Viagens ao reino de Clio


No dia oito de março de 1808, a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro, na sequência de uma mudança da corte motivada pela invasão dos franceses. Este imenso território, a colónia portuguesa do Brasil, tinha cerca de três milhões de habitantes, na sua maioria escravos. Tinha uma economia com alguma importância pois exportava cacau, café, peles de boi, arroz, tabaco, anil, madeiras, aguardente, ouro, diamantes e outras riquezas.
Que sociedade foi a corte portuguesa encontrar do outro lado do Atlântico? De acordo com o testemunho de João Rodrigues de Brito, deputado às cortes, “A reclusão do sexo feminino, a quem os costumes deste país têm reduzido aos exercícios domésticos do interior da casa, os quais não bastando para ocupar um tão grande número de braços, fica por conseguinte aquela metade da nossa povoação destituída de meios de subsistência e a cargo dos varões, que por isso evitam os matrimónios. Neste particular a introdução dos costumes das nações mais civilizadas da Europa, onde o belo sexo se ocupa em vender nas lojas e no exercício de todas as artes, que não exigem forças, não só duplicaria a soma das riquezas anualmente produzidas pelo trabalho humano mas também a povoação; e eu ouso crer que as suas virtudes não perderiam nada na comunicação e trato civil dos homens; antes a maior independência em que ficariam a respeito deles, as preservaria dos perigos a que expõe a necessidade. Além disto, o hábito do trabalho ativo lhes daria uma constituição mais vigorosa e animada; pois vejo a maior parte das senhoras definhar em moléstias nervosas, procedidas da inação e enjoo em que vivem.
Seria conveniente auxiliar a comunicação das famílias, estabelecendo um passeio público com as comodidades competentes para atrair o concurso dos moradores a verem-se a falarem-se.”
Os índios do Brasil encontram-se confinados ao seu meio natural, os bosques, ou são fixados nos aldeamentos, embora estes sejam em menor número. Os trabalhos agrícolas e das minas são assegurados pelos escravos que continuam a ser trazidos de África, sobretudo de Angola. Nas duas décadas anteriores à chegada da corte portuguesa foram trazidos cerca de cem mil escravos africanos.
A sociedade brasileira estava organizada ainda em moldes arcaicos e a chegada da corte vai provocar enormes modificações políticas, sociais e económicas numa colónia que estava organizada, administrativamente, em dez capitanias gerais: Pará, Maranhão, Pernambuco, Baía, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande de São Pedro, Goiaz e Mato Grosso.
Uma das primeiras medidas tomadas pelo Príncipe Regente de Portugal, D. João VI, determinava a liberdade para as indústrias no Brasil. Assim, no dia 1 de abril de 1808, a folha oficial da corte publica o seguinte documento: “Eu, o Príncipe Regente, faço saber aos que o presente Alvará virem, que desejando promover e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas e a indústria que aumentam a população dando que fazer a muitos braços e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta dela se entregariam aos vícios da ociosidade e convindo remover todos os obstáculos que podem inutilizar e frustrar tão vantajosos proveitos, sou servido abolir e revogar toda e qualquer proibição que haja a este respeito no Estado do Brasil e nos meus domínios ultramarinos e ordenar que daqui em diante seja lícito a qualquer dos meus vassalos, qualquer que seja o país em que habitem, estabelecer todo o género de manufaturas sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que hei por bem derrogar o alvará de 5 de janeiro de 1785 e quaisquer leis e ordens que o contrário decidam.”
Considerando a entrada dos franceses em Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, publica um texto, no Rio de Janeiro, a 1 de maio de 1808, onde procura explicar os problemas surgidos com a invasão francesa e os sacrifícios nacionais para manter a neutralidade. Apesar desta tentativa de serenar os ânimos dos invasores, Napoleão Bonaparte declara extintos os direitos da Casa de Bragança. D. João VI vê-se assim obrigado a cortar todas as relações com a França e autoriza os portugueses a fazerem a guerra por terra e por mar. Esta decisão anula o que havia sido determinado nos tratados de Badajoz e Madrid, de 1801, e o de neutralidade, de 1804. Tratava-se de confirmar a realidade da situação vivida na metrópole, que lidava com uma invasão estrangeira que não era bem recebida pela maioria dos portugueses, seja qual fosse a classe social a que pertencessem.