Histórias que a Vida Conta

Marcelo Rebelo de Sousa teve uma claríssima e justa vitória eleitoral.Num quadro de verdadeira tragédia, quando os números diários de mortes e de contágios são assustadores e se receava uma abstenção muito acima de todos os parâmetros até hoje vistos, os portugueses afluíram às urnas e fizeram ouvir a sua vontade. A taxa de abstenção foi grande, mas não tão alta como se chegou a admitir. Com mais de 60% dos votos, ganhou o melhor candidato. Como já escrevera há quinze dias, MRS mostrou na campanha o melhor da sua personalidade. Dotado de uma inteligência invulgar e de uma rara perspicácia política a que alia uma capacidade teórica admirável, revelou também uma lhaneza competitiva sem mácula, respondendo a todas as questões com elevação e superior lisura. Ou seja, ganhou (por muitos) não só pelas competências reveladas e pelo alto grau de reconhecimento público que o dispensava de fazer “campanha de rua” mas também pela superioridade moral de que fez prova. Candidatos como André Ventura - acima de todos, com o seu populismo desbragado -, Ana Gomes e, até, Marisa Matias, deviam rever os debates em que intervieram e aprender regras de delicadeza e de decência para o futuro.Quem escreve isto está longe de ser um indefectível admirador de algumas facetas da personalidade do Presidente da República. Mas, na hora de escolher, por temperamento e por formação, tento sempre ser justo e escolher o mais apto para servir o interesse nacional. Por isso, embora o tenha criticado várias vezes ao longo do mandato por uma excessiva colagem ao Governo e por algumas medidas infelizes, acima das quais coloco a não recondução da anterior Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, não podia deixar de optar por ele, por ser, de muito longe, o candidato mais preparado e mais capaz de ajudar o País neste momento tão difícil para todos nós.Assumiu culpas que estavam longe de ser dele … ou só dele. Deu o peito às balas, dizendo que ali estava, pronto a aceitar o resultado de uma eventual punição no voto popular. Num mundo de maus exemplos por parte dos políticos, foi digno e revelou despojamento pelo poder. Outros deveriam ler e seguir a sua lição.MRS fez uma campanha espartana, à semelhança, aliás, da de há cinco anos. Foi a corrida de um homem só. Não que estivesse obviamente sozinho, uma vez que teve apoios explícitos do PSD e do CDS e implícitos por parte de grande parte do PS, no seguimento do episódio de António Costa na AutoEuropa.Mas, voluntária e conscientemente, dispensou acompanhamentos e convívios de ou com personalidades mais ou menos notáveis desses partidos. Foi por isso que se revelaram algo ridículas as declarações de felicitações de Carlos César, Presidente do PS e de Rui Rio (um desastre comunicacional) e a patética intervenção triunfal de Francisco Rodrigues dos Santos (ao que chegou o partido de Amaro da Costa !!!).O seu discurso de “vitória” na Faculdade de Direito de Lisboa foi uma peça exemplar de oratória política, cheia de conteúdo e de humildade democrática, a começar logo pela abertura - um sentido tributo aos milhares de portugueses que estão a ser dizimados pela pandemia -, passando pela declaração da perfeita consciência que tem de que a vitória eleitoral não representou qualquer cheque em branco e terminando na enunciação clara dos grandes propósitos que nortearão o seu novo mandato.  Como referiu António Capucho, numa rara intervenção na RTP (e se ele faz falta no panorama político nacional e principalmente no PSD…!), “foi um discurso não glorificador centrado principalmente na luta à pandemia”. Não vou cometer a indelicadeza de dar conselhos ou sugestões a quem, com tanta legitimidade e dignidade, renovou o seu múnus presidencial. Honrarei a admiração que me mereceu continuando a criticá-lo sempre que me pareça adequado e oportuno. E, se o meu voto não foi um cheque em branco não deixou de se converter em preito sentido a um “homem só” na sua singular e justa vitória.Entretanto, cá vamos, em confinamento, sofrendo diariamente a crueldade da tragédia que se abateu sobre Portugal e o mundo. Não vou repetir números, previsões nem relatos sobre a catástrofe que se está a viver nos Hospitais. Honra e louvor aos profissionais de saúde que tudo fazem para combater o flagelo.Não quero, no entanto, deixar de fazer uma referência à entrevista da Ministra da Saúde e do Presidente do Conselho da Ética para as Ciências da Vida (CECV), Professor Jorge Soares, à jornalista Fátima Campos Ferreira, na RTP, em 25 do corrente mês de janeiro. Dela destaco algumas passagens que refiro, porque são retratos fiéis do “desencontro” em que vivemos nestes tempos de provação. Falam por si!- Professor Jorge Soares: “Não estamos a tratar os doentes como sabemos. A cadeia de comando falta e obscurece a lucidez”. “O modelo atual das reuniões do Infarmed não faz qualquer sentido. Não há, no fim, qualquer esforço de síntese”. E, ainda, a demora na celebração dos acordos com os privados e a necessidade de um discurso capaz de, sem preconceitos ideológicos, mobilizar as pessoas e os recursos privados e sociais, bem como de apelar aos estudantes de medicina para reforçarem as equipas de rastreio. Foi enfático ao sublinhar a “muita dificuldade, existente em Portugal, em antecipar cenários»”.- Fátima Campos Ferreira: “Já morreram mais pessoas em Portugal de Covid do que na guerra colonial”. “Não há planeamento no combate à pandemia”.- Ministra Marta Temido (exaltada): “É criminoso (sic) dizer que não houve planeamento”, acrescentando ser necessário “abandonar essa espécie de bullying sobre quem está a fazer o seu melhor”. “O Governo português está a acionar todos os mecanismos de que dispõe, especialmente a nível internacional, para garantir a assistência aos seus utentes” (palavra que considero muito infeliz, mormente na boca de um governante). Nem o muito cansaço nem a enorme pressão a que está sujeita lhe dão o direito de reagir assim, qualificando como “criminosas” afirmações que são uma evidência salientada pelos mais variados setores sociais. Na realidade, afirmações sobre a falta de articulação, planeamento e antecipação de cenários, o insuficiente rastreamento e deficiente seguimento das cadeias de infeção, as improvisações, o permanente “correr atrás do prejuízo”, não são acintes antidemocráticos, são verdades enfatizadas por eminentes especialistas como é o caso dos Professores Robalo Cordeiro ou Constantino Sakelarides, ou pelo Dr. Filipe Froes, em entrevista cristalina concedida na segunda-feira passada a Miguel Sousa Tavares. Tal pena não os terem ouvido enquanto era tempo!
Lisboa, 27 de janeiro de 2021