Histórias que a Vida Conta

Escrevo antes das eleições autárquicas, sabendo que o artigo só será publicado depois de conhecidos os seus resultados. Também não escrevi a minha habitual crónica na edição da semana passada. Quer isto dizer que não me pronunciei sobre a campanha eleitoral nem sequer censurei, como tantos justamente o fizeram, o uso e abuso dos milhões do PRR como promessa de campanha e argumento eleitoral por parte do 1º Ministro e de muitos autarcas socialistas. Lamentável e pouco próprio…, nomeadamente por parte de um Primeiro-Ministro, que misturou sistematicamente os interesses partidários e os objetivos nacionais. Devo deixar aqui a minha sincera preocupação acerca do modo como (mais uma vez) irão ser despendidos os milhões da “bazuka”. Rui Rio, cuja ação política não defendi, e que tem sido o saco de boxe por parte de uma comunicação social parcial e apostada em ver quem bate mais forte no líder do PSD, tem revelado nas suas intervenções de campanha (escrevo na 3ª feira, dia 21 de setembro) maior sentido de Estado e maior respeito pelos cidadãos e pelas empresas, independentemente dos partidos da sua preferência.Mas entendi que não valia a pena imiscuir-me neste lodaçal de pequenos/grandes interesses em que se transformaram as eleições autárquicas. A agressividade é tanta, a arrogância do novo “dono do país” é tal (veja-se o “caso Galp”) que preferi a higiene que só o silêncio assegurava.Penso que os resultados não vão diferir substancialmente dos das últimas eleições. Talvez o PSD possa subir um “poucochinho”, não por mérito próprio mas porque seria difícil fazer pior do que em 2017. Talvez possa ganhar uma ou outra câmara, incluindo o Funchal, algumas juntas de freguesia e uns tantos vereadores. Coimbra é, à data em que escrevo, o “centro do furacão”. Duvido que a coligação liderada pelo PSD possa tirar o comando da autarquia aos socialistas. Mas é uma ilha de esperança, num mar de desilusões. Na busca de números melhores, Rio guardou os últimos dias de campanha para os Açores. Quanto aos outros partidos, o Bloco continuará a conviver com a sua inexistência autárquica. O PCP (ou a CDU, como preferirem) viveu, durante o tempo da campanha, tempos de sobressalto e angústia. Compreensível porque, ao contrário do BE, o PCP é um partido com grandes raízes autárquicas e sonha recuperar alguns municípios que perdeu para o PS nas últimas autárquicas. Seguindo-se a fase crucial das negociações para o OE de 2022, percebe-se a azia que assaltará os estômagos comunistas se, em vez da sonhada recuperação, perderem mais algumas autarquias. Para o PS ou – sacrilégio! – para o Chega! Aguardam-se, com alguma ansiedade, os resultados deste partido com posições de extrema-direita. Poderão ditar a linha estratégica desse setor em ascensão no futuro próximo, em particular nas próximas eleições legislativas. Assim como se esperam as consequências dentro do PSD. Será que o eventual progresso muito, muito “poucochinho”, irá bastar para que Rui Rio se apresente de novo como candidato á liderança, no congresso a realizar daqui a três meses?Quanto ao CDS, escondido atrás do biombo na coligação com o PSD, parece-me um caso perdido. É triste que um partido fundador da nossa democracia, que foi “liderado” por políticos como Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Adriano Moreira, Lucas Pires, Paulo Portas (entre outros de muitas palavras mas de menor expressão), venha a morrer de morte natural, sem glória e, pior ainda, sem deixar saudades. O seu lugar será (mal) ocupado em parte pelo Chega! e, por certo também, pela Iniciativa Liberal, partido este com outros princípios e futuro desejavelmente mais promissor.Quanto ao PAN, o partido que gosta de proibir, lá vai andando, com alguma estabilidade, em redor da causa animal mas em grande afã no alargamento dessa sua órbita tendo já abraçado a causa da regeneração do planeta mercê de luta árdua no tocante às alterações climáticas.E que dizer do preocupante e insuportável movimento negacionista que, passo a passo, já chegou à ofensa e ameaça do Presidente da Assembleia da República, a 2ª figura do Estado? O negacionismo é um fenómeno cultivado no seio dos movimentos radicais, tanto de direita como de esquerda, que se estende dos negacionistas (pró-nazis) do holocausto aos negacionistas (comunistas ortodoxos) dos crimes de Estaline. Devo confessar que me doeu ver envolvido em manifestações assim rotuláveis o Dr. Fernando Nobre, fundador da AMI, um homem que dedicou uma grande parte da sua vida a espalhar o Bem, na solidariedade e na entrega pessoal desinteressada. O que é que se terá passado com ele? Já quanto ao célebre “juiz negacionista”, que se evidenciou nos lamentáveis enfrentamentos com graduados e agentes da PSP, só duas palavras: “tenha vergonha!” ou “vá-se tratar!” –  ou as quatro juntas que provavelmente serão todas elas necessárias ao retrato e ao futuro do infeliz ativista.Permitam-me, a acabar, enaltecer mais uma vez o processo de vacinação e a superior ação de liderança e organização do Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo. Feliz a hora em que o Governo escutou os apelos vindos da sociedade civil no sentido de pôr este processo nas mãos dos militares, afastando a crescente onda de “salve-se quem puder” a que se assistia por parte de boys, girls, pais e familiares, com cartão do partido ou da cunha, em riste, ultrapassando os outros cidadãos, com os mais variados e ridículos argumentos. No início, á frente da task force, estava, como não podia deixar de ser, um homem de confiança da “casa”, que foi múltiplas vezes secretário de Estado da Saúde. Em contraste, o Almirante Gouveia e Melo foi breve, claro e seguro logo nas primeiras palavras. Avisou que seria duro para com os “malandros” – e as malandrices acabaram. Os Portugueses passaram a ser todos tratados por igual, em conformidade com planos bem elaborados e equilibrados. Foi a clara diferença que vai de um político que tergiversa e é capaz de fazer fretes, ao partido e aos seus militantes, e um militar prestigiado que corta a direito, cumpre com imparcialidade e espírito de serviço e dá um exemplo de como se pode lidar eficazmente com a adversidade com ação e poucas palavras, dando confiança e esperança a todos sem distinção. E foi assim que desta vez fomos mesmo, com mérito e com verdade, “os melhores dos melhores”!Lisboa, 21 de setembro de 2021