DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


As mais antigas manifestações do teatro português estão relacionadas com a representação de temas bíblicos e religiosos, mas também com os entremeses1 burlescos que assinalavam as datas festivas comemoradas na época.
No século XVI, surgiu um movimento literário, provocado pelo gosto pelo teatro, cuja figura maior seria Gil Vicente. Este autor seria, mais tarde, designado como o fundador do teatro português, o que nem sempre é sustentado pelos vários estudiosos da sua obra.
Durante todo o século XVII as populações sentiram-se atraídas pelo teatro, de tal modo que o primeiro pátio de comédias já funcionava em 1588. Esta designação permite antever a existência, em período anterior, de um teatro de rua, que estaria localizado em pátios ou locais que não teriam muito movimento. Este costume permitiria a montagem e permanência de estruturas de modo, mais ou menos, fixo.
Muitas das peças representadas eram de origem popular, embora apenas uma parte tenha chegado até nós por ter sido impressa em pequenos folhetos colocados à venda em estendais formados por cordéis. Esta seria, aliás, a origem da chamada “literatura de cordel”2. De caráter genuinamente popular, este género teatral concorria diretamente com o teatro literário de inspiração clássica, que normalmente era representado nos meios eruditos, como a universidade.
No século XVI português, António Prestes3, um dos mais célebres comediógrafos, fez numa das suas peças o contraste entre o teatro popular, destinado a enfrentar o público e sujeito à prova do aplauso de rua, e o teatro erudito, que não costumava ter público nem fazia rir. Não é de espantar que a forma que triunfou em Portugal tenha sido o teatro popular, primeiro sob a forma de teatro de comédia, que incluiu o teatro de marionetas, por exemplo com as peças de António José da silva, O Judeu4, entre outros autores nacionais.
No século XVIII, o teatro de rua sofreu um sério revés devido à expansão do teatro francês clássico e, em especial, de espetáculos musicais como a ópera. Nesta época, o Marquês de Pombal tentou aproveitar o teatro com objetivos políticos ao destinar os palcos para servirem de escolas “onde os povos aprendam as máximas sãs da política, da moral, do amor da Pátria, do valor, do zelo e da fidelidade com que devem servir a seus soberanos.”
William Beckford (1760 – 1844), aristocrata inglês, romancista, crítico de arte, escritor de viagens e político, viajou por Portugal tendo deixado escrito um livro, intitulado “Diário de William Beckford”, contendo as memórias do nosso país.
Eis como este escritor descreve um espetáculo teatral que presenciou em Lisboa:
“Depois do chá, fomos ao teatro da Rua dos Condes, um edifício mais tolerável que o do Salitre, mas ainda assim bastante pobre, para falar com franqueza. Fiquei surpreendido com o cenário, que era realmente bom, e com os trajes que eram, na verdade, esplêndidos e muito bem imaginados. Os actores também não eram tão abomináveis como os da outra casa de espectáculos. A peça era uma tradução de Mérope, de Voltaire. Depois havia bailado e uma farsa.”

1 O entremês é uma peça teatral dramática divertida e representada apenas num ato. Por ter características populares as personagens retratavam essas classes. Pode também equivaler à farsa. O espetáculo destinava-se ao entretenimento, mas também era uma forma de crítica à sociedade de época. Este género teatral atingiu o apogeu nos séculos XVI e XVII e obteve uma grande popularidade. Foi substituído pelo sainete, de caráter mais intenso e menos lírico, que possuía diálogos mais desenvolvidos e com menos números cantados.

2 A “literatura de cordel” é um género literário popular escrito, normalmente escrito em rima. Tem origem na tradição oral, sendo impresso em folhetos ou pequenos livros.

3 António Prestes foi um autor dramático português, que nasceu em Torres Vedras no séc. XVI. Exerceu magistratura em Santarém, e em Lisboa, a partir de 1565, cidade onde viria a falecer. Exerceu cultura clássica traduzida nos seus autos de teatro. Insere-se na linha do auto tradicional no teatro, de estrutura medieval, criado por Gil Vicente. As suas peças contêm críticas à sociedade burguesa da época.

4 António José da Silva, O Judeu (1705 – 1739), constitui um caso singular na história do teatro português. Fundador da ópera nacional e mártir da Inquisição, considera-se que sem ele teriam decorrido trezentos anos da nossa história teatral, entre Gil Vicente e Almeida Garrett, sem dramaturgos com obra digna de relevo. Viveu num particular período político-social, de opulência real, mas de miséria de uma sociedade desestruturada do ponto de vista social e economicamente degradada. A Inquisição atuava impiedosamente sobre a heresia religiosa, perseguindo nomeadamente judeus e cristãos-novos, como era o caso. Homem do Barroco, que vive em pleno o espírito dos tempos, aspirou a uma nova arte teatral, voltada para a volúpia dos sentidos, o que marcaria definitivamente o teatro português. É na forma e na estrutura dramática que se vê a sua inovação. Foi queimado vivo pela Inquisição numa altura em que já era o mais importante comediógrafo português.