(conclusão)


[Publica-se a conclusão do presente artigo, iniciado na semana anterior, fruto da oportunidade consentida pelo 80º aniversário (19/5/2016) da instituição da organização nacional denominada “MOCIDADE PORTUGUESA” (M.P.)]

Entre nós, importa destacar Ramalho Ortigão (1836-1915) [cf. “Farpas”, tomo VIII, pág 305 (edição da Livraria Clássica Editora, 1970)], que, ao descrever um desfile dos alunos do Colégio Militar, rejubila com o aprumo e disciplina que apresentam, dando-o como exemplo do que deve ser feito para influenciar a educação cívica da juventude: a prática da ginástica, a defesa das verdadeiras virtudes militares e o culto do dever. No mesmo sentido, Carlos Malheiro Dias (1875-1941), publicou “Exortação à Mocidade”, lembrando aos jovens que “um povo sem ideais é como um corpo sem sangue”, pedindo-lhes “amai a vossa Terra, mais do que os regimes, servi a vossa Pátria mais do que os homens, revigorai a têmpera do vosso caracter”.
Ambos os precedentes autores são havidos como pertencentes à história dos antecedentes da M.P. [cf. António Maria Zorro “Chama Inquieta”, Parceria A.M. Pereira, 1973, pág 37].
Uma das primeiras medidas tomadas após a proclamação da Republica [1910] foi a criação da “Instrução Militar Preparatória”, com o desiderato de reformar a mentalidade portuguesa pela via da instrução e da educação cívica.
Com o mesmo propósito, surgiram vários movimentos juvenis, de diversa índole, interessados em envolver os jovens na sua valorização individual [por ex. o “Centro Académico da Democracia Cristã”, os Jovens discípulos de António Sardinha no Integralismo Lusitano, os Jovens Cadetes de Sidónio e a Acção Escolar Vanguarda ].
Nesta decorrência, e tendo presente o descrito quadro de referências, foi instituída a MOCIDADE PORTUGUESA, tendo como objectivo “estimular [em toda a juventude] o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria ” [cf. Regulamento da M.P., publicado em 4/12/936], vocacionada a cooperar com todos os estabelecimentos oficiais e particulares do ensino.
Criada num tempo de forte exaltação patriótica, ou não fosse contemporânea da Guerra Civil Espanhola [onde se confrontaram duas concepções antípodas de governo] a M.P. foi adoptando práticas e organizações ao longo dos seus 38 anos de existência, designadamente, assumindo a natureza de associação nacional de juventude de filiação voluntária [cf. DL 486/71 de 8 Novº].
Organização Salazarista, como alguns a resumem [cf. Lopes Arriaga, ed Terra Livre, 1976], a M. P. escolheu como seus Patronos, guias ideais da sua acção, Nuno Alvares Pereira e o Infante D. Henrique (!), e o 1º de Dezembro [e não o 28 de Maio…] (!) como data das suas comemorações próprias; a sua ideologia [que outros teimam, ainda em 2014, em associar a “recorte fascista” cf. revista “Visão” ibidem] ou valores fundamentais, foi bem lembrada pelo último Comissário Nacional da M.P. [Engº Manuel L. Antunes, em 20/09/1972]: Deus, Pátria, Família, Autoridade legitima, Justiça Social, Liberdade para o exercício das tarefas úteis de cada cidadão, Culto das tradições, Fraternidade entre os povos de raças diferentes, O todo nacional, Respeito pela dignidade humana e o Dever de retribuição do povo do muito que ele conferiu a cada um, traduzindo essa devolução um serviço à Sociedade.
Talvez a M.P. tenha sido, simplesmente, um viveiro de Homens [e mulheres] para um Estado Novo (para usar a expressão utilizada por um autor que escreveu sobre o tema), com memória da sua História, integrados e afirmativos na Cidadania, íntegros e solidários.
António Nabais Caldeira,
Delegado Regional do GUIÃO – Centro de Estudos Portugueses
nas Beiras, antigo Graduado da M.P., sócio-fundador da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional.