Histórias que a Vida Conta

Parece que se está a aproximar, na Europa comunitária, o tempo do levantamento gradual das medidas aconselhadas pelo confinamento e logo impostas pelo decretar do “estado de emergência”. Na verdade, a melhoria da evolução das curvas epidemiológicas em Itália, Espanha e França, a situação estacionária e de contenção na Alemanha e em Portugal, parecem aconselhar a progressiva adoção de medidas de alguma abertura da sociedade que permita também o retomar progressivo da atividade económica e produtiva. Alguns países menos atacados pela pandemia já começaram a fazê-lo, sempre com cautelas e no respeito pelo gradualismo imposto pelo receio de uma recaída resultante de novas vagas de infeção pelo vírus que tantas vítimas tem feito e está para fazer pelo mundo.Ou seja, o recomeço da vida não significa o “baixar da guarda” nem representa necessariamente  o regresso ao “antigo normal”. Na verdade, e a título de exemplo, não podemos regressar aos velhos hábitos de convívio interpessoal, com as manifestações tradicionais de cumprimento e afeto, importando, pelo contrário, manter as devidas cautelas no distanciamento social; não podemos voltar a frequentar restaurantes, cinemas, salas de espetáculo, estádios de futebol ou praias, depois de abrirem ao público, com a despreocupação dos tempos anteriores à pandemia, ou seja, sem os cuidados impostos para se evitar a proliferação do vírus; os mais velhos deverão, até prescrição em contrário, continuar em casa; quando alguém sair à rua ou se deslocar a um supermercado, a uma repartição pública ou a uma agência bancária, deverá colocar pelo menos uma  máscaras (cujo uso foi inicialmente desaconselhado pelo SNS, por razões nunca entendidas); impõe-se observar os cuidados de higiene, com a lavagem frequente e cuidadosa das mãos, a substituição da roupa utilizada na rua quando se volta a casa, bem como  deverá observar-se o cuidado de espirrar para a curva do braço; Impõe-se, enfim, evitar ajuntamentos, manter o distanciamento aconselhado e evitar desnecessários contactos pessoais.Ou seja, caminhar-se-á, se tudo correr bem, para um “novo normal”, marcado pela prevenção e pela disciplina social no respeito das recomendações/prescrições das autoridades sanitárias, nos contextos educativo, recreativo ou social.Com tudo isto, eis porém que os nossos políticos acabam de dar dois exemplos perigosos, ao permitirem as celebrações do 25 de abril, na Assembleia da República, e do 1º de maio, nas ruas das grandes cidades. O perigo não está tanto nos riscos que possam advir de tais eventos (embora nunca se saiba), mas antes no valor simbólico de tais exceções às restrições impostas pelo estado de emergência. O povo, até agora confinado, constatando tais aberturas da iniciativa de quem impôs o próprio estado de emergência, tende a descomprimir e, imitando o exemplo, a aproveitar o sol e a frequentar parques e jardins. Depois de a Igreja Católica, num gesto de prudência e respeito pela saúde e pela vida dos portugueses, ter encerrado os locais de culto católico, e de, mesmo na Páscoa, não ter realizado cerimónias presenciais nas capelas e igrejas em todo o país, depois de a hierarquia da Igreja, com o Bispo de Leiria-Fátima à frente, ter anunciado que, este ano, devido à pandemia da covid-19, as cerimónias religiosas do 13 de Maio, em Fátima, serão celebradas sem a presença de peregrinos, os nossos políticos consideraram haver uma obrigação moral de comemorar o 25 de Abril no Parlamento por ser indispensável afirmar “que não sairá desta crise qualquer alternativa antidemocrática” – Ferro Rodrigues dixit.Lamentável, acima de tudo, a retórica divisiva que se estabeleceu, tendo como infeliz protagonista o Presidente da Assembleia da República, um abrilista quadrado que faz lembrar, no autoritarismo e na truculência até do seu próprio modo de dizer, os “duros” dos regimes autocráticos. Na falta de diálogo e no estilo obtuso da argumentação, não percebeu (e creio que nunca perceberá) que tem sido o melhor aliado do “Chega”. Quando abre a boca e diz, por exemplo, que o medo e a mentira são apanágio distintivo da extrema-direita, esquecendo que essas são características comuns a todos os ditadores ou extremistas, de direita ou de esquerda, está a dar força a André Ventura. Como se escreve no EXPRESSO de 18 o corrente, “definir regras apertadas para o país e criar exceções, com o estado de emergência ainda em vigor, é o pior dos exemplos. (…) Em tempos de isolamento, espera-se mais das instituições do Estado. Ferro Rodrigues foi, aliás, um protagonista da semana ao considerar que os discursos dos deputados devem ser condicionados pelos temas definidos pelo presidente. Os comentários críticos às intervenções foram excessivos e desadequados”.Será assim tão difícil perceber, Senhor Presidente da A.R. que, quanto mais V. Exª acena com o papão da extrema-direita, mais argumentos dá a quem a representa no Parlamento para o acusar a si de arrogância, de tentativa de humilhação, de discriminação ideológica e de falta de respeito pelo voto popular? O que o Senhor tem exibido ao país em sucessivas intervenções infelizes, é uma personalidade autoritária, incapaz de manter a contenção e a cortesia que o alto cargo institucional em que está investido exige do seu titular.Ao desdobrar-se em entrevistas, Ferro Rodrigues, sem a inteligência sem a eloquência e a capacidade argumentativa de um Marcelo Rebelo de Sousa ou de um António Costa, deixa uma imagem de intolerância e de falta de classe que nos sabe – e lhe fica – muito mal. A Assembleia da República congrega representantes se não de todas pelo menos das mais votadas linhas de pensamento político e correspondentes projetos de governação. Desejar-se-ia por isso que o seu Presidente fosse um praticante da abertura e do diálogo. E também um apóstolo da imparcialidade e do bom senso. E que, entradas as portas de S. Bento, se esforçasse por esquecer de que partido é, que deus professa e, vamos lá também, qual o “clube em que joga”. Que como ao anterior speaker do Parlamento inglês, John Bercow, não lhe falte a voz autorizada para exigir Order!, mas também seja pródigo no espírito de concertação que honre a Casa onde se forjam as leis que nos governam a todos. E quando digo a todos estou a conjugar em todos os tempos e modos para todas as pessoas e géneros o verbo governar. E governar aqui como uma forma de liberdade, na expressão das vozes e das vontades.Falando em liberdade, justificar-se-ia agora uma reflexão a propósito dos dilemas “segurança versus liberdade” ou “defesa da saúde versus privacidade”, colocados pela problemática e controvertida utilização das novas tecnologias e aplicações de geolocalização dos suspeitos de infeção com o Covid-19 e o rastreamento daqueles que foram por eles contactados. Não o faço, para já, por manifesta falta de espaço.Lisboa, 23 de abril de 2020