Contra a corrente, hoje vou por caminhos por onde raramente viajo neste meu cronicar quinzenal.

Mas hoje vou por aí. O ar está pesado, o nevoeiro adensou-se e as veredas do meu linguajar foram ficando também densas, pesadas e mais estreitas com o que via e ouvia. Até cheguei a lembrar as palavras de Cícero contra Catilina: «Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda hás-de zombar de nós com essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem limites? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?» Hoje vou por aí, mesmo que a crónica agrade a poucos ou a ninguém. Fica o aviso à navegação. E vou deixar para o leitor a tarefa de encontrar os “catilinas” da nossa praça.Fui assistindo ao «espectáculo» de «teatro» ou de «jogo», conforme sopravam os ventos, mas sempre com vários actores e jogadores. Todo o cidadão foi assistindo também. Fui identificando os protagonistas e até actores secundários. Todo o cidadão, bem posso acreditar, os foi também identificando. E caiu finalmente o pano. Vi-o ir caindo, enquanto os actores se encaminhavam para os bastidores. Alguns deles, atrevidos, inconscientes ou em razão de hábitos empedernidos, ainda vieram à boca do palco à espera dos aplausos e da compreensão da plateia. Não bati palmas. Creio que os meus concidadãos também não aplaudiram. Pelo menos não dei por eles nas imediações.Caiu, de todo, o pano. «Acabou o espectáculo», fui dizendo a meia voz, enquanto me levantava da velha cadeira, tão desconfortável como a feiura da acção desenrolada no palco da nação. Alguém, atrás de mim, respondeu ao meu comentário:- Mas, terá acabado mesmo? Aguardemos os próximos desenvolvimentos.O «espectáculo de licitações» e o «regateio na praça pública» foi decorrendo durando vários dias e os meios mediáticos não pouparam tempo nem espaço para o traduzirem e comentarem. Como não se pouparam no palavreado. Até pareceu que o espectáculo fora intencionalmente montado para alimentar canais televisivos, estações de rádio e espaço nos jornais. E, claro, para desorientar o humilde cidadão, à vista do qual as «naturais negociações» descambaram numa espécie de “jogo do gato e do rato” para se ver quem cairia no «embuste». Antecipava-se o «cálculo eleitoral» numa espécie de «jogo de sombras» que escondia um subtil «jogo de forças» e «jogo de pressões».Não estou a exagerar. Estamos perante uma linguagem que fui lendo e ouvindo nos areópagos do poder político e nos meios de comunicação social, que, só por si, já traduzem o ambiente em que iam decorrendo as «negociações» conducentes, em princípio, à aprovação do orçamento de Estado para 2021. O «jogo» das negociações mais parecia um «negócio» e o «jogo» do «negócio» “geringonceiro” adquiriu dimensões estranhas com o acentuar da «dramatização». Foi então que a «coreografia básica» e «rotineira» do «jogo» do «negócio» assumiu formas de «construção cénica» por excelência e, no palco de «areias movediças», a «teatralidade» dos actores emergiu no máximo esplendor. O «ritual orçamental», o «regateio de partidos», a «infantilidade dos intervenientes», tudo foi conduzindo em «turbulência artificial», negócios de «mercearia» acompanhados de «chantagem» e «gritaria» sem fim. Uma espécie de «leilão partidário» de espertalhões negociantes, enquanto o cidadão assistia a esta «barganha orçamental», bem para lamentar.Que nome dar a tão inusitado espectáculo? Houve quem lhe chamasse «democracia de mercado», e, se alguns lhe chamaram «psicodrama do orçamento», outros optavam por «teatro melodramático». Se houve quem falasse em natural «dramatização», já outros falavam em «farsa» e «novela». E assim se desenvolvia o espectáculo da «mesa» do orçamento, em que ia mudando de mãos «a faca e o queijo». Houve mesmo quem, fosse «melodrama», «farsa», «novela» ou «comédia», juntando às «cenas» a música e o ritmo, optasse por chamar ao estranho espectáculo «bailado em vários actos», uma «dança» engonçada em cujos intervalos imperava o cinismo hipócrita de alguns protagonistas que, chegando à boca do palco, às vezes com sorriso irónico nos lábios, tentavam justificar a sua triste e má figura, “vendendo-a” como um bem. E a plateia, incrédula e lembrando Cícero - «Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? - ficava sem saber se havia de rir ou de chorar de tão suculenta «pantomina».Entretanto, os partidos não “geringonçados” foram dormindo, cedo almofadados no «não» a dar ao orçamento, enquanto o cidadão esperava por projectos de futuro. Agora caiu o pano. Foram quinze dias de negociações políticas de que alguns foram excluídos. Sempre bem naturais numa democracia vivida por gente com sentido de Estado, foram aqui decorrendo da forma tão eleitoralmente calculista e com tal tacticismo partidário, que bem se prestaram à semântica do «jogo», do «teatro» ou do «bailado» superiormente dirigido pelo maestro maior que, à custa de tanto pressionar alguns naipes acabou por dar-lhe força para alimentarem o «jogo de pressões». E a orquestra, de tão “geringonceira”, desafinou até se escangalhar à vista de todo o mundo. Depois de muitas «piruetas» e desafinações pelo meio.Agora, acabou o espectáculo. Mas, já estou como “o outro”: terá mesmo o espectáculo findado? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, mas, não sei se por pessimismo ou realismo, há já quem fale da «tragédia» em que se caiu e outros anunciam que o palco de “areias movediças”, em que vinha decorrendo o espectáculo, já se transformou num «pântano» em que muitos, e muitas coisas, se irão atolar. E outros concluem: é o Estado “geringonçado” em que a geringonça o foi deixando.“O outro” tinha razão quando, nas minhas costas, vinha segredando que seria necessário aguardar pelos próximos desenvolvimentos. Verdade é que, mal o pano caiu, logo começou o ensaio de outro espectáculo. O pano já foi lentamente reabrindo e a primeira cena já deu o tema. Agora é o passa-culpas entre os actores sobre quem tem de assumir a responsabilidade quanto ao «estado a que isto chegou». O povo, o cidadão português e a democracia bem mereciam que os políticos, a quem deram a sua confiança, estivessem à altura das circunstâncias. Onde seria de esperar uma visão estratégica e de visão do futuro do país, vamos dando com espectáculos de conquista e manutenção de poder ou de potencial eleitorado. Numa interrogação certeira, bem grita ainda o velho Cícero para quem o sabe e quer ouvir: «Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?»Como «o veado que suspira pelas correntes das águas», enquanto soa «o fragor das águas revoltas», fico eu a lembrar o belíssimo Salmo 41 (42), com silêncio meditativo no alerta do versículo 8: «Abyssus abyssum invocat». A frase é geralmente citada em latim e popularmente conhecida, mas importa traduzir. «Um abismo chama outro abismo», canta o salmista. A expressão passou a ser invocada quando se caminha de falha em falha, quando um desastre, um mal, predispõe o ser humano, e as suas instituições, para outras falhas e males maiores.Guarda, 28 de Outubro de 2021