E, em setembro, tudo recomeça...

Não percebo por que razão é que o ano não começa em setembro, em vez de janeiro. Embora o calendário comece no princípio do ano civil, a nossa sociedade arranca, de facto, em setembro. Este ano, vieram confirmar a regra as eleições municipais para renovar os seus representantes camarários, esperando que o façam em prol do bem das populações. É o poder que sentimos mais próximo e, por isso, deveria também ter mais meios.Após os calores dos meses de julho e de agosto, chegamos revigorados ao mês de setembro e temos vontade de recomeçar o ramerrame da vida que tínhamos posto de lado.As crianças e os jovens, assim como o respetivo corpo professoral retomam as aulas de todo o género de ensino neste mês. A própria universidade que, há alguns anos, abria no mês de outubro, o ministério decidiu antecipar a sua abertura para o mês de setembro. E eu guardo deste mês as melhores recordações. Era o mês da colheita das batatas, da labuta das sementeiras do centeio e do trigo que iriam rebentar nos restantes meses de outono e de inverno, crescer na primavera e aloirar, para a ceifa, nos meses de verão. A natureza era generosa neste tempo e as donas de casa tentavam gerir o sustento dos filhos com tradições ancestrais para conservar os alimentos. Era a altura de colher as vagens, secando-as, quer para depois as desgranar, quer para as encorgalhar, fazendo coleiras para, no inverno, cozinhar o saboroso caldo de baginas, não faltando nas nossas mesas no dia de Entrudo. Viam-se também nas varandas os corgalhos de pimentos vermelhos, condimento de requinte que dava um toque especial que realçava qualquer iguaria e armazenavam-se as restes de cebolas no sobrado ou no palheiro. Participávamos nas alegres desfolhadas onde, jovens que nós éramos, descobríamos que o mundo era composto de homens e de mulheres. Armazenava-se o milho, destinado mais para a engorda do porco do que para a confeção da broa, que era de pouca tradição nas nossas aldeias raianas. E já se faziam planos para a compra de um marrano que devia estar sevado até ao Natal para depois servir de sustento à família durante todo o ano.Não havia mãos a medir para fazer a vindima e, com as alquimias ancestrais, tentava-se produzir, com todo o esmero, o melhor palheto da aldeia.Com a recolha dos produtos agrícolas vinha a organização das grandes feiras onde era comercializado o excedente para, com algum numerário, fazer face a outras necessidades.Passados os cálidos meses de verão, alguns comerciantes encerravam os estabelecimentos para irem a banhos, quer nas termas do Cró, quer nas Águas, em Sortelha ou noutras mais afastadas da região.E o mundo ovino e caprino não pretendia privar-nos do sabor dos excelentes cabritos que nasciam na primavera e que são o orgulho das nossas terras beirãs. Os bodes preparavam-se no mês de setembro para fazer o melhor que podiam para, cinco meses depois, assegurarem a continuidade das nossas tradições. Cada um de nós poderia completar os numerosos costumes e atividades que se iniciam no mês de setembro, sem esquecer a vida política, os tribunais, os encontros literários, a abertura dos teatros, enfim, a vida cultural.