Títulos académicos e afins:


A propensão para o uso de títulos académicos e nobiliárquicos é uma das características da cultura portuguesa. O uso de títulos (Dr., Eng.º, Arquitecto, Senhor Professor, Senhor Marquês, Senhor Comandante, Senhor Comendador, etc) é praticado diariamente e em comparação com outros países da União Europeia, os portugueses continuam a ser pródigos no uso e abuso de títulos.
É frequente observarmos situações em que, não se conhecendo bem o interlocutor, certas pessoas colocam um cauteloso Dr. antes do nome próprio…
Esta propensão nacional para a utilização de títulos, terá, naturalmente, diversas explicações.
Uma das mais plausíveis pode ser encontrada no trabalho desenvolvido por um sociólogo holandês, Geert Hofstede. O seu livro Culture’s Consequences, originalmente publicado em 1980, é uma obra de referência nesta matéria.
Neste trabalho, Hofstede tomou a cultura como variável independente, procurando analisar as suas implicações no funcionamento das sociedades e das organizações. O resultado desta investigação sugeriu que as diversas culturas nacionais podem ser caracterizadas de acordo com um conjunto de quatro dimensões, sendo a distância hierárquica particularmente relevante.
Conta-se o caso de um conhecido professor universitário que todas as semanas tem um programa na TV portuguesa, que ao concluir o seu doutoramento, deu ordens expressas no jornal onde então trabalhava, para que as secretárias e telefonistas de serviço, ao atenderem chamadas telefónicas para ele, dissessem: vou transmitir o recado ao Senhor Professor Doutor…
É verdade que a distância hierárquica reflecte o grau de deferência institucionalizado, assim como a necessidade da manutenção de um certo afastamento hierárquico. Nos países mais hierarquizados (Portugal, Espanha, Brasil), superiores e subordinados consideram-se como sendo desiguais por natureza. A distância entre chefias e subordinados é bastante elevada. Detecta-se uma grande reverência pelas figuras de autoridade, e atribui-se elevada importância aos títulos e ao status social.
Pelo contrário, em países com baixa distância hierárquica (EUA, Grã-Bretanha) a dependência dos subordinados relativamente aos chefes é limitada e os primeiros não sentem desconforto na presença dos superiores, considerando-se iguais por natureza.
Em Portugal  ainda se cultiva uma enorme distância hierárquica nas organizações e na vida privada. O uso de símbolos de status (aneis no dedo mindinho com a reprodução do “brasão” de família)  é um bom exemplo, pois representa uma forma de “assinalar” de “enfatizar” as distâncias entre pessoas pertencentes a diferentes estratos sociais.
Mesmo depois do 25 de Abril de 74, as distâncias sociais são ostensivamente estimuladas por alguns portugueses, que fazem questão de as manter.
Pergunto a mim própria e aos que tiveram paciência suficiente de me ler até aqui: será que com o acentuar da crise económica, a falta de comunicação e as barreiras sociais que têm sido cultivadas ao longo dos séculos, se vão perpetuar ad eternum?!?