Histórias que a Vida Conta


“Para a minha mãe, em primeiro lugar está ela, em segundo lugar está ela, em terceiro lugar está…ela” – assim testemunhava Mónica Baldaque sobre a sua mãe, Agustina Bessa Luís, num documentário sobre a sua vida e obra, exibido na televisão em 20051. Num primeiro momento, pareceu-me isto a denúncia de um cúmulo de egoísmo. Mas o tom natural com que foi dito fez-me desconfiar deste meu primeiro julgamento. A filha estava muito serenamente a apontar uma característica da personalidade da mãe tal como se dissesse que ela gostava de se deitar tarde ou que só escrevia à mão e com caneta de tinta permanente… Bem vistas as coisas e sabendo o teor de vida de Agustina, ser-se egoísta, no específico sentido de viver dela e para ela própria, é muito verdadeiro, necessário e justo. Porque Agustina vivia habitada: de histórias, de reflexões, de julgamentos e observações, de simples pontos de vista, aglutinados num universo que só podia ser dela. E apenas dela. Um mundo de versões e invenções que, a espaços, ela vertia para o papel, em histórias de vidas e factos de que se assenhorara de tal modo que as convertia a seu bel-prazer, filtradas e afeiçoadas pelo seu olhar censor, em flechas de crítica irónica, ousada e não raro sarcástica, que lançava, em toda a liberdade, sobre o mundo e as gentes que a des-agradavam. E ninguém imagina o poder que se pode ter com apenas um papel e uma pena! O quanto uma Agustina, com a sua letra regularíssima e certinha como os ponteiros de um relógio, na sua escrita limpa, quase sem emendas, podia ser certeira nas suas observações, nos seus comentários, na textura mesma da sua narrativa. Desde o primeiro escrito que li dela a pressenti como uma espécie de “câmara de vigilância” que, acantonada no seu ângulo de visão, ia vendo correr a história dos dias, com os seus enredos e enleios, os seus personagens, os seus protagonistas, as suas transposições para a História mais antiga, as suas versões, conversões, reversões e até revoluções. Câmara essa que não se limitava a registar imagens, mas como que numa investigação policial, as classificava, qualificava, criticava – a frio e a seco. Como se para ela a literatura fosse um lugar de questionamento e ela tivesse, nela, o poder de julgar, de censurar, de condenar e, em certo sentido, de purificar escalpelizando. Um pouco no mesmo sentido em que o autor norueguês Karl Ove Knausgard, que estou lendo agora, interroga: ”Mas não é a literatura precisamente o santuário livre do jogo social? Não é a literatura o único lugar onde se pode ser absolutamente verdadeiro, dado que escrever é uma das poucas actividades que se realiza fora da sociedade? Não é a literatura despida de escrúpulos, e não é a falta de escrúpulos da literatura o seu cerne e justificação?”2 Entendendo “escrúpulos” no seu sentido certo, neste contexto criativo, creio que para Agustina a resposta é :”Sim!” Disse Agustina que o romance seu de que mais gostava era o Pessoas Felizes. Eu creio que Agustina ela própria foi uma pessoa feliz. Porque fez na vida – e bem – aquilo de que mais gostava, em toda a liberdade – não consta que se ativesse a modelos, a preconceitos ou recados – e numa verdade muito sua que eu creio íntima e sincera, mesmo que doesse a quem lhe comprava as obras. Uma verdade algo cínica, como quando afirmou, a propósito de um poeta conhecido da nossa praça: “ Esse é seguramente um dos nossos melhores poetas assim-assim.”
A vez em que mais perto estive de Agustina Bessa Luís foi em 1987. Era ela directora do jornal Primeiro de Janeiro e meu marido Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Justiça. Cabia nas suas competências a tutela dos Serviços Tutelares de Menores. Creio que por volta de Maio, uma instituição sita em Vila Nova de Gaia e entregue à gestão e orientação das Irmãs do Bom Pastor, inaugurava uma ala de instalações com valências profissionalizantes para as jovens em risco nela acolhidas por determinação dos tribunais competentes. Não sei se, por se tratar de raparigas, se por simples gentileza das Irmãs, fui também convidada a estar presente. O que fiz com gosto.
A cerimónia decorria no salão/biblioteca e recordo-me que numa das estantes dos livros que fui observando enquanto não chegava a hora do início – nem a própria Agustina – encontrei uma edição de A Sibila. Retirei-a rapidamente e dirigi-me à Irmã (Superiora ao que supus) sugerindo-lhe que a apresentasse a Agustina e lhe pedisse uma dedicatória. Recordo que foi mesmo a tempo porque nesse momento estava ela entrando a porta. Meu marido e eu apresentámos os cumprimentos da praxe o que me permitiu ficar informada de que a sua presença se devia ao facto, não apenas de ser directora de um jornal portuense, mas também ao de ela ter nascido em Vila Meã a que a ordem das Irmãs do Bom Pastor estava também intimamente ligada. O “protocolo” sentou-nos lado a lado na primeira fila da assistência e pude observá-la com o à-vontade que esse mesmo “protocolo” me permitia. Não sei que espécie de sensação experimentam celebridades como Agustina em situações como estas, demasiado ritualizadas e que não trazem, em geral, grande novidade ao que já se sabe sobre as faltas e omissões de serviços públicos com tão pesadas responsabilidades e tão poucos meios. Os discursos foram breves (felizmente) sem grandes habilidades oratórias. O de meu marido, diplomático mas claro no levantamento das necessidades, possibilidades, reais e desejadas, dos serviços em foco, terminava com uma citação de alguns versos de Sebastião da Gama. Já não recordo quais, mas pareceram-me bem.
Agustina aguentou firme, sem evidenciar aborrecimento, apenas numa pose repousada na sua cadeira, as mãos cruzadas sobre a carteira pousada no colo. Vista assim (pelo canto do olho que mais eu não podia para não estragar a pose…), o seu perfil desenhava-se calmo. Com a sua gola de pele, a sua écharpe de bom gosto, o seu cabelo meio rebelde apanhado atrás com uns caracóis leves e anárquicos em franja sombreando a testa, tinha, no seu porte de “senhora de algum tempo”, o ar tranquilo de quem está de bem com o mundo… Senti-me por isso à-vontade e sem sombra de qualquer temor reverencial naquela com-vivência sem palavras, de mútua cordialidade e atenção.
Acabada a sessão, meu marido tinha outros compromissos pelo que nos apressámos em sair. Agustina, entretanto, condescendente e pareceu-me que satisfeita, autografava o livro que eu entregara à Irmã com essa intenção. Meu marido dirigiu-se-lhe para se despedir com uma qualquer amabilidade e foi quando ela o olhou – com aquele olhar agudo e directo um tanto inesperado na bonomia da sua figura – e lhe disse : “Gostei que tivesse citado um poeta no seu discurso”. Parou e num meio sorriso breve concluiu “E foi bem escolhido”.
Por aquele elogio que na sua boca implacável só podia ser sincero, pelo bem que disse e pelo bem que nos soube, Agustina ganhou o Céu.
Lisboa, 19 de Junho de 2019

(Footnotes)
1 Documentário biográfico para televisão intitulado “Nasci adulta, morrerei criança”. Autoria de Anabela Almeida, realização de António José de Almeida, produção da PANAVIDEO (2005)
2 In “No Verão”,(2016), edição em português da Relógio d’Água, 2019, pág. 106.