Esta é uma crónica que não gostaria de escrever. Queria mesmo não ter de a escrever.


Há notícias que nos enchem a alma pela pujança de bondade que elas anunciam. E, se outras nos deixam indiferentes, outras há que nos atingem como espadas e que tocam implacavelmente o fundo, bem fundo, da alma.
Eu bem sei que nada é eterno neste mundo e que tudo o que o constitui está sempre em permanente efemeridade. Mas a efemeridade das coisas humanas nunca é inócua. Sempre uma axiologia a acompanha; implícita ou explicitamente lá está uma hierarquia de valores. Os problemas surgem quando os degraus axiológicos se confundem, se trocam, se invertem ou se subvertem. E então… então as sociedades, as instituições, os grupos, os indivíduos empobrecem quando não ficam mesmo esmagados na derrocada dos degraus da escadaria da vida.
Há três anos publiquei neste jornal uma crónica a que dei o título Liberdade para aprender e ensinar a Língua Portuguesa. Foi em Maio de 2016. Preparava-me para escrever um texto para este jornal evocando o Dia da Língua Portuguesa quando fui surpreendido com a notícia de que um colégio, onde passei alguns anos do meu percurso escolar e onde, depois, dei os primeiros passos na vida profissional, lutava contra a cegueira de uma geringonça pretensamente iluminada. Claramente, pensei eu, jogava-se ali uma axiologia que, subtilmente, se traduziria em inversão de valores. Em nome de um Estado, que de falsamente igualitário se transforma em totalitário, estava a ser desenvolvido um plano para sufocar instituições de ensino particular. Usadas enquanto foram dando jeito ao todo-poderoso Estado, eram então deitadas para o lixo como papel que não presta.
Só que nesse papel está escrito um dos mais belos versos de um poema. É o poema da liberdade, a vida do espírito. É um poema escrito, declamado e cantado com muitos versos e outros tantos verbos da gramática da vida. Um universal concreto onde se cruzam as liberdades sem as quais a liberdade é um universal abstracto sem conteúdo e sem significado. Porque neste mundo humano não há liberdade sem liberdades. Falar de liberdade abafando as liberdades é um modo subtil de negar a liberdade. Sufocados os verbos da vida, fica o campo aberto para a conjugação de outros verbos, os verbos da cegueira, da alienação, da subjugação.
Não há liberdade de aprender e ensinar quando o Estado se nega a olhar para as escolas particulares com desconfiança e quando só se aproveita delas para o festim dos seus pretensos sucessos. Não há liberdade de aprender quando os pais se vêem forçados a optar por um ensino estatal quando, sonhando o melhor para os seus filhos, são forçados a renunciar aos seus direitos de opção educativa. Não, o Estado não é nem se pode arvorar em dono e senhor dos cidadãos.
Vai encerrar o Colégio da Imaculada Conceição de Cernache, a poucos quilómetros de Coimbra, que desde 1978 funcionou com Contrato de Associação com o Estado Português a que o Ministério da Educação pôs fim repentina e unilateralmente em 2016.
Quando soube a notícia, entrei cheio de mágoa na página com que o colégio se fazia anunciar na internet. O que lá consta mostra bem a dinâmica pedagógico-educativa que a substantivava. Para além do currículo regular do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e de vários cursos do Ensino Secundário, era oferecida aos alunos uma panóplia de actividades de enriquecimento curricular e animação pedagógica: treze clubes (Aventura, Eco Escolas, Música tradicional, Cenografia, Ciência em acção, Ciência divertida, Jornalismo, Matemática, Francês, Línguas, Quinta Biológica, Robótica e Rumos) e cinco academias (Música, Dança - Dança Jazz, Teatro, Inglês e Desporto nas modalidades de Ténis de mesa, Voleibol e Xadrez). Bem gostaria de saber quantas escolas estatais oferecem aos alunos igual riqueza formativa!
As actividades eram suportadas por um conjunto de seis serviços de apoio: Núcleo de Educação Especial, Gabinete de Apoio Social, Gabinete para a Saúde, Serviços de Psicologia e Orientação, Sistema de Protecção e Cuidado de Menores e Adultos e ainda Sala de Estudo.
Não, esta estrutura pedagógica não era letra morta. Era vida em acção realizada em espaços de encanto e que sistematicamente foram sendo alindados ao longo das dezenas de anos da existência desta escola.
Como colégio da Companhia de Jesus, fazia parte da rede mundial de colégios jesuítas que integra cinco séculos de tradição pedagógica. Sob o lema «Educar para servir», o colégio que agora se vê forçado a fechar portas, buscava «formar homens e mulheres conscientes, competentes, compassivos e comprometidos», «empenhados em construir um mundo mais justo e solidário, promovendo o desenvolvimento integral e integrado de cada aluno no seu Projecto vital de felicidade.» Enfim, um colégio cuja missão se concretizava na «formação integral, no acompanhamento personalizado, no desenvolvimento da reflexão crítica e na mobilização para o serviço aos outros, com vista à construção de uma sociedade mais justa e solidária.» Mas com ele não houve justiça nem solidariedade! Pobre país que assim se dá ao luxo de secar jardins onde medra a pujança da vida!
Assim se fecha uma escola de excelência, por não aguentar o abandono a que um Estado, negando a própria Constituição da República, vai votando a liberdade de aprender e de ensinar e o direito dos pais a escolherem o projecto educativo dos seus filhos. Assim se promove o fosso entre ricos e pobres, entre quem por razões económicas não pode e aqueles que podem pagar duplamente a educação dos filhos: com os seus impostos e com a matrícula em escolas particulares a que o Estado vira as costas. Assim se fere o princípio da igualdade dos cidadãos! Assim se atinge a alma de um povo!
Ali se estudou, se jogou, se cantou, se tocou, se brincou. Ali se alimentou a esperança na flor da idade. Ali se sonhou, e, nos sonhos, ali se rezou a oração da fé e da esperança nos frutos da caridade. Aquelas paredes deixarão de ver passar crianças, adolescentes e jovens. Naqueles espaços deixarão de soar os coros entusiastas de quem canta a alegria da juventude e o sorriso do futuro. Aquelas instalações desportivas já não suportarão os campeonatos entusiásticos de desportos vários. Aquela quinta… Aquele lago com aquela ilha… Aquele arvoredo com espécies raras… Aquele torreão de fadas e sentinelas… Aqueles portões… Bem, aqueles antigos portões da quinta deixarão de ser portões de futuro. Por ali deixarão de entrar crianças de brincar e por eles já não mais sairão os jovens com sonhos do tamanho do mundo.
Também se empobrece um país geringonçando com a poupança de um governo que vai gerindo a austeridade à sombra de aparências fáceis e opções equívocas.
Encerrando as portas a uma escola de excelência o país fica mais pobre e os pobres mais pobres ficarão.
Guarda, 27 de Junho de 2019.