Viagens ao reino de Clio


Com a morte do cardeal-rei D. Henrique, subiu ao trono de Portugal o rei de Espanha, Filipe II, o primeiro desse nome em Portugal. Este tinha apresentado as suas pretensões no momento em que D. Henrique convidou todos quantos se julgassem com direito a suceder-lhe na coroa a exporem por escrito as razões que invocassem. O rei espanhol enviou logo um procurador às Cortes de Almeirim, expondo as razões do seu direito sucessório, na pessoa do duque de Osuna.
Mas a pretensão do rei espanhol não foi bem recebida no país. Um forte sentimento nacionalista opôs-se a Filipe II. Este, para vencer a resistência, enviou uma frota comandada por D. Álvaro de Bazám e um exército comandado pelo duque de Alba, até que, no dia 15 de abril de 1581, as Cortes reunidas em Tomar declararam Filipe II de Espanha como rei de Portugal. No dia 25 de julho entrou em Lisboa e jurou guardar e conservar todos os foros, privilégios, usos e liberdades que o seu novo Reino, de Portugal, tinha por concessão dos seus antecessores. Acabaria por fixar residência na capital portuguesa nos dois anos seguintes. Contudo, esta união não significava total perda de liberdade pois ficaram escritas garantias de autonomia do reino português, embora a política externa de ambos os países tivesse de ser comum. Doravante, o inimigo de uma das nações era declarado inimigo da outra, o que levantava muitos problemas já que, até aí, muitos dos inimigos de um país eram amigos do outro. Por exemplo, na área jurídica, a introdução de novas leis teria de resultar de decisões tomadas em cortes portuguesas, por juristas portugueses. O território nacional manter-se-ia íntegro, com as propriedades fora da posse dos espanhóis, bem como ficavam asseguradas a moeda e língua portuguesas. Um aspeto positivo foi a supressão de barreiras alfandegárias entre os dois reinos, o que veio relançar as exportações nacionais e reequilibrar a situação fiscal do nosso reino.
D. António, Prior do Crato, confiava no apoio da Inglaterra e da França, inimigos dos espanhóis, mas com uma ajuda fraca, o seu pequeno exército foi derrotado pelo duque de Alba na Batalha de Alcântara. D. António teve de fugir do país e refugiar-se em França. Contudo, continuou a luta, a partir dos Açores. Com nova derrota, refugiou-se definitivamente em França, onde veio a falecer em 1595.

Combate em Alcântara
Lisboa, 25 de Agosto de 1580
«Sabendo o duque de Alba por espias e ruins portugueses, como grande parte da gente da cidade se recolhia a ela a dormir em suas casas, aconteceu de súbito o arraial do Senhor D. António trabalhando de entrar pela ponte de Alcântara, assim para lhe inquietar a gente, como ganhar naquela revolta contra os moinhos do vento, um outeiro que ficava sobranceiro ao arraial do inimigo e prantou nele a sua artilharia.
Em amanhecendo, mandou o duque ao Prior seu filho, que cometesse o arraial pela parte aonde a artilharia estava prantada. O Prior ajudado da sua artilharia cometeu o arraial com a sua gente de cavalo e outra de escopeta; a gente de cavalo portuguesa, que era muita e boa: mas molestados da artilharia e escopetaria do inimigo viraram muitos as costas, sem aproveitar nada o esforço que lhes punha o Senhor D. António. Fugindo os de cavalo, foi parte para que fugisse também a gente de pé.
O Senhor D. António, vendo inclinar-se a vitória à parte do inimigo, dizem que se meteu com alguns fidalgos principais no mais perigoso da batalha como homem que não queria mais vida e pelejando valorosamente lhe aconselharam os seus, pois que a vitória estava já declarada pela parte contrária se recolhesse à cidade, o que ele fez ferido de duas feridas na cabeça, das quais uma lhe fez um cavaleiro luzido do dos contrários, que logo ali foi morto pelos fidalgos que o acompanhavam e a outra lhe fez um fidalgo português dos seus mesmos, que foi de todos bem conhecido. E por aqui se verá com quantas traições se alcançou esta vitória contra o Senhor D. António.»