A árvore incógnita

Estava-se no tempo da neve, dos dias frios repletos de geada e das noites vazias, preenchidas pelo som da chuva, que embalava as crianças com a sua canção irregular e aguda, estava no tempo de Natal. Raquel olhava pela janela, enquanto esperneava no seu lugar devido à falta de espaço, o pai e a mãe tinham ficado encarregados de trazer as mercearias que serviriam para cozinhar as doçuras daquela época especial. Observava o relevo e as casas desoladas, observava as vilas com as suas luzes comemorativas modestas, que com o desfalecer do sol, começavam a parecer pirilampos tímidos a pairar por entre os ramos de árvores despidas e postes de betão. Raquel estava entusiasmada pois, este Natal iria passá-lo na aldeia, com a sua família toda junta, era uma ocasião rara, mas feliz. Quando finalmente chegaram, deparam-se com aquela casa antiga, que lentamente se desfazia, mesmo estando muito longe da morte. Pelas suas janelas era irradiada luz, a sua porta estava aberta e de lá de dentro ouviam-se várias vozes, uma era claramente a da rádio (devido às interferências), outras misturavam-se por entre discussões, cantos e risos, “aquela casa está muito longe de ser aborrecida” - pensou ela, enquanto saía do carro e agarrava o seu peluche favorito.  Raquel era uma menina com 5 anos, de estatura média (sendo-lhe frequentemente atribuído o termo de “lingrinhas”), possuía uma tez pálida que fazia contraste com os seus olhos e cabelos cor de carvão e, por isso, ganhara a alcunha de Branca de Neve. Ela estava bem agasalhada, desde o seu quispo volumoso, às suas galochas axadrezadas e ao seu cascol de lã que lhe cobria a maior parte das feições. Agora, nas suas pequenas mãos, apenas levava o seu fiel companheiro Pato Marreco (um patinho, que devido à falta de enchimento, andava sempre curvado), que a acompanhava em todas as suas viagens. A menina foi a correr, quase tropeçando nos degraus gastos, e ao entrar, sentiu logo o aroma ao fumo e cinza (vindo da velha lareira, chamuscada pelos anos) e no chão sentiu-se um ligeiro tremor, dando início a uma balbúrdia de sons, pés começaram a sapatear no chão de tijoleira, vozes cessaram, objetos foram pousados (ou talvez largados) e, no fim, para acabar com aquela sinfonia, ouviram-se os leves batuques da gajata da avó no chão e, assim, todos foram ver com grande curiosidade de quem era o carro cujo motor rugia e de quem se tratava. Posteriormente, houve abraços e beijos, palavras carinhosas trocadas e atualizações sobre o estado atual da refeição. Raquel estava avidamente alegre pois ela adorava o Natal, não só o conceito de receber prendas, mas também o ambiente que esta festa trazia, o amor que os rodeava, e acima de tudo, as decorações. As árvores de Natal repletas de berloques extraordinários e criativos, os presépios com as suas estatuetas e o seu significado especial e as luzes que cintilam, que transformam espaços escuros num pleno céu estrelado. Mas, para desilusão dela, após toda aquela comoção, não havia uma única referência àquele feriado único (para além da agitação e comida, claro). Ela debateu-se com essa questão durante alguns momentos, até que decidiu mencioná-la:-Onde estão as decorações? As divisões estão incompletas sem elas, e sem árvore, aonde é que o Pai Natal vai pôr os nossos presentes?A tia e a mãe pareciam as únicas que tinham ouvido a menina a questionar a falta de adornos, e na verdade, ambas tinham esquecido, por breves momentos, essa tradição natalícia. Entreolharam-se, e com um grande sorriso, pegaram cada uma na mão de Raquel e, seguiram caminho para ir buscar aquilo que faltava para completar o espírito natalício. Seguiam rumo por uma ruela estreita e calcetada, emparedada por pedras velhas amontoadas, que ameaçavam ruir a qualquer momento. Estava escuro como o breu, e se não fosse pela sua mãe e tia, que a seguravam carinhosamente, Raquel já teria tropeçado nos calços, e possivelmente, estatelado no chão. Por fim, elas chegaram a um pequeno palheiro, aproximaram-se e enquanto a sua tia tentava abrir a porta de fechadura enferrujada, a pequena começara a imaginar que tipo de decoração encontraria. A porta cedeu, e ao entrar ela deparou-se com pilhas de lenha num canto e objetos que formavam uma silhueta sinistra no outro, Raquel teve de esperar lá fora devido aos perigos que lhe poderiam suceder ali dentro (não ajudava o facto de ser trapalhona e curiosa). Ao fim de algum tempo, as duas saíram, ambas com caras que não prometiam boas notícias, e anunciam que a sua busca tinha sido em vão, de facto, a última e única pessoa que tinha guardado tudo tinha sido o seu avô. A menina ficou instantaneamente triste, o seu avô. Aquelas palavras pesavam no seu coração, o seu avô tinha “partido” no ano passado, ela não entendia o que significava isso, sempre que perguntava quando voltaria ou se lhe poderia escrever uma carta para contar as boas novas, as expressões dos adultos murchavam como as flores no inverno, e por isso, a certa altura, parou de insistir. Sentia a sua falta, mas sabia que ele voltaria, pois, quem é que abandonaria o seu lar e as pessoas que ama para sempre? No entanto, naquele momento o que lhes restava era fazerem o caminho de volta com as mãos vazias. Raquel desolada, caminhou lentamente e com lágrimas prestes a brotar dos olhos, até que, ao longe, conseguiu observar a fachada da casa antiga que ela adorava.Estava uma ligeira brisa no ar, quando Raquel, ao aproximar-se do seu segundo lar, pôs os seus olhos naquela vista que lhe ia tirando o fôlego. Toda a sua família estava disposta ao longo das escadas do balcão (“como os enfeites numa árvore”- pensou ela), ao olhar com atenção, repara que a sua priminha está a segurar um pequeno livro de capa dura ilustrado com a imagem do menino Jesus debaixo da estrela de Belém, todas as luzes da casa estavam ligadas e incidiam nas faces das  pessoas, fazendo sobressair o seu sorriso e olhos reluzentes, ouviam-se no ar as suas vozes e risadas (“como o mais belo canto de natal alguma vez experienciado”- murmurou enquanto se apercebia de uma lição valiosa). De repente, ela afastou-se um bocado de toda aquela convivência, olhou para cima, fixando aquela cena celestial:- Pai Natal, espero que consigas ver a nossa árvore, que fiques encantado com as decorações que nela habitam, com as variadas formas que tomam e as recordações que transportam; que consigas sentir o seu luzir e ouvir a sua balada, que persiste em residir na calada da noite. Por favor, deixa os presentes no interior desta, assim estarão abrigadas da chuvada e, nós, pequenos enfeites, os poderemos abrir em segurança e juntos.Ao acabar de pronunciar o seu desejo, vai ter com os que ama, e junta-se às celebrações do Natal.Beatriz Raquel Meireles Madeira – 17 anosEscola Afonso de Albuquerque