Estou à vontade para falar sobre as tradições da quadra festiva mais bela do ano, que desde meados da década de cinquenta do século passado, até aos dias de hoje tenho vindo a dar conta. Como a maioria das pessoas, eu também valorizo mais os tempos passados na minha juventude, onde em tudo queria participar por achar novidade.


Nos tempos em que me refiro, o Natal resumia-se a uma noite e um dia no que concerne às festividades, a noite da consoada que à meia-noite virava para o dia comemorativo, com a missa do galo anunciar o Nascimento do Deus-menino.
Os preparativos começavam nos dias antes, como o ajuntamento de lenha para o madeiro, que estava a cargo dos rapazes adultos, feita à revelia dos donos, na escuridão da noite ou aproveitando o luar tão límpido como a mais bela das avenidas. Na cozinha apenas na véspera da consoada se faziam as filhoses e se colocava o bacalhau de molho.
Nesse tempo, não era conhecida a figura mais importante nesta festividade nos dias de hoje, estou-me a referir ao Pai-natal. O ídolo era, e continua a ser para mim, o menino Jesus, que nos obrigava a levantar cedo e correr para a chaminé, para ver o que Ele generosamente nos tinha colocado no sapatinho. Tendo em conta o tempo que era, também não era muito pródigo, ficariam umas pequenas guloseimas porque aí sentia-se o efeito da pobreza dos tempos de então. Por outro lado o povo era muito mais rico em alegria e fraternidade, partilhando a felicidade em redor de todos os rituais, fossem eles sagrados ou pagãos.
Do que vos falei, pouco existe, tenta-se apenas em algumas localidades revitalizar a tradição do madeiro, recorrendo à força mecânica, mas que nem de longe nem de perto transmite a mesma adrenalina aos participantes.
A quadra natalícia começou a tornar-se mais pomposa a partir dos anos sessenta, com a vinda dos emigrados na Europa para consoarem com a família, novos hábitos, novas prendas e outra culinária, no meu ponto de vista, começaram a desvirtuar o genuíno Natal português, a que se juntou a atividade comercial a oferecer produtos novos, que com o andar dos tempos acabaram por entrar no nosso quotidiano, mesmo com origem noutras crenças.
Todavia, uma coisa se vai mantendo inalterável, são os cânticos alusivos ao Natal. Porque a Igreja tem tido um criterioso método na sua recolha. A maravilha destes cânticos, vai passando de geração em geração, mantendo a sua beleza e sonoridade. Para mim o sentimento Divino destas cantigas cantadas à capela, enchem-me a Alma e provocam-me um raro sossego e bem-estar que dá a entender que já estou a viver no reino dos Justos.
A minha voz não dá para cantar, como tal tiro partido da audição para aproveitar este encanto, que com toda a franqueza vos digo, para mim é o melhor que o Natal me transmite, no conturbado mundo em que vivemos, carregado de desgraças e desilusões.
Face ao meu, gosto, creio que o Natal que este ano vivemos ficará para sempre guardado na minha memória, enquanto eu me mantiver no seio dos que vivem. Acontece que o Município de Celorico da Beira, agendou para o dia 21 de dezembro pelas vinte e uma horas, uma sessão de cânticos de Natal na Igreja Matriz de Santa Maria, cuja interpretação está a cargo do “Grupo de Cantares de Manhouce” liderado por Isabel Silvestre, a conhecida “Diva das Cantigas” e que em Bruxelas, numa das suas atuações recebeu o título de ”Alma de um Povo”. Confesso que a minha expectativa é grande, mas penso que em nada sairei defraudado.
Já agora um convite para a vossa presença, pois se isso acontecer podeis testemunhar ao vivo alguns dos valores que eu defendo.
Sem mais por hoje, um santo e feliz Natal para todos e em especial para aqueles que passarem os olhos por estas linhas.