Olhos nos olhos


Como a generalidade dos advogados, também ele patrocinara muitas acções de divórcio, quer por mútuo consentimento, quer divórcios litigiosos. Confessava, no entanto, que, em todas essas situações, tentara sempre, antes de tudo, como julgava que a generalidade dos advogados o fazem, evitar que o divórcio viesse a acontecer, por considerar que, em muitos casos, o divórcio, longe de ser uma solução, era uma fonte de novos problemas, e sobretudo, era fonte de grande sofrimento para os filhos, quando são crianças ou, mesmo, já adolescentes.
Referia, contudo, que a grande dificuldade desta tarefa apaziguadora residia no facto de, por regra, o cliente que procura o advogado, vir sozinho, sendo difícil, ou impossível mesmo, falar com a parte contrária, no caso de esta ter já, também, um advogado a patrociná-la. Que, mesmo nesta última hipótese, sempre falara com os colegas da parte contrária, no sentido de tudo fazerem, para evitar o divórcio, e ter encontrado sempre bom acolhimento dos colegas com quem contactara. E se, nalguns casos, a reconciliação conseguida fora duradoura, noutros, foi apenas um adiar o divórcio para momento posterior.
Foi dentro deste contexto, que, um dia, foi procurado por um cliente, que pedira a maior urgência em ser atendido. Uma vez recebido, narrou a sua situação de desavença familiar, contando que se zangara definitivamente com a mulher, que havia saído de casa, e se encontrava a viver num hotel.
Na sequência das anotações que ia tomando, ficou o advogado a saber que, daquele casamento, haviam nascido vários filhos, sendo os mais novos ainda pequenos.
Logo nessa primeira ocasião, abordara com o cliente a hipótese de reconciliação, hipótese que ele nem aceitava colocar.
Como a esposa do cliente não estava representada por qualquer colega, escrevera-lhe, contava ele, e pedira-lhe que comparecesse no seu escritório, o que ela fez.
Tiveram, então, os três, o cliente, a esposa e o advogado, alguns encontros pelo que, acabaram ambos por pedir que suspendesse o andamento do processo. Algum tempo mais tarde, procuraram o advogado para o informar de que se haviam reconciliado.

Passaram-se dois anos sem que o advogado tivesse tido qualquer notícia daquela família.
Um dia, porém, quando passava na rua, foi subitamente abordado pela mulher do seu ex cliente, que, ao vê-lo, se aproximou e, muito comovida, desabafara:
- Ai Senhor Doutor, que grande desgraça!
- O que aconteceu? - Perguntou o advogado.
- Há dois anos, o meu marido saiu de casa, foi ter com o Senhor Doutor, que lá nos juntou. Desta vez - continuou a senhora - o meu marido saiu de casa, procurou uma colega sua, uma advogada, e olhe, juntou-se com ela.