No frenesim da uma vida citadina, habituámo-nos a correr porque pensamos que não há tempo a perder e utilizamos os meios mais céleres para abraçar o mundo: o automóvel, o avião, o comboio rápido.

Começamos a viagem num ponto e só nos interessa o destino. O que fica entre a partida e o fim não merece a nossa atenção. O trajeto tem pouca importância. É a fúria do poder ir cada vez mais longe e cada vez mais depressa, a passos largos e apressados.
Sempre me impressionou a dificuldade dos portugueses em caminhar. Por vezes, desafiava um ou outro amigo a dar uma volta de alguns quilómetros e retorquia-me logo que seria melhor ir de automóvel. Mesmo acompanhando-me a pé, conservava aquele passo de pastelão que nos cansava ainda mais.
Quase de um momento para o outro, parece que as longas caminhadas se tornaram uma moda. Ouço à minha volta pessoas a desejar fazer o caminho de Santiago de Compostela, caminhar até Jerusalém, fazer a rota da seda a pé. Devo assinalar que se tornou também um bom hábito inserir no programa das festividades organizadas nas nossas aldeias, uma boa caminhada de vários quilómetros. Eu próprio tento nunca faltar à do mês de agosto, que junta centenas de pessoas, excelente ocasião para contactar com os amigos e palmilhar as belas montanhas que rodeiam a nossa aldeia.
Além disso, em boa hora se construíram maravilhosos passadiços que os portugueses têm muito bem utilizado e que atrai numerosos estrangeiros, já que o destino de Portugal se tornou numa verdadeira moda.
Que encanto ou que segredo tem o caminhar para que homens como Nietzsche, Rousseau, Rimbaud e outros nunca se tenham privado das suas caminhadas diárias? Um professor, filósofo de uma grande universidade de Bruxelas, muito próximo dos alunos e que tomava sempre notas das suas numerosas perguntas, ao começar as aulas, não se esquecia de lhes transmitir as respostas, mencionando que por vezes as tinha encontrado nos seus passeios vespertinos que o ajudavam a aclarar as ideias e a encontrar soluções às difíceis questões que lhe colocavam.
O mesmo acontece comigo. É nos meus passeios em solitário ou em boas companhias que encontro as palavras apropriadas de uma frase que não me parece a melhor, que tomo uma rápida nota sobre um enredo que deveria modificar, e não é a primeira vez que, quando conduzo, dito frases à minha mulher que as anota num canhenho que sempre me acompanha.
Podemos perguntar que magia tem o caminhar, pois não há dúvida que esta prática alimenta o pensamento. A passada cadenciada, a natureza que desfila sob o nosso olhar parecem levar-nos para um outro mundo mais sereno e certamente que a inspiração é mais fecunda do que quando sentados à nossa secretária, à espera de melhores ideias.
Os músicos conhecem também os benefícios da caminhada. Os passos acompanham o ritmo, os sons saem mais facilmente e todo o corpo colabora na arte de encontrar a beleza que seduz o próprio caminhante e os que um dia trautearão talvez as mesmas melodias pelos caminhos que vão percorrendo.