Histórias que a Vida conta

Ao bater da meia-noite de 31 de dezembro de cada ano, num cotovelo do Tempo, em todos os cantos do mundo, o Ano Velho despede-se e passa o testemunho ao Novo Ano. O momento é recebido com exuberância como se a felicidade estivesse mesmo ali à mão: ele são luzes e cantos, foguetes e fogos de artifício, risos e bolhinhas de champanhe. Na rua, conhecidos e desconhecidos abraçam-se e beijam-se. Mas este ano (escrevo ainda em 2020) não vai ser assim. Não vai haver ajuntamentos, nem abraços, nem beijos, nem público. Civicamente, neste ano de pandemia, as pessoas vão respeitar o confinamento. A grande maioria vai ficar por casa e, crentes ou não crentes, vão pedir um ano verdadeiramente novo, recordando sem pena o ano velho no muito que lhes roubou e no muito e grave que lhes deixou: uma peste global que aflige todos sem destrinça. O ano de 2020 ficará na História da Humanidade como um ano trágico, de muitas amarguras e luto de lágrimas contadas… Foi o triste ano da covid-19! No entanto, a parte final trouxe-nos alguns sinais de esperança. Elejo três. Acima de todos o desenvolvimento, certificação e distribuição de duas vacinas (da Pfizer e da Moderna) e o início, ainda que simbólico, no âmbito da União Europeia e, portanto, também em Portugal, do processo de vacinação. Ou seja, num ano virado do avesso, um lado direito prestigioso que, como salienta Ricardo Costa, fez de ”2020, o ano da pandemia, o “ano da ciência”. Em segundo lugar, a vitória eleitoral de Joe Biden, nos EUA, com a saída de cena, porventura parcial e não definitiva, de Donald Trump. Por fim, o êxito das conversações que permitiram um Brexit regulado e civilizado, com a aprovação de um acordo comercial entre a U.E. e o Reino Unido.Mas voltemos às vacinas e ao processo de vacinação. Assistiu-se à “mais espetacular e coordenada resposta científica da história, feita em várias frentes e com pelo menos duas vacinas assentes numa tecnologia que pode mudar a medicina para sempre” (EXPRESSO, 24 de dezembro, 1º caderno, última página). Jamais, em tão pouco tempo, tantos cientistas, tantas instituições, tantos voluntários e tantas pessoas, de várias nacionalidades, se congregaram na busca e descoberta de uma solução para o mal que paralisou o Mundo e chagou a Humanidade.Esta cooperação pelo bem “não é outra coisa senão o «verdadeiro amor, que nos torna fecundos e livres». Este é «expansivo e inclusivo; cuida, cura e faz bem», como disse o Papa Francisco na última Páscoa, ao afirmar que podemos «sair melhor da pandemia, se buscarmos o bem comum». Henrique Monteiro escreveu no último número do EXPRESSO que “nestas épocas o radicalismo floresce e o deslassar das sociedades acelera; as desigualdades tornam-se obscenas e insuportáveis; os moderados são escorraçados e escarnecidos. Como se nada se houvesse passado, voltam a adorar o «bezerro de ouro», como os judeus comandados por Moisés no deserto, mal este virava costas”. Talvez esta seja a natureza humana mais profunda que transporta em força o regresso do tribalismo. Mas talvez também haja desta vez um “suave milagre” que a redima.A chegada da vacina é um sinal claro de esperança. Foi mesmo a melhor prenda de Natal que podíamos desejar. Mas o processo de vacinação levanta inquietações. Fiados, como sempre, na boa sorte e no nosso génio bom para o improviso, deixamos tudo um pouco “ao Deus dará” e descuidamos olimpicamente a organização (a verdadeira, pensada, experimentada e vigiada!). O processo de vacinação contra a gripe sazonal foi o que se viu! – um marco lamentável de amadorismo, incompetência e promessas incumpridas. E a par de tudo isso, a propaganda política esteve sempre presente. Temo – e já aqui o disse – que agora, na vacinação contra a Covid-19 se possam repetir os erros passados. E, infelizmente, já houve sinais de que isso poderia acontecer. O primeiro dia de vacinação de alguns poucos elementos de cuidados médicos foi acompanhado em permanência pela Ministra da Saúde com uma corte numerosa de acompanhantes para figuração nas imagens fotográficas. Que bela oportunidade – claramente política – para aparecer, tal Rainha Santa distribuindo, em vez de simples rosas, vacinas salvadoras!  E, cúmulo dos cúmulos, a PSP e a GNR envolveram-se, em Évora, numa “guerra de comadres” de um provincianismo inconcebível. As doses nem sempre estão a chegar no tempo e na quantidade previstos. Seria prudente, até para defesa das próprias, que as autoridades de saúde fossem discretas nas previsões e cuidadosas na criação de expetativas. Países como a Alemanha estão a preparar-se de forma muito mais eficaz. E a notícia, publicada no EXPRESSO de 24 de dezembro, dando conta da insatisfação do setor privado da Saúde por estar a ser colocado à margem do processo é mais um exemplo de que algo continua a estar mal resolvido no combate à pandemia.Aliás, o médico responsável pela task force para atender à pandemia, o dr. Francisco Ramos, em entrevista recente, revelou estar pouco informado e mal preparado em aspetos relevantes. Os mais velhos continuam a ser discriminados negativamente neste “país de velhos”. Como se já não bastasse o cortejo impressionante de fatalidades entre utentes de lares de idosos, no planeamento do processo de vacinação (ao contrário do que acontece em outros países com maior experiência do que nós no planeamento e na logística) os mais idosos residentes em casa são deixados para uma segunda fase, apesar de se saber que também eles estão entre os mais expostos ao risco de não resistirem à infeção. Quem não se lembra daquela infelicíssima declaração de que “este era um vírus bonzinho que só mata velhos” (cita Miguel Sousa Tavares, in EXPRESSO cit. pág. 11). “Tenho medo de transmitir covid aos meus velhos nesta lareira, mas tenho ainda mais medo de os abandonar numa lareira por acender”. Frase dolorida de Henrique Raposo (também no EXPRESSO) que nos alerta para “a solidão que mata os velhos”. Cheira de longe a oportunismo e propaganda a mensagem recebida por SMS nos nossos telemóveis avisando-nos de que voltaríamos a ser contactados com a marcação da data e local da “nossa” vacina. Se não for no dia de S. Nunca à tarde palpita-me que será seguramente o cabo dos trabalhos para se obter uma informação decente. Receio que então se repitam as cenas lamentáveis de que todos temos conhecimento, com filas de espera à chuva e ao frio às portas dos centros de saúde (incontactáveis pelo telefone) para, chegados finalmente a um balcão, nos informem de que não é naquele dia, ou não é para aquele grupo, ou que o dia das marcações foi na véspera ou que, muito simplesmente a vacina…esgotou! Deus permita que não seja assim ou que, se assim for, este vírus tão irrequieto, se canse ele próprio, e…desista.Lisboa, 30 de dezembro de 2020