Gentes da Guarda

*“O tempo que é a água da alma”      Eduardo Lourenço, o nosso pensador, deixou à Biblioteca Municipal de que é patrono (BMEL) o espólio literário. Dentro dos livros e nos papéis, há muitos textos inéditos que valerá a pena serem recuperados. No âmbito do projeto INCENTIVART, promovido pela Câmara Municipal da Guarda, a Professora Anabela Matias, analisando alguns desses textos inéditos, produziu um conto a partir da biografia de E. L., que intitulou “Da minha cidade penso o mundo”.Como diz o Sr. Vice-Presidente da Câmara da Guarda, Vítor Amaral, no prólogo da edição, “a residência artística da autora, possibilitou a consulta e o estudo de uma parte do espólio que o ensaísta doou à sua biblioteca. Para além dos livros, a inspiração surgiu da leitura de cartas, bilhetes, apontamentos e notas dispersas de E. L..”(p. 4) Foi, então, a partir desta base que a autora caminhou na construção de uma narrativa literário-filosófica e que originou o referido conto. Anabela Matias afirma que Eduardo Lourenço foi o último grande homem que ousou pensar o seu país, o poeta do nosso pensamento.” (p.7)A narrativa centra-se num espaço da cidade da Guarda e faz uma retrospetiva do percurso do pensador ao longo de uma vida repartida por sítios hipoteticamente marcantes. O centro é, obviamente, a Guarda, mas o local de nascimento -S. Pedro do Rio Seco, Lisboa, Coimbra e Vence são tempos relevantes na caminhada pensadora do autor. S. Pedro do Rio Seco fica no passado do passado. Era a sua aldeia a acenar a Espanha, que ficara parada no tempo; lá onde, como para Caeiro, tudo era natural como as estações do ano, a vida e a morte, uma sucedia-se à outra. Nesse tempo sentiu-se eterno, …. O tempo, esse inexorável inimigo do Homem, sempre o tentou convencer de que a eternidade não é nunca, …. (p. 8) Desgarrado dela, mas sempre preso à sua genuinidade. Aí nasceu, segundo a autora, o seu heterónimo Pedro Seco. O papel dele na narrativa será a recordação dessa aldeia mágica. Da Guarda, recorda as raízes do pensamento, a aprendizagem de uma vida longe do ambiente familiar, a memória histórica que lhe vem à lembrança cada vez que aqui pára. Retrospetivamente, leva-nos num passeio pela cidade e pelos espaços mais notáveis; revê a cidade através da janela da Pensão Santos, a Torre dos Ferreiros, a Praça Luís de Camões, a Rua Direita, o Jardim, o Liceu, … E, a propósito da Praça Velha, surge outro heterónimo, Adalberto Ferreira. E em conversa dialogal ficamos a saber o porquê do nome já que se faz a simbiose com a obra vergiliana e o romance Estrela Polar. As manas e a fantasia sobre o espaço à volta da Sé são tema de recordação da cidade. Do granito retinto e duro ao espírito conservador fala-se novamente do tempo e da sua grandeza e diz-se que a cidade era na altura muito republicana e muito clerical. (p. 11) Da Guarda nunca se sai na narrativa, mas sai-se constantemente para a ela voltar inequivocamente.Depois, evoca-se a breve passagem por Lisboa que não era a sua cidade, nunca seria, apenas o mar lhe daria um sentido de liberdade que nunca havia sentido. (p. 14)  Lisboa foi um sítio de não comunicação. E desloca-se, a recordação para Coimbra onde surge mais um heterónimo, Eduardo Coimbra. Nessa cidade respirava-se literatura, arte e poesia. (p. 17)Finalmente a passagem para França, o conhecimento de Annie, o cidadão do mundo que mesmo longe continuará a pensar português e a pensar Portugal. A distância necessária para poder observar, no país da liberdade, o que se passava no país salazarento e limitado na expressão de pensamentos. Como é que um homem que nasceu em S. Pedro do Rio Seco podia ser outra coisa que não português? (p. 21).“Quando morre um poeta ou um escritor toda a terra fica enlutada, num pranto eterno. Quando morrer Eduardo Lourenço deveremos dizer: “A Eduardo Lourenço devemos a lição de interrogar não só a vida, mas também a morte com sabedoria.” (p. 19)O livro contém, na sua parte final, uma série de anexos com textos de Eduardo Lourenço, inéditos e que, como referido no início, fazem parte do espólio do escritor doados à BMEL.* Anabela Matias, Da minha cidade penso o mundo, edição da CMG/BMEL, 2021