Sabe o leitor o que é um «abatanado»? Eu não sabia. Até há bem pouco tempo.


Aconteceu há uns meses. Numa pastelaria ouvi pedir um «café sem princípio». Achei estranho e fiquei atento ao serviço. É que a menina entendeu perfeitamente o pedido. E, para minha surpresa e frustração da minha curiosidade, o «café sem princípio» veio servido numa chávena igualzinha à xícara em que me havia sido servido o meu normalíssimo café. Simplesmente café, pedido como um café. Assim me parecia. Quando procedi ao pagamento perguntei eu, puro ignorante, o que era um «café sem princípio».
Há dias fiquei ainda mais intrigado quando, a meu lado, ouvi pedir um «abatanado». Nem tal palavra conhecia. Mas a menina entendeu perfeitamente o pedido. Imaginei, de momento, que se trataria de algum pastel exposto na costumeira montra do balcão. Uma especiaria com origem nalgum ponto do país pequenino, mas que vai tendo uma variedade bastante grande de especiarias doces. O «abatanado» pareceu-me significar qualquer coisa de doce, de açucarado. Um qualquer pastel, imaginei. Mas pastel não veio. Chegou antes uma chávena grande a esconder-me o conteúdo. Mais uma vez tive que perguntar para satisfazer a minha curiosidade e superar a ignorância.
Quando cheguei a casa e desejei anotar o termo, a memória não me ajudou. Ou ajudou-me pouco. Tinha a certeza de que o termo iniciava com “aba” e que terminava em «ado». Mais, – a memória tem destas coisas – tinha também a certeza de que a palavra possuía cinco sílabas. Explorando o alfabeto, vinham-me ao espírito termos inexistentes nos dicionários como «abacamado», «abalamado», «abadamado», «abadalhado», «abagafado», «abalapado», «abafadado», «abanamado». Ou outros, que constavam no dicionário, como «abatatado», «abarrancado», «abandalhado», «abarbatado», «abatocado», «abasbacado», «abarrotado», e outras palavras que tais, particípios passados de outros tantos verbos iniciados por «aba». Por especiais mecanismos mnésicos, havia, sobretudo, dois termos comuns que não me saíam da mente: «abandalhado» e «abananado». Mas nenhum deles se adequava à situação, pensava eu. Disso parecia informar-me a memória, mesmo na sua fragilidade. Doutro modo teria fixado facilmente o nome do famigerado «café». Aquelas duas palavras pareciam-me demasiado vulgares para me atraiçoarem.
Há dias, a cena repetiu-se num espaço diferente. Uma cliente, em voz bem alta, pediu:
- Para mim, é um abatanado.
Anotei a palavra e o significado, tal como uns tempos antes me havia sido explicado, já que não a encontrara nos dicionários caseiros. Agora já sei. Quando pretender um café com uma porção habitual do respectivo pó, mas servido numa chávena maior e, certamente, com um pouco mais de água, peço um «café abatanado» ou, simplesmente, um «abatanado». Ou seja, uma espécie de «café longo» com um pouco mais de água. Para que o termo não me volte a fugir, creio que um dia vou pedir um «abatanado». Será também para provar. Até pode acontecer que o venha apreciar e que, assim regado, o termo ganhe raízes em mim enquanto as não ganhar nos dicionários da língua mãe, cujos mestres nem sempre prestam a devida atenção aos falares das gentes. Da rua ou de uma qualquer pastelaria.
Os cafés tradicionais foram, ou vão, desaparecendo em muitas das nossas cidades. Na cidade da Guarda, também desapareceram os clássicos cafés. Para onde foram o “Café ou Pastelaria Cristal”, o “Café Mondego” e o “Café Monteneve”, onde, dia após dia, amigos de juntavam, a horas certas, para uma tertúlia, um são convívio ou, simplesmente, para tomarem um «café»? Sem eles talvez sejamos um pouco menos europeus, se, como realça o filósofo e ensaísta George Steiner (1929-2020), os cafés – de Lisboa a Odessa, de Copenhaga a Palermo, passando, diríamos nós, por uma cidade perdida no interior de Portugal - são um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa”. Ou seja, da identidade cultural europeia, poder-se-á dizer.
Aconteceu, já lá vão décadas, no Café Monteneve. A vários títulos um afamado café da Guarda, até pela tradicional porta giratória de entrada. Acabava de chegar um dos membros habituais do nosso grupo. Atento, o simpático empregado que já ia conhecendo os hábitos dos clientes, aproxima-se e dirige-se-lhe com estas palavras:
- O Senhor é um garoto, não é verdade?
Perante a resposta afirmativa, este cordial funcionário, brincalhão como sempre, comentou bem alto para bem se fazer ouvir:
- Pois, pois… cá me parecia.
Brincámos um pouco com esta saída jocosa. E o «garoto» chegou. Era aquela quantidade específica de café, servida com um pouco de leite numa chávena pequena. Ninguém saberá quando e em que circunstâncias começou a ser assim chamado. Como é que um termo, a apontar para uma criança, foi importada para o espaço de uma pastelaria ou de um café. Alvíssaras a quem souber.
«Café sem princípio», «abatanado», «café longo» e «garoto». Já lá vão quatro. Mas muitos outros nomes tem o café servido nesses espaços da vida social chamados também «café». Variarão eles, de acordo com a natureza específica do café servido e como é servido, e também, e muito, conforme os usos e costumes das regiões. Não sei se os nossos antropólogos culturais ou sociais já terão estudado o assunto. Mas que o tema é interessante, lá isso é. Ele expressará um pouco o nosso conviver.
Já lá vão quatro, dizia eu. Acrescentemos agora mais alguns. São também pelo menos quatro os familiares do «garoto»: «café pingado», «pingo», «galão» e «meia-de-leite». O primeiro, creio que pouco usado, é uma espécie de «garoto» com menos leite, ou, dito de um modo mais próximo da expressão, um café normal servido com uma amostra de leite, sendo que, no Porto, é conhecido por «pingo». É o pingo do leite a dar o nome ao café. A «meia-de-leite», mais habitual também no Norte, como me parece, é uma espécie de «garoto» crescidinho, isto é, uma chávena grande de café com leite; ou, conforme o nome parece indicar, uma chávena grande cheia, meia de leite e meia de café. Já o vulgar «galão» - nome também bem estranho para aquilo que significa – é o mais crescidinho da família, um café com leite num copo alto, normalmente de vidro.
Já lá vão oito. Mas há mais. Quem nunca experimentou um «carioca», esse café claro, aguado e muito fraco? Uma espécie de segundo café tirado da mesma quantidade do respectivo pó. Já são nove os nomes de que nos servimos para pedirmos café. Juntemos-lhe agora o «café», simplesmente «café», o nosso «café expresso», muito conhecido por «bica», sobretudo no Sul, e por «cimbalino», como também é conhecido no Norte. Dois nomes que andarão associados à evolução da técnica de «tirar o café».
Pedi há dias pedi um café no final do almoço num restaurante de Manteigas. O chefe de mesa acompanhou o empregado com a chávena do café e, gentilmente, perguntou-me:
- Vai um cheirinho?
Agradeci e fiquei a recordar a velha tradição portuguesa, que já havia esquecido. O «café com cheirinho». Era, ou é, um café «pingado» com aguardente.
Tenha o leitor um Santo Tempo da Alegria Pascal adoçado com os melhores sabores da pastelaria portuguesa acompanhados de um bom café. Curto, cheio, duplo, ou qualquer outro, pedido, ou feito, a seu gosto. Até poderá ser um «abatanado». Que tal?
Guarda, 11 de Abril de 2022