No Vietname

Ao encontro de Francisco de Pina, Egitaniense

Nessa madrugada de finais de Julho de 2012, levantei-me à pressa, galguei, a pé e sozinho, aquelas ruas de Hoi An, a Faifo da Cochinchina dos antigos portugueses, mas já pejadas de motorizadas com vietnamitas. Eram cinco e quarenta e cinco minutos.

Ofegante, entrei na Igreja Católica já perto das seis horas. A missa, marcada para as cinco, já havia terminado mas lá se encontrava ainda o P. Paulo de breviário na mão e duas religiosas a fazer a via-sacra.

Quando me apercebi que o P. Paulo havia terminado a sua oração, fomos um ao encontro do outro. A minha presença já não era estranha. Já nos havíamos encontrado, por breves momentos, dois dias antes. Prometera, então, ali voltar. Feitas as saudações iniciais, entreguei-lhe uma carta de apresentação do Bispo da Guarda, a terra de Francisco de Pina, acrescentei eu. A carta estava escrita em francês. Creio que não chegou a entender bem a mensagem da carta e perguntou-me se poderia esperar cinco ou dez minutos, o tempo suficiente para o seu professor de francês se poder deslocar ali para servir de intérprete. Permaneci na Igreja. As religiosas continuavam a sua via-sacra.

Não teriam passado mais de cinco minutos e sou surpreendido pelo P. Paulo, a apresentar-me já o professor de francês e a convidar-me para os acompanhar à residência paroquial. Agradeci. A conversa a três terá durado cerca de trinta minutos. O suficiente para o simpático professor se inteirar dos meus objectivos e prontificar-se a levar-me de motorizada a Phuoc Kieu, a antiga Cacham onde residia, na altura da morte, o jesuíta Francisco de Pina, que, ido da cidade da Guarda, chegara à Cochinchina havia 400 anos.

Eu desejava só algumas informações que me servissem de apoio a uma deslocação de táxi, ainda nesse mesmo dia, àquela localidade que não constava nos roteiros turísticos. A proposta do simpático professor surpreendeu-me em absoluto. Mesmo já tendo presenciado aquele arrepiante movimento de motorizadas nas ruas das cidades vietnamitas, aceitei, sem a menor dúvida. Aliás, aquele movimento arrepiante já vinha dando lugar, no meu espírito, a uma enorme admiração pela perícia daqueles condutores vietnamitas que transportavam nas suas motorizadas a família inteira e ainda notável bagagem.

Às oito partiríamos dali mesmo. Faltava uma hora. O suficiente para ir ao hotel, tomar o pequeno-almoço e avisar a família que ia a Cacham com o Pároco local. Não me atrevi a dizer que iria à boleia numa mota. Havia de ser pontual. Os poucos dias que já tinha de Vietname eram suficientes para saber como os vietnamitas eram de uma pontualidade matemática. E aqui a pontualidade tinha de corresponder a tão grande e inesperada amabilidade.

Quando às oito horas menos cinco minutos transpus de novo o portão do complexo paroquial, logo o simpático professor, com um enorme sorriso, me fez sinal, ao longe, com um capacete na mão. Foi montar e arrancar. Atrás, numa outra mota, vinha o P. Paulo com outro vietnamita.

Nunca esquecerei esta pequena viagem. Primeiro, perdido naquele enxame de motorizadas nas ruas da cidade! Depois, a tranquilidade da viela de terra batida entre os arrozais! Nunca eu, ido da cidade da Guarda, poderia ter imaginado que o meu baptismo de moto fosse no Vietname a caminho de Cacham à procura de outro homem da Guarda que, há quatrocentos anos, ali chegara e ali falecera em trágico naufrágio.

Quando aquelas duas motorizadas entraram no santuário de Cacham, fui surpreendido por um conjunto de cristãos vietnamitas que preparavam aquele espaço para as festas do Beato André, o protomártir vietnamita, que se iriam realizar dali a dois dias. Mas a surpresa foi recíproca. Aqueles homens bem surpreendidos ficaram também com a companhia com que chegava o seu pároco. Os sorrisos diziam tudo. Notei que os meus amigos informaram os trabalhadores de quem se tratava e dirigiram-se a mim. Foi um cumprimento feito de sorrisos, de apertos de mão e inclinações de cabeças. Sem palavras, estavam dadas as boas-vindas naquela terra tão amada do nosso Francisco de Pina, onde ele ensinara anamita (língua local) aos confrades chegados de Lisboa.

Entrei na Igreja, onde era também notória a azáfama de outros vietnamitas. Ao fundo, lá estava a imagem do jovem André, beatificado por João Paulo II em 2000 e logo proposto como um dos protectores da jornada mundial da juventude. Há momentos em que a oração, por mais individual que seja, é bem universal. Este foi um desses momentos.

Numa próxima crónica vamos descobrir Francisco de Pina, no passado e no presente que aguarda o futuro.

Guarda, 9 de Maio de 2014