Histórias que a Vida Conta

Passei, como de costume, o mês de agosto na Praia das Maçãs. Ociosamente, cada vez menos caminhante, no meu sedentarismo bem sentado. Nos primeiros dias do mês fui compatibilizando horários, por forma a acompanhar as provas principais dos Jogos Olímpicos (J.O.) de Tóquio: foquei-me, como agora se diz, no atletismo (mais), na ginástica, na natação, no remo e no judo (menos). Segui a Eurosport (mais) e a RTP (menos), exceto quanto ao atletismo, modalidade em que tentei não perder os comentários do Luís Lopes, com o seu saber enciclopédico, apesar de me irritarem os critérios editoriais da RTP, na escolha de muitas provas menores, que lhe cortavam “o fio e o pio” a propósito e a despropósito.O que mais lamentei foi a falta de público nas bancadas do estádio e dos pavilhões. Mais uma vez a pandemia se impôs e não permitiu aos japoneses e a muitos estrangeiros que por certo se deslocariam a Tóquio saborearem o magnífico e raro espetáculo que os Jogos proporcionam. Se queriam ter um cheirinho das competições de atletismo, restou-lhes uma possibilidade: a de se deslocarem às estradas por onde eram disputadas as provas de fundo (de marcha e as maratonas) e, das bermas, aplaudirem o esforço e o brio dos atletas. E assim cheguei, entremeando os J.O. com a leitura, ao dia 8 de agosto.Encerrados os Jogos, voltou o desporto-rei da nossa “liguinha”. O (meu) Sporting ganhou com mérito a Supertaça no confronto com o Sporting de Braga. O Benfica iniciou bem a época enfrentando com êxito a difícil tarefa de vencer duas eliminatórias para poder chegar à almejada Champions. Acabo de assistir ao empate/vitória com o PSV dos Países Baixos, que lhe abriu as portas da fase de grupos da competição milionária depois de uma exibição sofrida, com dez jogadores em campo depois dos 32 minutos. Quer o Sporting quer o Benfica ganharam os seus embates nas três primeiras jornadas da nossa Liga. O Futebol Clube do Porto tropeçou no Funchal, onde perdeu dois pontos e o seu treinador continua a deixar a imagem de alguém que não sabe perder e a confundir aquilo a que chama o “DNA PORTO” com falta de elegância e de desportivismo.Entretanto, concluí as leituras que tinha trazido para a Praia das Maçãs. Li, com dificuldade crescente, por falta de vista (a operação à catarata no olho direito é cada vez mais premente) :“Munique”, de Robert Harris, mais um thriller político em que o autor é renomado especialista, mas menos entusiasmante do que pelo menos os dois primeiros volumes da sua trilogia sobre Cícero e a Roma antiga ou “Oficial e Cavalheiro”, acerca do caso Dreyfuss; “A Anomalia”, de Hervé Le Tellier, que foi premiado com o Goncourt em 2020, um original  livro de ficção científica, que coloca desafios e perplexidades filosófico-identitárias ao leitor; “Pastoral Americana”, de Philip Roth, que nos traz uma história deprimente e impiedosa. Sádica, diria até! É, na minha opinião, o livro mais violento entre os (muitos) que li do autor. Francamente, não gostei….Na nossa língua de muitas faces, li o romance epistolar e bem contado “Nação Crioula”, de José Eduardo Águalusa, que tem no centro a questão do tráfico de escravos de África para o Brasil; e “Terra Sonâmbula” de Mia Couto, que nos conduz através de um imaginário fantasmático de matiz africano, numa escrita repleta de imagens e neologismos reveladores de uma imaginação vocabular e semântica prodigiosa, inovadora e riquíssima (caindo até às vezes no exagero…). Permitam-me, contudo, os meus leitores que transcreva um segmento sugestivo: “E remei por dias compridos, por noites infinitas, Usava meus braços para empurrar o barco (…) Não sei quanto tempo passou. Lembro mais são as noites. Lembro as estrelas, longínquas vizinhas que não dormiam. Lembro a lua se exibindo como medalha no decote da noite. Eu olhava o astro, suas pratas. Maldiçoava minha sina: os cornos da lua sempre apontavam para cima! Meu pai me ensinara a ler as luas” – cfr. loc cit, págs. 43 e 44, “Coleção Mil Folhas, PÚBLICO, 62.E assim pude descansar da política. O privilégio de alguns dias… Em vez dos sempre presentes governantes e deputados do PS, e demais figuras dessa banda, espelhando um orgulho e uma ambição francamente fora de gosto (Ah! Já me esquecia…! Vêm aí as autárquicas…!), ouvi a voz moderadora e autorizada de um Homem de missão, seriamente dedicado à tarefa que lhe foi, em boa hora, confiada: o Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo.Que diferença, meus caros leitores! Em limpidez, em transparência e em espírito de serviço. Como o nosso país seria diferente e melhor se, livre de peias e de compromissos partidários, pudesse escolher para as grandes responsabilidades nacionais homens e mulheres escrupulosos, sérios e competentes, apenas interessados na busca do interesse coletivo, capazes de “cortar a direito” e de, generosamente, se entregarem ao seu dever com espírito de missão. Mas sei bem que isto não passa do sonho de uma noite de Verão…  Aproveito apenas para, uma vez mais, prestar a minha homenagem aos militares – aos grandes militares, de hoje e de sempre, que honram as suas fardas, comandam os seus homens, organizam os seus serviços, se entregam às suas missões e deixam uma memória de probidade, lealdade, eficácia e coragem. Lembro o exemplo, que não é de agora mas que se construiu também em tempos difíceis e históricos, do General Carlos Azeredo que acaba de nos deixar.Estava eu neste deambular sonhador patriótico quando me dei conta de que o nosso 1º Ministro tinha anunciado que deixava nas mãos da esquerda (à sua esquerda), ou seja, ao PCP e ao Bloco, o estudo das magnas questões sobre a revisão dos escalões do IRS. Tive a sensação de que essa intenção política já ultrapassava os limites da excomunhão dos partidos do centro e da direita moderada do quadro do diálogo do sistema fiscal. Eu sei bem que o Dr. António Costa foi sempre muito claro quando enunciou os seus parceiros de jornada. Mas isto é outra coisa: uma tal ostracização já não é só “fazer pouco” das forças políticas moderadas, que, diga-se, até o poderão merecer. É também “fazer pouco” da enorme maioria dos cidadãos que sustentam a máquina tributária com os seus impostos, ou seja, dos contribuintes que não se revêm de todo nesses partidos à esquerda do PS, porque declaradamente detestam tudo o que é “privado”, na prática desprezando quem tem algumas poupanças, fruto, tantas vezes, de vidas de trabalho e de muitas privações. Alguém espera desses partidos radicais posições de alguma equidade relativamente à carga fiscal que desde sempre vem sobrecarregando a classe média? E o PS patrocina esses estudos e propostas por parte desses partidos tão radicais em matéria tão sensível! O Senhor 1º Ministro tem a noção de que, assim, está a excluir das grandes questões em debate, grande parte da população que contribui para a construção da riqueza (?!) nacional? Se tem, estamos mal, mesmo muito mal…!Praia das Maçãs, 27 de agosto de 2021