Andava à volta com dois conceitos no meu pensamento - falsa licenciatura e licenciatura falsa – procurando perceber a diferença de uma ideia e outra, quando cheguei à conclusão de que não valia a pena o esforço. Para além da troca de posições entre o substantivo e o adjetivo, apenas sobressaía uma semelhança, a FALSIDADE.


Por isso, se me dão licença...
Numa semana em que nos confrontamos com a notícia de que há diplomas de 12º ano à venda na internet, não deixa de ser irónico que saibamos que o Ministro da Educação nomeou para um gabinete governamental, sob a sua tutela, alguém que mentiu sobre as próprias habilitações e percurso académicos. Este alguém consta no despacho da respetiva nomeação como licenciado, não o sendo.
Em Portugal a designação de licenciado aplica-se a alguém que seja detentor do grau académico de licenciatura, podendo este ser pré-Bolonha ou pós-Bolonha.
Quanto a uma outra designação, a de licenciando, com a qual poderia haver uma qualquer confusão, esta refere-se a alguém que frequenta um curso que, após concluído, atribui o grau académico de licenciatura.
Ora, no caso em apreço, ser licenciado ou licenciando é tanto como o ser e o não ser. Ou seja, ou se é ou não se é, quer num caso, quer no outro e, nesta situação particular, já nem o seria em qualquer circunstância. Licenciado não o era e licenciando já tinha deixado de o ser.
Mais grave em toda esta novela dos licenciados que o não são, sendo certo que já temos tradição neste tipo de logros, embustes e ornamentações, é o ex-Secretário de Estado da Juventude e Desporto, que se demitiu do atual Governo, vir confirmar que uma das razões porque o fez foi por ter sido obrigado a NÃO EXONERAR o seu chefe de gabinete, por saber que este tinha mentido sobre as respetivas habilitações académicas.
O dito fica dito e o que não foi dito, fica por dizer. Sobre o tema, alguém ouviu o que disse o senhor Ministro da Educação?
Eu também não!
Ser licenciado não significa apenas deter uma habilitação académica, também pode ser licenciado quem é autorizado por licença de alguém, em alguma circunstância. E é aqui que o assunto assume contornos de escândalo, na medida em que o já referido ex-Secretário de Estado da Juventude e do Desporto terá afirmado que a situação de falsidade na licenciatura de Nuno Félix, o demissionário chefe de gabinete, era do conhecimento de Tiago Brandão Rodrigues, há meses. Do conhecimento do mesmo Tiago Brandão Rodrigues que, por nomeação, também é Ministro da Educação, não haja, por coincidência, outro com o mesmo nome!
Afinal, o que está aqui em causa não é a licenciatura, que uns podem ter e outros não. Em causa mesmo está a mentira, a que uns recorrem e outros não.
Na cultura ocidental, o arroto não é bem aceite e, por isso, aqueles que o emitem pedem desculpa aos circunstantes.
Porém, em certos locais do mundo, o arroto evidencia satisfação e é bem aceite por aqueles que também o emitem.
Nas falsas licenciaturas como no arroto, somos igualmente credores de um pedido de desculpa, por uma questão de cultura. E não vale a pena alterarmos a tradição. Também não vamos optar por vulgarizar a mentira, para assim a aceitarmos.
Sem desculpa, com licença!