Comemora-se este ano o bicentenário da morte de Napoleão. 

Perante a figura lendário de um tamanho vulto que acumulou grandeza e miséria, nos meios políticos acautelam-se as palavras para designar esta efeméride. Comemorações, celebrações, evocações, ou pura e simplesmente ignorância de uma tal data.Neste mês de maio, que coincide com a data da morte do Imperador há 200 anos, — faleceu a 05 de maio de 1821 —, os médias portugueses têm feito referência à efeméride com alguns artigos ou emissões sobre o assunto.Porém, na França e na Bélgica, países ligados à história de Napoleão, as exposições, emissões, artigos serão sem conta nestes dois países. Os especialistas irão apresentar, recordar, revelar e elaborar teorias sobre os mais diversos aspetos da vida lendária do Imperador. O fascínio por Napoleão é desmedido. E não é só na França. A Inglaterra, que travou um combate impiedoso contra Napoleão, o fascínio é semelhante. Calcula-se que se publica mais de um livro por dia sobre este personagem. Seria ridículo apagar Napoleão da memória dos franceses, já que é ele o francês mais conhecido do mundo. A sua glória é universal. O que seria da cidade de Paris onde as recordações deste imperador se encontram por todo o lado? O Arco do Triunfo, a Gare de Austerlitz, a Ponte de Iena sobre o Sena. Apagar a memória seria fazer como Estaline que tentou apagar da história dos seus opositores.Devo confessar que também eu estarei atento ao desenrolar dos acontecimentos sobre este personagem tão contraditório da história de França que uns amam e que outros detestam.  Conhecendo também eu a minha atração comedida por este personagem, convidei o meu neto de 13 anos de idade a ir ver a exposição patente em Liège sobre o Imperador Napoleão. É evidente que as exposições são feitas para as pessoas gostarem. O meu neto viu a guilhotina e ficou impressionado com o sangue espalhado no chão e tive de lhe explicar que a França, após a decapitação do rei Luís XVI e da Rainha, tinha ficado ingovernável. No período que se seguiu à abolição da Monarquia, a guilhotina trabalhava de dia e de noite. O poder passava de um lado para o outro e os que perdiam colocavam-nos naquela máquina infernal, com um julgamento sumário. Tive de o informar que é verdade que Napoleão pôs termo ao período sanguinário em que a França se encontrava. Mas Bonaparte tinha também as mãos cheias de sangue, pois decretou guerras e travou batalhas um pouco por toda a Europa indo até ao Egito, para dominar estes países, matando, sem dó nem piedade os seus habitantes e roubando as suas riquezas. Impressionou-o ver os instrumentos cirúrgicos que os médicos utilizavam para cortar os braços e as pernas, que eram utilizados após as batalhas: serras de todos os tamanhos, garrotes metálicos, pinças... Pensava que se arrepiaria, ao imaginar tamanhos horrores, e que ficaria mudo perante o sofrimento dos pobres soldados feridos em combate. Indignou-se, e com razão, perante a grande barbária de amputar os membros de um ser humano, e tive de lhe explicar os efeitos nefastos da gangrena, pois ficar sem um braço ou uma perna, seria uma maneira de evitar a morte. Ao tentar acionar o fole da forja que se encontrava em cima de uma enorme carroça puxada a quatro cavalos, expliquei-lhe que, quando um exército de 50 mil a 60 mil homens se deslocava, era necessário poder reparar, em qualquer lugar, as espingardas, as espadas e todo o material metálico. Pôde também observar a sala de jantar dos oficiais ornada de uma bela mesa com um luxuoso serviço de porcelana de Sèvres, contrastando com o pão seco acompanhado com algum pedaço de carde de vaca ou de galinha que os soldados conseguiam roubar aos camponeses por onde passavam.Quando o meu neto era mais novo jogava constantemente à guerra, andava sempre aos tiros com o irmão, porque gostava de fazer barulho e de meter medo.  Sonhava ter toda a espécie de pistolas, apenas para brincar, claro. Mas agora, confrontado com este ambiente onde quase tudo cheirava a pólvora e a sangue, acho que irá converter-se num verdadeiro pacifista, como o avô.