Pontos de Vista

Acabou o “ciclo” de Mário Centeno como Ministro das Finanças (MF). Desempenhou o cargo sob o aplauso geral dos portugueses durante quatro anos e meio. Ficou conhecido como o ministro das “contas certas” e alcançou o primeiro excedente orçamental do país. Foi até durante o mandato da “geringonça” a estrela do governo, tendo alcançado uma popularidade invulgar num MF e tornando-se um trunfo eleitoral do PS, usado durante a campanha eleitoral do ano passado.O seu êxito no governo anterior coincidiu com uma conjuntura internacional favorável. Para o equilíbrio das contas públicas, usou sabiamente o instrumento das “cativações”. Foi oportunamente eleito Presidente do Eurogrupo, o que contribuiu para a elevação do seu prestígio interno, certo como é que, neste país provinciano, nada é tão valorizado como os brilharetes alcançados no estrangeiro e os elogios vindos lá de fora. O reconhecimento dos seus méritos foi inquestionável, tendo chegado a ser-lhe atribuída a designação elogiosa de “Ronaldo das Finanças”. Surpreendentemente, revelou mesmo uma capacidade de intervenção política que não era conhecida nem adivinhada, considerando o seu perfil essencialmente técnico.Depois das eleições legislativas de 2019 e da constituição do atual Governo, em cuja hierarquia Centeno desceu um ou dois degraus, em grande parte à custa da subida do Ministro da Economia Siza Vieira, pareceu assistir-se a um crescente distanciamento entre ele e o 1º Ministro. Surgiram laivos de desconforto em frases e atitudes que denunciavam um certo mal-estar por parte do MF. A comunicação social salientou o termo do mandato de Presidente do Eurogrupo em meados deste ano e cedo se adivinhou o interesse de Centeno no cargo de Governador do Banco de Portugal, até porque o atual titular, Carlos Costa, também atingia o fim do seu mandato por essa ocasião. O desconforto de Centeno - ou relativamente a Centeno - dentro do Governo acentuou-se com a última injeção de largas centenas de milhões de euros no Novo Banco, em cumprimento, aliás, do contratado. O episódio, muito infeliz, da Autoeuropa, que ineditamente associou o Presidente da República e o 1º Ministro em gestos de elogios recíprocos, com críticas subjacentes a Mário Centeno, tornou mais difícil e melindroso o clima de convivência do MF dentro do Governo. Logo então se concluiu que a “estrela” de Centeno não só tinha deixado de brilhar, mas também que o seu tempo de permanência no executivo estava por um fio. A sua saída do governo ocorreria logo após a elaboração e/ou a apresentação do Orçamento suplementar que estava a ser preparado por razões resultantes da alteração profunda do quadro financeiro e económico do País em consequência da pandemia.Havia, porém, quem esperasse de Mário Centeno um gesto de devoção à causa pública e defendesse que ele não deixaria o barco num momento particularmente difícil. Ao que acrescia o facto de estar em fase final de preparação um diploma que exigia um (longo) período de nojo entre a saída do Governo de um membro das Finanças e a sua nomeação para Governador do BdP. Tratando-se, embora de um diploma “ad hominem”, que contrariava, portanto, a natureza geral e abstrata característica da “lei”, o certo é que, dizia-se, a maioria dos deputados não avalizava a nomeação de Mário Centeno para o cargo máximo do Banco de Portugal.Mas os acontecimentos precipitaram-se. Sucessivamente, Centeno apresentou o seu pedido de demissão; o 1º Ministro apresentou – e o PR sancionou – a remodelação ministerial e, com ela, a substituição de Centeno por João Leão, o seu fiel Secretário de Estado do Orçamento; o Governo “abriu guerra á lei anti-Centeno”; Centeno, por sua vez, manifestou claramente o seu interesse no cargo de Governador do Banco de Portugal; António Costa, com o assentimento do P.R., pronunciou-se a favor da inexistência de qualquer conflito de interesses, perguntando mesmo enfaticamente: “Mário Centeno cometeu algum crime?”.Ou seja, tudo visto, os factos apontam para que Centeno venha a ser colocado no lugar que deseja, a sua “cadeira de sonho”. É competente para o desempenhar? Sem dúvida que assim parece. Mas é uma boa escolha? Na conjuntura atual e nas presentes circunstâncias, não é. O Diretor do “Público” conclui assim o seu editorial de 16 de junho: “Na vida pública, o que parece, por vezes, é, e Mário Centeno jamais deixará de parecer o que, de facto, foi: um ministro que trocou o Governo pelo BdP. Tem tudo para correr mal”.Mas as coisas são como são. Centeno não quis uma estátua, erguida pela superior devoção demonstrada à causa pública. Preferiu “ir cuidar da sua vidinha” e não se envolver nas dificuldades que aí vêm. Ou, nas palavras de Luís Marques, “… vai tratar da vida quando, nas atuais circunstâncias, devia era ter ficado a tratar da vida dos portugueses” - in “ EXPRESSO, suplemento de Economia”, 13 de junho, pág. 10.       Ao que parece então, é que os termos do compromisso com uma missão que se aceitou para um país em equilíbrio instável tem uma condição: o perímetro de segurança que evite ser apanhado pelo furacão que se anuncia; ou pela seca, apesar da enxurrada de euros que está para vir de Bruxelas mas que é preciso canalizar; ou finalmente, pelo enorme ponto de interrogação que é o post-covid a nível político-económico e, não menos importante, psico-social que anula todos os cálculos. Só que cada um tem o direito de escolher a sua vida (embora nem todos tenham os meios ou a oportunidade…).      Por outro lado e ao que parece, no nosso país “que se orgulha de ter a geração mais bem preparada de sempre”, mérito, cultura, vontade de servir, dedicação, coragem e eventualmente desassombro, postos ao serviço do país e seus conterrâneos, não são entendidos nem sequer conhecidos nos contextos históricos seus contemporâneos. E aqueles que com eles se empenharam na nossa comunidade lusa são hoje infantilmente transportados para a nossa atualidade, julgados, culpabilizados, executados em efígie, como se re-criassemos uma “Fronda” à portuguesa e comicamente desfasada (para dizer o mínimo). Certo que pactuaram por vezes com muito do que nos nossos dias condenamos e foi conseguido a peso de vidas e sacrifícios incontáveis e indescritíveis mas em que é que uma estátua decapitada ou pintada de vermelho apaga ou remedeia os percalços da História? E já agora, em que é que arrasar estátuas e bustos, monumentos ou memoriais ajuda a solucionar os erros (por excesso ou por defeito) praticados por pessoas ou comunidades em concreto e, quem sabe, por omissão de auxílio por algum santo da devoção dos povos?  Francamente, se por trás a História não fosse sempre uma coisa séria, tudo isto não passaria de uma teatrada de bonifrates.Lisboa, 17 de junho de 2020