«Chapéus há muitos, seu palerma.» dizia Vasco Santana na interpretação do clássico filme português “Canção de Lisboa”. Mas já não se usam os chapéus, ou raramente.

Aventais, sim, agora há muitos. Eles estão na moda, com velhos e novos usos, seja no mundo real seja no mundo do simbólico humano.
Um velho amigo enviou-me há tempos um texto intitulado «O avental da nona!». Era apresentado como uma homenagem às nossas avós. Foi pelo WhatsApp e nada se dizia sobre o autor. Tratava-se, presumivelmente, de um daqueles textos que, encaminhados e reencaminhados vezes sem conta, passam de mão em mão à velocidade de um clique e a fonte vai ficando perdida na noite dos tempos virtuais. Apreciei o texto com redobrada satisfação, quer porque estava escrito com graciosidade, quer porque retratava uma realidade presenciada no outrora aldeão da minha infância.
Reencaminhei o texto para um ou outro amigo ou familiar e, depois, eliminei-o como ordinariamente vou fazendo em idênticas ocasiões. Gostaria de o ter na íntegra neste momento, mas anotei somente a frase final que rezava assim: «Passarão muitos anos até que alguma outra invenção ou objeto possa substituir este velho avental da minha nona.»
Há dias recordei-o num restaurante de Lisboa, quando vi todos os empregados – e eram muitos naquela pizaria espaçosa – com apertados aventais de peitilho de cor acastanhada. Demasiado pequenos para a robustez do corpo dos gentis e azafamados empregados de mesa, chamaram-me particularmente a atenção aqueles aventais. Diminutos que eram e apertados acima da cintura, aqueles empregados mal cabiam neles.
Os mecanismos mnésicos possuem os seus mistérios. E há circunstâncias em que se mostram bem activos. Enquanto saboreava a minha massa italiana, ia recordando como aventais idênticos eram utilizados pelos profissionais específicos de serviço aos moradores da aldeia. Mas não se tratava de profissionais da restauração, não. Lá não havia restaurantes e nem eu saberia ainda, em criança, o que era um restaurante e, muito menos, uma pizaria importada da Itália. Eram outros os tempos. Eram os tempos em que as pizzas estariam ainda para além dos Alpes. Os tempos são sempre outros, novos e logo velhos, para os humanos viventes. Importa ir lembrando esta realidade bem simples para não esquecermos a nossa temporalidade. Sigamos, então, «avante», já que, etimologicamente, é daí que vem a palavra «avental», cuja raiz latina “ab ante” significa «ir adiante» ou «estar na frente».
Era o tempo em que não se consumia do pronto-a-vestir ou do pronto-a-calçar, que ainda não existiam, e a minha aldeia, como outras, ou todas, à altura, possuía o seu alfaiate, o seu sapateiro, o seu ferreiro, o seu carpinteiro e outros ou outras profissões que tais. A imagem que hoje possuo do avental de peitilho, era o de alguns destes artesãos que, ordinariamente, o utilizavam no seu trabalho.
Cozinhar e saber cozinhar está na moda e, para tal, é preciso um avental de protecção, como também se impõe proteger a roupa de quem serve à mesa num restaurante. Na restauração são aventais de peitilho que fazem as honras da casa, como naquela pizaria de Lisboa. Outrora, porém, nos cafés e restaurantes, os casacos, brancos ou de outras cores, faziam parte da identidade da casa. Era o caso dos funcionários do restaurante e bar do famoso e hospitaleiro Hotel de Turismo, no centro da Guarda. Aqui não são só os casacos que desapareceram. De decadência em decadência, ele já nem hotel é e o antigo edifício vai aguardando, entaipado, com esperança granítica, uma reabilitação sempre adiada desde há anos. Os tempos são sempre outros para os humanos que somos. Na restauração como em todos os outros domínios do humano. E o edifício do antigo Hotel de Turismo, a fazer companhia a outro património construído que vai entristecendo a paisagem do país, aguarda que os tempos sejam outros, de verdade.
Haverá por aí restaurantes onde os casacos brancos, ou de outras cores, ainda fazem as honras da casa, mas verdade é que eles foram evoluindo para aventais de peitilho. É isso, pelo menos, o que me parece acontecer. Num restaurante ou numa qualquer pastelaria. Digam os utilizadores que indumentária é a melhor, quer para protecção da roupa pessoal, quer para outras tarefas e funções do serviço de mesa. Quer, também, para a imagem da casa. Que não deixa de ter importância.
