OS LIVROS NO CAMINHO DO HOMEM


Miguel Eyquem de Montaigne (1533-1592) foi um grande ensaísta e moralista francês, no sentido de se dedicar ao estudo da Moral, sendo considerado o criador do género literário de “ensaio”. Oriundo de uma abastada família, teve uma peculiar educação ao ser entregue pelo pai a uma ama que o criou numa cabana da quinta familiar e que o fazia acordar diariamente ao som de música. Ao mesmo tempo teve uma tão sólida aprendizagem do Latim que causou grande espanto quando entrou no colégio, com a idade de 6 anos. Manteve-se neste colégio, dirigido pelo português André de Gouveia, considerado a melhor escola de França até iniciar os estudos superiores de Direito.
Após ter iniciado uma carreira política no Parlamento de Bordéus, só mais tarde, em 1568, com a idade de 35 anos, se iniciou na vida literária ao traduzir, a pedido do pai, a Theologia Naturalis de Raimundo Sabunde, um professor de Toulouse do século XV, de origem espanhola.
Esta tradução foi muito importante para Montaigne pois forneceu-lhe o tema mais famoso para o ensaio sobre o cepticismo, a Apologie de Raimond Sebond. Prosseguiu a vida literária com a edição de escritos de um amigo, La Boétie, já falecido.
Após esta data levou uma vida sedentária e solitária, na sua quinta, exceto quando se deslocava ocasionalmente a Paris ou quando fez uma viagem de ano e meio pela Alemanha, Suíça e Itália, iniciada em 1580.
Os seus últimos anos de vida foram passados na companhia de uma filha que adotou, atraída pelo livro Ensaios e que dessa obra preparou uma valiosa edição.

O livro Ensaios, de Montaigne, contém noventa e três ensaios, além de uma longa apologia de Raimundo Sabunde, na qual é percetível o cerne da filosofia de Montaigne. A obra começa com uma advertência, iniciada por uma frase que se tornou célebre - “Este é um livro de boa fé, leitor” – e que esboça o carácter do narcisismo meditativo da obra.
Com os Ensaios, Montaigne queria deixar aos amigos um retrato mental pessoal, com os aspetos positivos e negativos.
Os noventa e três ensaios estão dispostos sem nenhuma tentativa de os ordenar por assunto. Iniciam-se pela autoanálise e acabam no debruçar do conhecimento do homem em geral.
Embora não estejam sistematizados, mostram-nos um autor com uma curiosidade insaciável que procura mais a sua própria estimulação em vez de uma satisfação de quem encontra uma conclusão nítida.
Para as suas reflexões, Montaigne inspirou-se nas leituras que fez de alguns clássicos como Séneca, Lucrécio, Plutarco e Xenofonte, dos antigos historiadores, de antologias, biografias e textos de escritores e epistológrafos italianos. Ao abordar os pensamentos destes autores, em Montaigne podemos descortinar a suspensão do juízo, o repousado desprendimento e um epicurismo prático. À maneira dos estoicos, os homens são atormentados pelas suas opiniões sobre as coisas e não pelas próprias coisas. Ao assumir uma atitude não heroica, logo ceticismo em matéria de devoção, contagiou o pensamento francês posterior, nomeadamente no século XVII em autores como Molière, Descartes e Voltaire. Contudo, no seu tempo, Montaigne não era acompanhado na sua original reflexão e aparecia isolado, rodeado de homens de pensamento apressado e de ação impulsiva.
Em séculos de produção literária francesa, poucas obras exerceram em todo o mundo tão grande e duradoura influência como os Ensaios. E isso aplica-se tanto à forma como à substância, à matéria de estilo e à linguagem. De facto, o autor é um dos raros escritores que inventaram um género literário: o ensaio. Tal como ele o criou, este género não tem precursor na literatura moderna e nenhum antepassado direto na da Antiguidade Clássica.
Para além da inspiração literária acima referida, o autor predileto de Montaigne era Plutarco, mas também sofreu forte influência de Jacques Amyot, o tradutor francês de Plutarco, que lhe passou uma parte do vocabulário e do estilo. Não obstante, manteve-se independente quanto à produção literária.
Em conclusão podemos afirmar que a sua atitude mental é cética, sem ser negativa, e humorista, sem ser satírica.
Foi dos poucos que soube abordar a comédia humana de modo bastante completo.
Refira-se, como curiosidade, que se referiu várias vezes a temas envolvendo portugueses. É assim quando cita André de Gouveia, quando trata de um episódio passado com Afonso de Albuquerque, quando fala de D. João II, D. Manuel I, dos judeus e da Companhia de Jesus. Outros episódios que aborda são a expedição francesa aos Açores, a favor de D. António, Prior do Crato, do assalto dos portugueses a uma cidade de cujos baluartes fugiram mordidos pelas vespas e da batalha de Alcácer Quibir.