Cafés com história: cafés da nossa memória

A copa bateu estrondosamente no balcão.Sirva-me outra “ti Joaquim”.O tio Joaquim, conhecido na aldeia como “ti Joaquim Perrito”, abria a tasca todos os serões. Lá desaguava toda a gente da aldeia, finda a jorna de trabalho. Minis, bagaços e copos de vinho, punham o ti Joaquim numa fona, a cirandar atrás do balcão e davam o mote às conversas do outro lado do estabelecimento.A tasca, ponto de encontro da aldeia onde todas as noticias adquiriam vida e circulavam como vento pelos mais esquecidos cantinhos, constituía o centro do universo para o pequeno mundo da aldeia do meu pai (Peroficós).Os cafés, as tascas dos tempos modernos, ocupam lugar central na história da Europa. George Steiner, no livro: “A Ideia de Europa”, traçou o percurso da Europa, com base nalgumas ideias chave. Para Steiner, o mapa sentimental da Europa poderia ser percorrido frequentando os cafés com história.Os cafés eram ponto de encontro e de tertúlias onde escritores e outros pensadores debatiam ideias e construíam conhecimento. Políticos no exílio e na clandestinidade, “tramavam” conspirações. O povo simples, assistia a jogos de bola ou séries como o Bonanza, os estudantes estudavam e namoravam ou simplesmente escapavam do frio.Todas as cidades têm os seus cafés emblemáticos A Guarda, não podia constituir excepção. Cafés como: “O Monteneve” (conhecido como café dos doutores), ou cafés mais populares como “o café Mondego”, “A Cristal” ou o café “ A Madrilena”, formavam nos anos 60, a coqueluche dos cafés com história da nossa cidade.À volta das lareiras desses cafés, orbitavam (como planetas) as mesas povoadas de estudantes vergados sobre as sebentas ou, os casais de namorados protegidos do frio e abrigados entre cochichos e doces conversas de amor.O vaivém constante dos empregados de mesa, o entra e sai frenético dos clientes, assoberbava de trabalho e alegria, aqueles memoráveis cafés.Guardo na memória, as inúmeras ocasiões onde, levado por minha avó, entrava no café “a Madrilena”. Girando os olhos, como periscópio, procurava minuciosamente o espacinho no canto mais aconchegante do café. Ai nos sentávamos, ai estabelecia o miradouro privilegiado de toda energia fervilhante do café. Guardo, ainda hoje, o som delicioso da máquina a tirar o galão ou, das colheres beijando delicadamente os contornos das chávenas. Guardo, a ouro, o eco cheio de conforto e vida, das conversas cochichadas e segredadas a meia voz, preenchendo de emoção o espaço caloroso da “Madrilena”. “A memória é o perfume da alma”, escreveu Fernando Pessoa, coberto de razão, sentimento e propriedade. Os cafés com história, deveriam por todos estes motivos, ser impermeáveis ao tempo. Não deviam nunca soçobrar, permanecendo todo o sempre no coração de uma cidade.Decretada a sublime vontade do colunista, confrontemo-nos com a dura verdade: tristemente os cafés com história da Guarda, foram descendo a cortina do palco, encerrando portas. Sobra-nos felizmente “a Madrilena”, exemplar de uma espécie de “reserva especial da biodiversidade” dos nossos amados cafés tradicionais.Cumpre-nos o dever de frequentar, como beirões briosos, essa pérola viva dos cafés tradicionais da nossa Egitânia e povoadores da nossa memória.