Escrevo neste dia 13 de Maio de 2020. No 13 de Maio de outros anos, o Santuário de Fátima estaria repleto de peregrinos.

E na véspera, no dia 12, em muitas aldeias, vilas e cidades do nosso país, os fiéis, associando-se aos peregrinos de Fátima, percorriam ruas de velas acesas na mão e acompanhando o andor deviamente ornado, a venerar a Mãe de Deus, cantando e rezando. Neste ano, porém, o Covid 19 espantou a multidão dos tradicionais fiéis e aquele espaço ficou fisicamente vazio. Pela primeira vez em tantos anos, mas a sua luz entrou pelas janelas de cada lar e aquele recinto alargou-se a todo o espaço português, transformado que foi em eloquente procissão de velas.Há tempos, bem antes do confinamento em que nos encontramos, casualmente sentámo-nos numa pastelaria em mesa contígua a outra ocupada por um cavalheiro já de idade avançada que se fazia acompanhar de uma senhora mais jovem. Aparentavam ser familiares. A conversa entre os dois foi tão bem às claras e em voz tão alta, sobretudo a do cavalheiro, que seria bem mais difícil para nós não ouvir do que ouvir. Ouvimos, pois, sem querer, mas confesso que a conversa até foi interessante e pedagógica. Versava ela sobre as imagens religiosas, designadamente de Nossa Senhora. Embora não estivesse ali qualquer confronto, à moda antiga, entre um iconoclasta e um iconófilo ou iconólatra, a disputa andava por essas bandas.Pelo que pudemos concluir o confronto foi provocado pela aquisição numa aldeia da região de uma imagem de Nossa Senhora – não pudemos apurar a invocação nem o nome da terra - para uma igreja onde já existiam seis imagens da Mãe de Deus. Argumentava o cavalheiro que não se justificava entronizar mais uma imagem de Nossa Senhora numa igreja onde já existia meia dúzia. E perguntava:- Tu também contribuíste com o teu dinheiro?Perante a resposta afirmativa, exclamou com ar um tanto acalorado:- Asneira, asneira… – ia ele repetindo e repetindo, cada vez com maior realce.- Mas as pessoas querem e têm essa devoção.- Ora, devoção, devoção!… Mas tu não sabes, e as pessoas não sabem, que a Virgem Nossa Senhora é só uma e é ela que devemos venerar? Tantas imagens, tantas imagens… Até parece que adorais as imagens e que vos esqueceis de Nossa Senhora e do Filho, Jesus.A conversa foi andando por aí e chegou-se a tocar, ao de leve, na diferença de cultos: a Deus, a Nossa Senhora, aos santos e às imagens. Levantaram-se e, enquanto se encaminhavam para a porta, ainda ele ia recalcitrando bem alto:- Imagens, imagens e mais imagens no mesmo espaço! O que falta a esta gente é uma boa catequese!Não deixando de dar alguma razão ao cavalheiro que, aliás, ali encontramos com alguma frequência, a cena deu-nos margem para um diálogo de ocasião à mesa de um café. Neste anómalo mês mariano de Maio ocorreu-me este episódio e lembrei-me de consultar a velha monografia do P. José Quelhas Bigote intitulada “O Culto de Nossa Senhora da Diocese da Guarda” que havíamos adquirido recentemente num alfarrabista. Como muitos saberão, trata-se de uma obra publicada em 1948, «incompleta e muito deficiente», como reconhece o Autor. Hoje muito desactualizada, certamente, mas não deixará de nos dar uma panorâmica geral do culto mariano na Diocese, mesmo considerando a distância temporal e as transformações entretanto havidas. E não serão poucas. Mas… adiante. No resumo final Nossa Senhora aparece como orago em 149 igrejas, titular de 322 capelas e com imagens em 497 altares diversos, o que perfaz um total de 968 imagens, aparecendo Maria com 155 invocações diferentes, número que pecará por defeito. Casualmente, encontrei algumas falhas.Mesmo sem qualquer pretensão analítica, facilmente se poderá constatar que rara será a paróquia em cuja igreja paroquial não existam duas ou três imagens de Nossa Senhora e com facilidade poderemos encontrar igrejas com quatro ou cinco. Sem dificuldade de maior encontrei algumas com seis imagens da Virgem, sendo a de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora de Fátima aquelas que nos parecem mais frequentemente invocadas, 162 e 134 vezes respectivamente.Se algumas destas invocações correspondem a momentos da vida da Mãe de Deus, referidos ou não nos Evangelhos, com festividade, ou não, no calendário litúrgico, muitas são invocações toponímicas de devoção mariana, aduzem outras as virtudes da Mãe de Deus e outras ainda correspondem a uma visão devocional que vê em Nossa Senhora uma espécie de Medianeira de todas as Graças, espirituais ou corporais, ela que é a medianeira da grande Graça de Deus à Humanidade, que é o seu Filho Jesus Cristo. Entre elas, se algumas invocações são frequentemente ouvidas, outras serão mais raras. Seja, como exemplo, o caso de Nossa Senhora dos Carneiros (Aldeia do Soito, Covilhã), Nossa Senhora do Ouvido (Salgueirais – Celorico da Beira), Nossa Senhora da Broa (Vendada – Pinhel), Nossa Senhora das Cabeças que encontramos em várias localidades (Seixo Amarelo – Guarda, por exemplo) ou a Senhora da Tosse (Lapa, Tourais) e Senhora das Febres (Vila Verde, Tourais), duas invocações que não deixarão de bem se enquadrarem nos tempos pandémicos em que nos encontramos. Indicam-se ali 35 igrejas-matriz que possuem Nossa Senhora da Conceição como orago, 28 dedicadas a Nossa Senhora da Assunção e 16 a Nossa Senhora da Graça. Espontaneamente dei comigo a pensar na Catedral, como ela se encontra actualmente e como ela foi sendo no decurso da já longa história da diocese da Guarda. Fui à Egitânia, a velha Idanha, e encontrei Nossa Senhora da Conceição. Cheguei à Guarda e encontrei a primeira catedral do tempo de D. Sancho I consagrada a Nossa Senhora do Desterro, a segunda catedral do tempo de D. Sancho II dedicada a Nossa Senhora da Consolação. Já a terceira, a majestosa catedral actual e ex-libris da cidade, tem como orago Nossa Senhora da Assunção. A atestá-lo lá está a sua imagem colocada no nicho que encima a porta principal da Sé e, sobretudo, a escultura de rara beleza que ocupa o centro do notável retábulo de João de Ruão. Fiel às raízes da velha Idanha, cuja catedral era dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no braço direito da nave cruzeira da Sé lá está o altar com a belíssima imagem de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida com o nome de Nossa Senhora de Lourdes, e, noutro altar da nave direita, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, junto à qual mais se juntam os fiéis.Com velas às janelas, Nossa Senhora de Fátima apareceu neste 12 e 13 de Maio, e nestes tempos pandémicos, como Nossa Senhora do Confinamento, que é como quem diz Senhora de Nazaré, Senhora do Lar, Senhora da Família e Senhora da Vida. Enfim, Nossa Senhora da Fé. Dizer Nossa Senhora da Fé é também dizer Nossa Senhora Mãe de Deus e de muitos irmãos que, peregrinos da Fé e ancorados ou não em imagens, a veneram de mil maneiras e de mil modos a invocam. Ave Maria, Senhora do Confinamento.Guarda, 13 de Maio de 2020