De há muito que, com a aceleração do Progresso, o Tempo parece ter encurtado: ou melhor,

parece que tudo se faz e se vive em menos tempo. Hoje, por exemplo, grande parte das cirurgias que obrigavam a semanas de internamento hospitalar passaram a “ambulatórias”, ou seja, na prática, vai-se sarar para casa, depressa e bem… Tomados desse sentimento – e ao que parece Putin também – pareceu-nos que isto do conflito Rússia-Ucrânia seria coisa para resolver, assim numa meia dúzia de dias…Não foi. E já lá vão cem dias de inferno… E as hostilidades no terreno não só não abrandaram como se tornaram mais violentas e os objetivos dos invasores mais definidos e insistentes. Dir-se-á que, contrariamente ao suposto (talvez por muito desejado…), aponta claramente para um arrastar, mais duro até, das hostilidades: com a intensificação dos ataques russos contra o Donbass, as incursões pelo sul, os bombardeamentos contra Kharkiv ou Odessa e, até sobre Kiev e Lviv (perto da fronteira com a Polónia), a ocupação pelos russos, com avanços e recuos, da maior parte da área da cidade de Severedonetsk, cidade chave no leste, pomo da discórdia russo-ucraniana, e , sobre tudo isso, com a suspensão das negociações entre os beligerantes, parece que o tempo parou. E o Ferro e o Fogo tomaram assento e a Morte campeia.
Bom – mau…! – isto é o presente do Presente. Mas todo o Presente acaba e vem aí o Futuro para dar uma volta às coisas, porque mudar é o próprio da Existência. E quando se diz que “Não há volta a dar-lhe” é porque a Esperança morreu e então não passaremos de uns bonecos sem corda. Ora como o Mundo e a Vida, ainda que ás vezes isso pareça, não são um palco de marionetas, há que retomar o “enredo” e encontrar maneira de lhe conseguir um bom desfecho. O que no caso, para (re)começar, há que fomentar negociações, negociações, negociações. E, a meu ver, o clima mais propício para se alcançar o objetivo de sentar as duas partes à volta de uma mesa de negociações que possam levar a um cessar-fogo ou, até, ao termo das hostilidades, será o de uma situação militar de algum equilíbrio no terreno, com confrontações equilibradas e resultados equivalentes entre os beligerantes. Ora, nos dois primeiros meses da guerra, a Rússia somou vários e graves revezes militares. Basta pensar na malograda ofensiva sobre Kiev, na dimensão das perdas humanas e da quantidade de equipamento abatido pelas tropas da Ucrânia (que aliás a imprensa internacional e as redes sociais divulgaram abundantemente), bem como – e perdoem-me se isto possa parecer macabro – o rápido levantamento e reconhecimento por autoridades independentes de provas forenses de crimes de guerra praticados pelo invasor já levaram a condenações efetivas, tudo o acima anotado (e bem mais outros fatores) poderia fazer pôr as fichas todas na Ucrânia. Não pode tal, porque todos os insucessos no terreno, de natureza estratégica e operacional, levaram a Rússia a redefinir a estratégia, abrindo claramente o jogo quanto à conquista do Donbass, e à ocupação das repúblicas separatistas de Lubansk e de Donetsk, mas com o perímetro alargado. E em paralelo, prosseguiram o seu avanço no Sul, tomaram Mariupol (e de que maneira, senhores!), insistindo na ocupação de Odessa, objetivo que, se alcançado, cortará à Ucrânia o acesso ao mar, retirando-lhe o potencial para escoar, por via marítima, os seus produtos e, em espacial, os cereais que vão para o Mundo inteiro, amputando-a e transformando-a, sem a menor justificação histórica ou política, num país continental, economicamente dependente nesse particular. Concomitantemente, não abandonaram as operações de uma guerra de desgaste sobre diferentes pontos do território ucraniano. A nordeste, Kharkiv continua a resistir aos invasores, com avanços das tropas ucranianas através de contra-ataques bem sucedidos, aqui e ali. Os russos não deixam de ir bombardeando Kiev, bem como de flagelar, com fogo esparso, a longínqua cidade de Lviv, perto da fronteira com a Polónia.
Ou seja, uma guerra potencialmente total, hoje mais confinada e com resultados militares positivos para os ocupantes, no Leste e, em menor grau, no Sul. O próprio Presidente Zelensky reconhece a situação extremamente difícil das forças ucranianas, designadamente no Donbass, sem prejuízo de alguns êxitos na defesa de Lisyhansk, cidade gémea de Severodonetsk, da qual está separada pelo Rio Donets. Os números diários de soldados ucranianos mortos variam entre 60 e 100 em combates com as forças russas e milícias separatistas do Donbass. Mas se é verdade que a Rússia parece estar muito perto de conquistar Severodonetsk, na região de Lugansk, também é verdade que os ucranianos têm “trincheiras bem preparadas” junto a outras duas grandes cidades: Kramatorsk e Shoviansk, o que, na opinião de especialistas, pode ser decisivo para travar ou abrandar a progressão inimiga. E por agora e por mim, paremos por aqui, que não sou cabo de guerra, mas não posso deixar de procurar entender uma “lição” da História que jamais imaginaria vir a entrar no meu “compêndio” e, pelos vistos, também no deste nosso mundo engrenado e assustado.
De tal jeito, que Biden anunciou – e explicou por escrito – enviar mais armas para auxiliar o esforço de guerra da Ucrânia, com a firme garantia de que tais armas não serão usadas contra território russo, e de que, só em caso de ataque direto aos EUA ou aliados, é que haverá militares no terreno. A propósito, Biden declarou que “o objetivo da América é direto: queremos ver uma Ucrânia democrática, independente, soberana e próspera com os meios para se defender e dissuadir novas agressões”.
Como previsto, a Rússia criticou este novo pacote de ajuda de armamento dos EUA, como critica sempre todas as sanções de que é alvo por parte do Ocidente.
Militarmente, contudo, a chegada de material de guerra mais poderoso e moderno, proveniente essencialmente dos EUA, mas também do Reino Unido, da Alemanha e de outros países ocidentais, irá seguramente fortalecer o potencial de defesa da Ucrânia e, talvez – talvez… - levar mais rapidamente à mesa das negociações, aqueles que, pelos malabarismos da História e os atropelos dos homens, têm hoje nas suas mãos, a sobrevivência mais mínima de milhões de seres que, na outra metade do Mundo, vivem na maior das misérias e morrem da fome mais negra.
Mas, como recordou Joe Biden, o apoio com o novo pacote de armamento visa reforçar a Ucrânia com meios militares para fins defensivos, cabendo-lhe, enquanto parte beligerante, escolher o momento para se sentar à mesa das negociações, Isto ao mesmo tempo que afirma que não acredita que a Rússia escale a guerra para um patamar superior, o que constituiria um erro e um crime de incalculáveis consequências.
E a terminar, agora que festejamos a abnegação, o espírito de serviço e de união, a dignidade de uma rainha há 70 anos firme no seu posto, talvez valha relembrar que, da guerra, só queremos que acabe; da paz não queremos fim.
Lisboa, 3 de junho de 2022