Nós, portugueses, não nos distinguimos no planeamento ou na organização.

Sempre fomos mais “dados” ao improviso, ao instinto e ao “desenrascanço”. Neste domínio concreto, até somos muito eficazes! O planeamento impõe um trabalho persistente e disciplinado, com o estudo e a análise serenos das situações e das alternativas. Nós, portugueses, não temos, na generalidade dos casos - ou não tínhamos, na minha geração - uma particular inclinação pelo trabalho silencioso e paciente. Aliás, a paciência está longe de ser uma qualidade da nossa gente e da nossa Administração. A atividade do Serviço Nacional de Saúde aí está a demonstrá-lo mais uma vez. Quando, em setembro, se anunciou, em grandes parangonas e com desnecessário espalhafato, que nunca como neste ano, o Estado tinha adquirido um número tão elevado de vacinas contra a gripe e se lançou ao mesmo tempo uma campanha a apelar à vacinação, pelo menos dos mais velhos e mais vulneráveis, mas também de outros menos precisados, pensei com os meus botões: “Isto não vai acabar bem!” Com o medo da Covid-19 e com o crescimento dos índices da infeção que já então anunciavam a chegada de uma nova vaga, era fatal assistir-se a uma corrida à vacina da gripe nas farmácias e nos centros de saúde e, ou muito me enganava, ou as doses disponíveis não iriam chegar sequer para os mais velhos. Foi que nem ginjas! E quando isto se tornou evidente, lá estava a Drª Graça Freitas, Diretora-Geral da Saúde, funcionária sempre zelosa e disponível, a dizer o contrário do que se anunciara, aconselhando quem não tivesse indicação para a vacina para não se ir vacinar, porque as vacinas afinal não eram suficientes (?!).A minha pergunta é esta: custava muito ter feito as contas antes de lançar, com foguetório e charamelas, a ação de propaganda à vacinação contra a gripe? Aconselhava-se alguma prudência, uma vez que, na conjuntura que já se vivia, estava à vista que iria haver uma procura muito maior da mesma por causa do novo coronavírus. E depois, como de costume, alguma coisa falhou na logística e/ou na distribuição das vacinas pelas farmácias, para onde convergiu a fúria dos não servidos!E agora, permita-se-me uma prevenção: se foi assim com a vacina da gripe, como será com a distribuição e a ministração das vacinas contra o novo coronavírus?Um segundo exemplo: numa altura em que muitos hospitais do SNS já estavam a rebentar pelas costuras, com o pessoal médico e de enfermagem sem ter mãos a medir, exausto e angustiado perante o acréscimo exponencial de doentes graves de Covid, com o número diário de óbitos a aproximar-se da centena, como se explicam os longos meses perdidos até à celebração dos primeiros convénios com hospitais privados? Pela extrema gravidade que o caso assumiria, recuso-me a aceitar a existência de preconceitos ideológicos por parte do(a)s responsáveis de Saúde deste País.Mas o grande tema do momento no País e no Mundo é o que reside no confronto entre as forças políticas liberais ou moderadas e a extrema-direita populista e contra o sistema. As eleições americanas são paradigmáticas a respeito dos afrontamentos que dividiram os EUA em duas partes: dum lado, quem votou em Donald Trump e do outro os que deram o voto e a vitória a Joe Biden. Apesar de tudo, os resultados eleitorais de Trump surpreenderam. Depois de quatro anos de fake news, de uma gestão irresponsável da pandemia, de insultos, grosserias e comportamentos insultuosos para os adversários e ofensivos da própria democracia e do Estado de direito, o facto de ter atingido, a nível nacional, mais de 73 milhões de votos (47,3%), revelam um indiscutível apoio e traduzem uma grande onda de adesão. Claro está que a derrota de Trump é indiscutível. Ficou, a nível nacional, a mais de cinco milhões e seiscentos mil votos de Biden, que alcançou mais de 79 milhões de votos (50,9%) – números de 17 de novembro - e, no colégio eleitoral, tudo aponta para uma vitória do candidato democrata com 306 contra 232 grandes eleitores.Apesar desta clara vitória de Biden, Trump continua a não aceitar a derrota, imputando aos democratas diversos atos eleitorais fraudulentos e impugnando junto dos tribunais os resultados nos estados onde a luta eleitoral foi mais renhida. Vociferando, entretanto, que “a vitória lhe foi roubada”, recusa-se a proceder à transição dos poderes, num triste apego que tanto fere os interesses do povo americano como a Democracia em si mesma.  Envergonha os EUA, prejudica o bem do País e revela mais uma vez a criminosa indiferença pelo combate à pandemia. Por seu lado, a quase certa maioria dos republicanos no Senado vai constituir uma dificuldade acrescida para a Administração de Joe Biden. Estas eleições norte-americanas dão que pensar. Durante quatro anos, um infantilóide egocêntrico e populista presidiu a um projeto político que triturou o tradicional Partido Republicano e revolucionou o quadro político norte-americano, deixando o país profundamente dividido e convulsionado.Mas também na Europa há sinais evidentes de preocupação: a extrema-direita está em crescimento e em França Marine Le Pen apaga a direita tradicional; em Itália, Matteo Salvini ainda não desistiu de ser primeiro-ministro; na Alemanha valeu a posição da chanceler Angela Merkel, que impôs a anulação de uma aliança da sua CDU com a AfD, o partido de extrema-direita. E, em Espanha, correu mundo a notável peça de oratória política de Pablo Casado, líder do Partido Popular (da direita moderada) rejeitando a moção de censura do partido da extrema-direita Vox, contra o Governo do PSOE em coligação com o Podemos. Discurso violento contra o Vox e Sebastian Abascal (seu líder e dissidente do Partido Popular), mas também contra o primeiro-ministro Pedro Sanchez, Pablo Casado merece ser citado quando se dirige aos seus dois adversários na acutilância dum castelhano vigoroso que me recuso a traduzir : “Sánchez y usted (Abascal) son el íman y el metal, no solo se atraen y se complemantan, sino que expulsan todo lo que se resista a entrar en la política perversa de su campo magnético” (…) “Señor Abascal, Vox es el sueño del nacionalismo y el salva-vidas de Sánchez”.Por cá, um Pablo Casado não temos…! Temos um António Costa (um cansado?) com um País que o seu pragmatismo dividiu em dois blocos. Talvez com a “geringonça” ainda em pano de fundo não conseguiu conter um apelo ao BE e ao PCP para viabilizarem o OE para 2021. Com “una temeridad” que não lhe ficou bem, acrescentou: “No dia em que o Governo precisar do apoio do PSD, nesse mesmo dia o Governo cai”. Se ainda levássemos a sério o que os políticos proclamam, a frase seria triste… Assim, é apenas patética.Lisboa, 18 de novembro de 2020