bem espreitadas pela raposa matreira a aguardar a melhor oportunidade da caçada.
Bem… Mas um dia o avô perguntou aos dois meninos se queriam que lhes contasse uma história nova. E logo os dois responderam em coro:
- Sim, avô, conta, conta. Tu sabes histórias lindas!
E, enquanto o avô se prontificava a imaginar uma história nova e linda, já os dois meninos, que gostam muito de histórias lindas como gostam de lindas histórias todos os meninos da sua idade, saltavam entusiasmados nas cadeirinhas em que se encontravam sentados.
- Era uma vez uma borboleta branca, branquinha como a neve, que visitou o meu jardim. Rodopiou no ar como quem passeia pela mais bela paisagem da natureza. Era lindo o jardim do avô! Era o mês de Maio e todo ele estava feito de roseiras com rosas de muitas cores.
E logo os dois meninos começaram a dar cores às rosas do avô.
- Pois, - Continuou o avô – mas a borboleta era só branca, branca como a neve, e sempre se envaidecera com a brancura das suas asas. Naquele dia, porém, a beleza das rosas encantou a borboleta branca e quis muito ter outras cores nas asas. Voando de ramo em ramo e de rosa em rosa, foi pedindo a cada rosa um pouquinho da sua cor. Foi assim que aquela borboleta branca ficou enfeitada com muitas cores.
Mas um dia, bem mais tarde, depois de o avô já ter contado muitas vezes a história da borboleta branca, um dos netos fez a pergunta com que o avô não contava.
- Avô, onde estão as borboletas? Tu disseste que havia borboletas no teu jardim.
O avô ficou um tanto embaraçado. É que havia já anos que não via borboletas. Nem no seu jardim, nem noutro lugar qualquer. Olhou, pois, para os netos com a tristeza de quem não podia desiludir. Num instante veio-lhe à memória imaginativa o futuro problemático daquelas crianças que gostam muito de histórias mas também gostam de ver as borboletas a voar de ramo em ramo e de flor em flor e, quando os netos já repetiam a pergunta na ansiedade da resposta, disse-lhes:
- As borboletas, numa noite de Agosto com luar, seguiram pelos raios da Lua para o céu. Foram viver nas estrelas!
- Viver nas estrelas! Porquê? – Perguntaram logo os dois.
- Creio que elas foram embora porque já não conseguiam respirar e foram procurar ar puro onde pudessem viver.
- E quando regressam?
- Bem… Não sei bem quando vão regressar à Terra, mas creio que regressarão quando não houver tantos automóveis a sujar o ar. Então elas poderão descer novamente pelos raios de luz, da Lua ou do Sol, porque as borboletas gostam muito das flores da Terra. E já devem ter saudades delas.
- Mas nós também gostamos muito das borboletas, brancas ou de asas de muitas cores. Elas só vão regressar quando nós formos crescidos como tu? – Perguntaram tristes.
A pergunta caíra como um peso muito pesado na consciência do avô. E, enquanto os netos iam protestando porque o avô os deixara sem resposta, entraram os três em casa.
Nessa noite, depois do jantar, as crianças, lembrando as borboletas, foram à janela a olhar para o céu. A iluminação da cidade não deixava ver nenhuma estrela. Perante a desilusão dos netos, o avô só conseguiu dizer:
- Vede bem. Assim como a iluminação da cidade mata as estrelas do céu, assim morrem os animais na Terra porque os homens sujam o ar e a água de que precisam para viver.
- Avô, conta-nos outra vez a história da borboleta branca que queria ser borboleta de muitas cores.
Nessa noite as crianças adormeceram a imaginar borboletas a voar de flor em flor!… De estrela em estrela!... E o avô, lembrando que Descalço também se caminha, ficou a meditar nas palavras de João Aguiar Campos: «Se morrerem as borboletas, apagam-se os voos coloridos que ainda temos nos olhos!...»
Guarda, 18 de Julho de 2019