Não, se bem me lembro, o «avental da nona» de outrora não era avental de peitilho. Pelo menos na minha aldeia. Era simplesmente avental, mas que, para além de proteger a roupa, era auxiliar de muitos outros serviços desempenhados pela dona de casa. E o trabalho da dona de casa era plural, particularmente numa família alargada, como acontecia com frequência. Excepto quando ia à Igreja ou em dias festivos, nunca a dona de casa largava o avental sem peitilho. Sempre e em todo o lugar lá estava o avental elemento indispensável na roupagem caseira. Símbolo perene de trabalho, o avental sem peitilho pertencia à identidade da dona de casa.
Era este avental, preso à cintura, avental sem peitilho, avental só avental com um ou dois bolsos, enfeitado ou não com bordados floridos, o objecto sempre à mão para o que desse e viesse nos afazeres do dia-a-dia caseiro. Como gostava de ter comigo, agora, aquele texto «O avental da nona!». Porque lá o avental era plurifuncional. Tanto servia para agarrar a asa da panela de ferro e retirá-la da lareira, como servia de cesta para transportar os ovos que as galinhas acabavam de pôr num qualquer ninho improvisado ou para transportar da horta legumes de toda a espécie.
Diga-se, em abono da verdade, que o avental sem peitilho fazia parte, outrora, da indumentária da mulher portuguesa. Em casa, no trabalho do campo e noutros ofícios. É isso o que também mostram as fotografias de Maria Lamas (1893-1983). Romancista, poetisa e jornalista, pedagoga e tradutora, lutadora pelos direitos humanos e cívicos no tempo da ditadura, Maria Lamas foi também fotógrafa e investigadora na História das Mulheres de Portugal contemporâneo.
Em cerca de três semanas Lisboa proporcionou-me duas visões do avental. Primeiro, foi o avental de peitilho dos funcionários de mesa de uma pizaria italiana. Depois, foi o avental sem peitilho das mulheres nas fotografias de Maria Lamas tiradas por esse Portugal fora na década de cinquenta do século passado, cuja exposição pude visitar na Fundação Calouste Gulbenkian. Pelo meio o tradicional avental da mulher portuguesa enquanto dona de casa que, intencional ou casualmente, parece ter escapado aos olhos e à máquina da fotógrafa que, ao longo de anos, percorreu Portugal a registar momentos de «As Mulheres do Meu País».
Mas o avental levou-me mais longe e para outros âmbitos. O avental cobre e protege, em casa, no campo e noutros locais da actividade humana. Mas, feita metáfora, poder-se-á dizer que há por aí aventais que escondem, sem o conseguirem, o ser e o agir profundo de quem, com posturas corporais e argumentos retóricos, usuais ou mais subtis, nos pretendem conquistar. O caso típico e, certamente, mais falado, tem sido o Secretário Geral do PS que, desde que foi eleito para tais funções, começou a aparentar ser o que não é, sereno e cordato, humilde e dialogante, moderado e a mostrar contenção, para esconder ou proteger o que profundamente é e como sempre transpareceu: agreste e impulsivo, desmedido e grosseiro, agressivo e arrogante. Só que esta atitude artificiosa não esconde nem o rosto nem as tonalidades discursivas na voz. As máscaras tradicionais cobrem e escondem o rosto. Aqui não se esconde o rosto, mas veste-se um avental apertado onde não cabe o dono. Tal como eram os aventais de peitilho da pizaria italiana onde não cabiam os corpos daqueles dedicados funcionários de mesa que nos serviram com assinalável cortesia. E, se o avental tão apertado não é ajustado às situações, vai de se desapertar, conforme as circunstâncias do momento. Aperta-se e alarga-se assim o avental conforme as necessidades e as conveniências. Não sei se para o bom trabalho de servir honradamente o país, como honradamente fui servido na pizaria, mas, sem dúvida, como estratégia assumida de conquista do poder.
Mais ou menos apertados, reais ou simbólicos, brancos ou coloridos, hoje aventais há muitos, particularmente de peitilho. Aventais para muitos usos, gostos, pretensões e conveniências. Aventais plurifuncionais, portanto, como «O avental da nona!» Mas esse era humilde e não possuía peitilho. Sem disfarces, esse era mesmo para servir.
Guarda, 29 de Fevereiro de 2024