Está quase a chegar ao fim a última semana da campanha eleitoral. No domingo, 10, ocorrerá um dos atos eleitorais mais importantes nas nossas vidas.

Até por isso se justificam todos os apelos ao exercício do direito/dever de votar. Reside na vontade dos eleitores a capacidade de modificar o status quo vigente no quadro político-partidário: fechar oito anos de governação socialista, os dois últimos dos quais num governo com maioria absoluta que ficou marcada por episódios e decisões e pelos famigerados “casos e casinhos” que mancharam sem remédio a imagem do executivo e deram causa à demissão de 14 governantes, culminando com a do próprio 1º Ministro e, daí, à queda do Governo. Registo, para que conste, que este artigo será publicado e dado a conhecer já depois de conhecidos os resultados das eleições. Por isso posso ainda perguntar-me se o povo português, tido por sensato e justo, irá castigar os responsáveis pelo desgoverno sofrido ou se – oh funesta surpresa! – renovará ainda a confiança no PS?
Devo dizer, no momento em que escrevo, que, embora me pareça mais provável que a Aliança Democrática (AD) liderada por Luís Montenegro (LM), será a formação política mais votada, continuo a ter dúvidas. Trata-se apenas de um feeling, fruto do acompanhamento das sondagens – que estão longe de ser confiáveis - e, principalmente, da lógica da análise da infeliz performance do governo cessante e da duração, longa de oito anos, da governação socialista.
Se o PS e Pedro Nuno Santos (PNS) vencerem a pugna eleitoral do próximo domingo, cá estarei para dar o braço a torcer e lamentar a vitória da esquerda – do PS de PNS e dos partidos à sua esquerda. Vou adiantar, desde já, as principais razões por que, na minha opinião, tal resultado será inconveniente e prejudicial para o País.
* Luís Montenegro (LM) revelou-se-me, ao longo da campanha, muito mais fiável, mais maduro, estável e sereno do que PNS. É uma pessoa mais previsível e coerente do que o seu rival. É mais personalizado e seguro na estratégia que define e prossegue. Isto, para mim, é indiscutível. Tem vida além da política, o que me parece recomendável. É homem sereno, tolerante, habituado ao exercício do contraditório que lhe dá o domínio dos nervos exercitado pela advocacia.
* PNS é uma criatura da Juventude Socialista (JS), estrutura a que presidiu. Toda a sua vida tem sido passada dentro e para a política. Talvez por isso é mais facilmente dado a arroubos, ameaças ou cóleras e, por tal, mais fácil de desestabilizar que LM.
PNS aceita reajustar a sua postura e discurso, não por razões de humildade mas por influência dos spin doctors ou por conselho da sua entourage de assessoria pessoal: não por convicção mas por tática política. Revelou-o durante a campanha, com períodos de arrogância seguidos de momentos de humildade, nada convincentes nem genuínos, num abuso de experimentalismo revelador de falta de um pensamento próprio consolidado e consistente. A sua estratégia foi ziguezagueante e confusa.
No seu passado como ministro das Infraestruturas, misturou a sua vocação para estrela com a insegurança que o levou a acatar reprimendas severas e públicas do primeiro-ministro, António Costa.
Na sua atuacão pública, PNS tem uma voz martelada, uma dicção sincopada e monocórdica, um discurso repetitivo e monótono. Tem uma postura naturalmente rígida e, se se esforça por ser mais acessível e simpático, torna-se artificial. Como é muito novo, tem ainda muito tempo pela frente para dedicar ao aperfeiçoamento e à reflexão. Reflexão não só para se analisar do ponto de vista ideológico, mas também para ponderar (e optar) por um estilo, uma postura e um discurso próprios.
* PNS atacou LM, acusando-o de impreparação e de falta de experiência, por nunca ter desempenhado cargos governamentais. Essa crítica, que começou nos bastidores da campanha do PS, foi secundada e amplificada pelos comentadores muitos dos quais com total falta de isenção e revelando empenhamento pessoal na vitória do PS ou da esquerda.
* Permita-se-me, agora, um aparte dedicado ao “comentariado” ou à “comentadoria”, como alguém, com graça e imaginação, preferiu chamar-lhe. Cansados de tanta opinião e análise, de tanta “sapiência” tendenciosa, também, nós, que tivemos de os aturar, temos o direito de desabafar. O “comentariado”, que começou com o futebol, passou pela pandemia, invadiu o espaço das guerras (da Ucrânia e de Gaza) e desaguou, com todo o esplendor, na apreciação dos debates eleitorais, na autópsia das sondagens e, até, no dissecar de “faits divers” de candidatos e apoiantes, transformando, tantas vezes, opiniões pessoais infelizes ou inoportunas em grandes factos da campanha. Claro que não confundo os comentários dos médicos, informativos e quase sempre esclarecedores, nem sequer os da maioria dos majores-generais e outros oficiais superiores na análise da situação nas frentes de batalha ou no inferno palestiniano, com o “comentadoria” eleitoral nem, evidentemente, futebolística, marcada pela parcialidade e pela inanidade convencida.
Alguém acredita na objetividade de análise em matéria política de uma Ana Gomes ou de um Daniel Oliveira? Mas, mais insuportáveis ainda são os comentaristas que, acima de tudo, gostam de se ouvir, falam sem detença, sobrepõem a sua voz à dos restantes companheiros de comentário, riem a bandeiras despregadas com as suas tiradas porque se acham donos de uma ironia fina e de um sentido de humor admirável. Esses cavalheiros, que aparecem em todo o lado nos canais onde lhes pagam, até são capazes de fazer algumas derivações no discurso analítico. Embora tenham preferências marcadas por um candidato e por uma lista, são capazes de fazer flic-flacs, se virem que a tendência das sondagens lhe passou a ser desfavorável. São os oportunistas que se exibem sem curar do quanto se tornam cansativos. Só não mudo de canal porque não acho correto falar sem conhecimento de causa e ouço o seu discurso, as suas análises e ziguezagues na medida do que entendo como suportável e, apesar de tudo, útil.
A propósito de toda esta “comentadoria eleitoral”, saltou-me á memória aquela toada repetitiva dos aforismos, tais como: “fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia”. Adaptando-a ao “comentariado televisivo”, que nos massacrou com overdoses de análise, deu-me algo como: “Cada cor, seu paladar, cada comentador seu palrar”. Ou, em alternativa, estoutro: “Para qualquer cor seu sabor, para cada candidato seu comentador”. Que tal?
E para acabar o que lá atrás vinha dizendo, L.M. poderá, como toda a gente empenhada e séria, na força da vida como está, empenhar-se na experiência da governação que agora lhe caiba, de um modo muito simples: exercer esse seu novo mister com bom senso, trabalho, determinação e uma equipa de qualidade, levantando alto a bandeira das medidas e propostas por que foram eleitos.
Lisboa, 9 de março de 2024