Histórias que a Vida Conta

Em artigo para este Jornal publicado em 2 de Junho de 2016, escrevi que me parecia indiscutível que, na conjuntura política internacional existente ao tempo, o núcleo das nossas mais graves preocupações radicava no uso e abuso de agendas populistas, nacionalistas e radicais de governação.Para fundamentar a afirmação passei em revista o caso da Áustria, mas logo acrescentei que se tratava de “um fenómeno que é geral na Europa, uma vez que os partidos tradicionais e do centro não têm sabido responder com clareza à depressão dos eleitores, angustiados pelo medo e economicamente garrotados por políticas de austeridade e de crise”. Bastava olhar, acrescentei, “para o que se passa em França, no Reino Unido, na Alemanha, na Suécia, na Finlândia, na Dinamarca, na Holanda, na Polónia ou na Hungria de Órban. Como escreve Teresa de Sousa, no Público de 24 de Maio (de 2016), “as bandeiras são as mesmas: contra os imigrantes e os refugiados, e ainda mais se forem muçulmanos; contra a integração europeia; contra a globalização”.Mais escrevi que as nossas preocupações davam lugar ao mais negro pessimismo com o que estava a acontecer nas primárias norte-americanas e com as sondagens que já colocavam essa figura de opereta, chamado Donald Trump, a par da provável candidata pelo Partido Democrático, Hillary Clinton. E perguntava com veemência: “será que o eleitorado dos Estados Unidos da América ensandeceu?”.Sabemos o que aconteceu! Nas eleições presidenciais norte-americanas de Novembro de 2016 esse político arrogante, racista, populista, mentiroso e inculto foi mesmo eleito Presidente dos EUA. Esse resultado que então me parecia constituir um pesadelo para a América e um filme de terror para o mundo aconteceu mesmo. E, decorridos três anos e meio, depois de uma sucessão interminável de atos irrefletidos, de disparates, de acordos multilaterais rasgados, de provocações, falsidades e ofensas praticadas pelo Presidente Trump, depois de um processo de impeachement  por abuso de poder e obstrução à Justiça chumbado no Senado, com a lógica e os interesses partidários a sobreporem-se à investigação e à avaliação dos factos, a popularidade do Presidente dos EUA é, pasme-se, a mais alta desde o início do mandato. Ou seja, é cada vez mais provável que Trump venha a ser reeleito, até porque do lado democrático não aparece nenhum candidato viável: Joe Biden, aquele que teoricamente seria o principal adversário de Trump parece ter sido a grande vítima do processo de destituição do presidente, ele que tinha sido justamente o alvo das atividades gravemente ilícitas junto do Presidente da Ucrânia, postas a descoberto pala investigação na Câmara dos Representantes.Como é possível que o Partido do grande Abraham Lincoln (sim, Lincoln era republicano) seja uma marioneta nas mãos de um milionário sem princípios nem ideais como é Donald Trump?Mas as vitórias de políticos impreparados e arrogantes estendeu-se também ao Brasil, com a eleição de Jair Bolsonaro. A corrupção generalizada permitida e patrocinada pela governação do PT de Lula da Silva pode ajudar a explicar este mistério de ver um homem ignorante e inculto chegar à presidência do BrasilMas, como se sabe, o populismo e as agendas radicais não são um exclusivo da extrema-direita; são igualmente acarinhados e concretizados em doses massivas de propaganda e desinformação pelos partidos e movimentos de extrema-esquerda. Basta atentar no que se passa, há já vários anos, perante o silêncio ensurdecedor da nossa esquerda radical, na Venezuela. Nicolás Maduro, esse “ditador de pacotilha”, émulo latino-americano do magnata-catatua Donald Trump, concentra poderes, põe a tropa na rua e viola os direitos fundamentais dos venezuelanos que fogem aos milhões para o estrangeiro. De nada servem os apelos ou as reprimendas de políticos sul-amerinos de esquerda. “Maduro está louco», concluiu o antigo Presidente uruguaio José Mujica. Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), ex-MNE do Uruguai   invetivou Maduro nos seguintes termos: “Negar a consulta ao povo, negar-lhe a possibilidade de decidir, transforma-te em mais um ditadorzeco, como tantos que o continente já teve”. Na mesma mensagem acusou Maduro de trair o seu povo: “Nunca devolverá à vida as crianças mortas nos hospitais por não terem medicamentos, nunca poderá libertar o povo de tanto sofrimento, intimidação, miséria, desassossego e angústia”. Mas, da parte dos titãs da nossa esquerda radical não se ouve uma voz de sistemática e dura condenação quanto ao regime venezuelano.  Rui Tavares, tão preocupado com o respeito pelos direitos humanos e pela unidade de esquerda, dirige o núcleo do seu ódio de estimação contra Viktor Orbán, convoca Ana Gomes como candidata às presidenciais, dá palpites e receitas a tudo e a todos, mas quanto ao Livre que ajudou a criar guarda um espesso (seráfico ou envergonhado?) silêncio. Como se costuma dizer: “bem prega Frei Tomás - faz o que ele diz e não o que ele (não) faz”…!Entretanto, foram finalmente eleitas as direções do PSD e do CDS. Num caso e noutro, parece-me que os eleitores terão acertado, tendo presentes as alternativas – nada brilhantes – que se perfilavam. O PSD continua a ser liderado, mas agora num quadro de maior estabilidade, por Rui Rio. Não é um líder carismático. Mas é um político sério e coerente, tanto quanto um chefe político pode sê-lo. Espero que a esquerda radical deixe de qualificar o PSD como partido de direita. Quanto ao CDS escolheu Francisco Rodrigues dos Santos (Chicão), o candidato tido como mais à direita. Pareceu-me claramente mais entusiasmante do que os seus dois principais opositores: João Almeida e Flipe Lobo D´Ávila, ambos cinzentões e já gastos prematuramente, muito mais fracos do que era Assunção Cristas e menos carismáticos do que Francisco.A opção por um candidato jovem e com ideias claramente conservadoras pareceu-me, na atual conjuntura das forças políticas posicionadas à direita, a mais inteligente e promissora para o CDS, partido que saiu das últimas legislativas em estado de profunda anemia. Na verdade, será a única forma de poder conter os avanços e os progressos que, com toda a probabilidade, o Chega vai ter. Em artigo que publiquei há já muitos meses em A GUARDA escrevi que Portugal iria ser atingido pelo fenómeno eleitoral da direita radical ou da extrema-direita. Já não viverá muito tempo quem não assistir à subida exponencial do Chega. André Ventura revela-se candidato temível: novo, com uma figura simpática e enorme experiência de debate, atrevido e sem réstia de timidez, combativo e audacioso, bom orador e bem preparado – constou-me que é doutorado em Direito - será nas presidenciais um adversário a ter muito em conta para Marcelo Rebelo de Sousa, muito especialmente em debates ao vivo, em direto e incisivos, dado que eles não constituem para o atual PR o seu ponto forte. André Ventura, cujo maior perigo para a democracia poderá advir da “clientela extremista” que se lhe colará inevitavelmente se nele vir um paladino de sucesso, está aí e é tudo menos um mero verylight… Lisboa, 13 de fevereiro de 2020