Viagens ao reino de Clio


«Caminhámos ao longo da ilha Samatra, atolados na vasa até à cinta, aquele dia, e, já quase sol posto, chegámos à boca de um rio pequeno, de pouco mais de um tiro de besta em largo que, por ser muito fundo e nós virmos muito cansados, não nos atrevemos ao passar. Ali nos agasalhámos aquela noite, metidos na água até ao pescoço e a passámos com bastante tormento e trabalho, por parte dos moscardos e mosquitos do mato, que nos atazanavam de tal maneira, que não havia nenhum de nós que não estivesse banhado em sangue. Os três marinheiros e eu, nos determinámos em passarmos o rio da outra banda, com tenção de dormirmos numas árvores altas que estavam aparecendo da outra parte, com medo dos tigres e panteras negras, de que toda a terra era muito povoada, e fora outras muitas diversidades de animais peçonhentos que nela havia, com infinidade de cobras de capelo e outras de sardas verdes e pretas, tão peçonhentas que com o bafo somente matam!»
«A pessoa d’el-rei estava em cima no piumbre que era a tribuna, cercado de dez ou doze meninos que ao redor dele estavam em joelhos, com suas maçãs d’ouro pequenas a modo de cetros postas aos ombros. El-rei seria de idade de quarenta anos, de estatura comprida e de poucas carnes e bem assombrado. Tinha a barba curta e com bigodes à turquesa, os olhos algum tanto inclinados, de aspeto severo e grave, vestido em um quimão roxo a modo de opa, recamado de pérolas e nos pés umas alparcas verdes, lavradas de ouro de canotilho guarnecidas das mesmas pérolas. E na cabeça uma celada de cetim roxo com uma borda de diamantes e de rubis, entrelaçados uns pelos outros. Antes de chegarmos a ele dez ou doze passos, fizemos nossa cortesia, beijando o chão três vezes, com outras cerimónias que os intérpretes nos ensinavam. El-rei mandou então que cessasse a música dos instrumentos e disse ao britaguer:
- Pergunta a essa gente do cabo do mundo como se chama a sua terra e que distância haverá dela a esta do Chim em que agora estou.»
A que um dos da nossa companhia em nome de todos respondeu que a nossa terra se chama Portugal, cujo rei era muito grande, poderoso e rico e que dela aquela cidade do Pequim haveria distância de quase três anos de caminho. De que ele fez um grande espanto, como homem que não tinha esta máquina do mundo por tamanho.»

Batalha Naval diante de Vila Franca do Campo que decidiu o destino das pretensões do prior
do Crato ao trono português

«Calcula-se que na capitaina francesa morreram 400 homens, porque com os que ela trazia e os que lhe entraram de socorro, se entende que passariam de 700 os que pelejaram nela. Na sota-capitaina, que ficou meio alagada pelas três naus que a tinham investido, sabe-se que morreram mais de 200 homens, e de uma das naus que foram ao fundo, se afogaram os 300 soldados, só escapando o capitão. Das outras naus, morreram muitos, especialmente de uma que foi rendida por duas naus da Guipuzcua, porque numa que tinha morto alguns vascongados, mataram-nos a todos.
Nesta conta parece que dos inimigos foram mortos até 1200, sem os feridos, que são muitos, além dos que iriam nas naus que fugiram.»

O culto do Espírito Santo
nas naus da Índia

«Costumavam os portugueses eleger um imperador pela festa de Pentecostes e assim aconteceu também nesta nau S. Francisco. Com efeito, elegeram um menino para imperador, na vigília de Pentecostes, no meio de grande aparato. Vestiram-no depois muito ricamente e puseram-lhe na cabeça a coroa imperial. Escolheram também fidalgos para seus criados e oficiais às ordens, de modo que o capitão foi nomeado mordomo da sua casa, outro fidalgo foi nomeado copeiro, enfim, cada um com o seu ofício, à disposição do imperador. Entraram nisto até os oficiais da nau, o mestre, o piloto, etc. Depois, no dia de Pentecostes (ou Páscoa do Espírito Santo), trajando todos a primor, fez-se um altar na proa da nau, por ali haver mais espaço, com belos panos e prataria. Levaram, então, o imperador à mista, ao som de música, tambores e festa e ali ficou sentado numa cadeira de veludo com almofadas, de coroa na cabeça e cetro na mão, cercado pela respetiva corte, ouvindo-se entretanto as salvas de artilharia. Comeram depois os cortesãos do imperador e, por fim, serviram toda a gente ali embarcada, à volta de trezentas pessoas.»