Oiço e leio que o programa do Governo hoje em discussão na Assembleia da República inclui a criação do provedor do animal.

Confesso a minha ignorância sobre as razões que motivam tal medida: se razões de táctica política se razões de uma qualquer filosofia animalista, daquelas que andam no ar dos tempos. Sou também ignorante sobre a importância de tal medida e não gasto a imaginação a pensar nas consequências práticas que ela possa trazer para a vida dos animais. Melhor dito: para a nossa vida colectiva. Mas assalta-me uma dúvida existencial. É que ao conhecer as condições de vida de muitos animais domésticos que se vêm cruzando desde há tempos no meu caminho, fico sem saber se no futuro devo apresentar queixa ao provedor do animal ou ao provedor dos humanos cidadãos.
Nasci e cresci numa aldeia a ver animais nascer, crescer, viver e morrer, de acordo com a lei da vida animal e da sã convivência com os humanos. Cresci a conviver com animais vários que existiam na casa dos meus pais, na casa de vizinhos ou, em geral, nas ruas da minha aldeia. Sempre gostei – e gosto - de animais e bem me lembro em como o cão e os gatos nos faziam companhia à lareira dos Invernos gelados. No tempo da minha infância, o campo estava cheio de animais, com predomínio da variedade de aves. E bem gostava de as observar e seguir o seu canto, mesmo que fosse a música lúgubre da coruja na noite que, segundo alguns, augurava maus presságios.
Sempre fui ensinado a tratar bem os animais, mas sempre fui educado a guardar as distâncias morais entre o homem e os animais, por maior que fosse a estima que por eles pudéssemos ter. O humano é humano; o animal é animal. E, em filosofia simples e espontânea, apontavam-se as diferenças entre uns e outros, particularmente quando se salientava a “amizade” e “fidelidade”.
Há tempos, em plena sala de espera de clínica veterinária, onde também me encontrava com o meu cão, um cavalheiro, já de idade avançada, estava com a filha e a neta – assim me pareceu – a aguardar a vez para a consulta do seu animal. Era um cão. Bonito, sem dúvida e bem comportado, e ali se encontrava aninhado em paz ao lado dos donos. Entre os presentes, a conversa não era muita e aquele cavalheiro, com bonomia notável, saiu-se com esta que fez sorrir as paredes da pequena sala:
- Antigamente, cão que não se chamasse “farrusco”, “leão” ou “piloto” e não tivesse uns bichinhos no pêlo, não era cão nem era nada. Agora anda por aí muita gente que trata os cães e os gatos com maior cuidado do que cuidam das pessoas. Até nome de gente dão aos cães. Uma vergonha! – Concluía ele, com ar de maior seriedade.
Não concordaremos com os «bichinhos no pêlo», mas não deixaremos de concordar com ele no que respeita ao nome e outros cuidados. Ainda não nos habituámos, e não sei se nos iremos habituar, ao nome «Matias» com que uns donos, que frequentemente se cruzam connosco, chamam o seu cão. Ou aquele que deu o nome de «Martinho» ao pequenino animal, cão de luxo, bonitinho também, que o dono traz ao colo como se fosse um filho de meses. Com nomes como estes e outros semelhantes, no futuro ficarei sem saber se devo apresentar queixa ao Provedor da Justiça do cidadão humano ou ao provedor do animal, mesmo não me chamando eu nem «Matias» nem «Martinho».
Há uns meses, em Lisboa, cruzámo-nos com duas senhoras em amena conversa. Cada uma se fazia acompanhar de um carrinho de bebé. Olhámos, então, julgando encontrar em cada um o encanto de bebés. Mas um dos carrinhos transportava um bem acomodado cãozinho. Tivemos que nos dominar para não levantarmos em protesto a nossa voz. E de novo a dúvida existencial: o que é mais necessário e importante? Um provedor do animal ou um provedor dos humanos bebés, dos humanos cidadãos acabados de nascer?
E que dizer daquela senhora que enviou um postal de boas festas a uma amiga em seu nome e em nome da filha? A destinatária, que não conhecia qualquer filho à amiga, veio depois a saber que a «filha» era a cadela que lá tinha em casa. Aqui a pergunta poderá ser ainda mais radical: o que é mais importante, um provedor do animal ou um provedor da família?
Bem, já bastará de exemplos que nos confundem. Os leitores conhecerão exemplos semelhantes.
E regresso à minha declaração de interesses. Gosto de animais e não deixarei de lembrar cães que ficaram célebres em situações várias e até na vida de santos, como foi o caso de São Bernardo e seus monges que, no mosteiro dos Alpes, se serviram de uma raça específica de cães para salvarem vidas em dificuldade na aspereza das montanhas e, por isso, essa raça ficou conhecida como «cães de São Bernardo». Ou como é o caso do cão de São João Bosco que, segundo a tradição, se lhe constituía como uma espécie de “anjo da Guarda” que lhe aparecia nos momentos de dificuldade. Não esquecerei também a riqueza simbólica de muitos animais na nossa e outras culturas. Nem mesmo esquecerei o lugar central que os animais ocupam na visão do profeta Ezequiel. Lembrarei mesmo que, de inspiração apocalíptica, os Evangelistas são simbolizados por animais.
Mas isso não impede que me deixe encantar com a ideologia do “politicamente correcto” de um qualquer animalismo, matizado ou mais radical. A diferença entre o homem e o animal não é uma diferença acidental ou de grau. Há uma diferença substantiva, de nível ontológico, entre o ser homem e o ser animal. O ser humano é humano, o animal é animal. Poderemos ter dificuldade em expressar, com clareza e distinção, essa diferença substantiva entre um e outro, mas uma profunda intuição da nossa inteligência racional não deixará de negar qualquer redução do homem ao animal ou do animal ao homem, como querem alguns, tão esquecidos que andam da humanidade substantiva do Homem. Por isso os direitos humanos têm uma especificidade de ordem superior e os chamados «direitos dos animais» são substantivamente diferentes daqueles, embora constitua parte integrante da humanidade do Homem obrigar-se a tratar bem os animais e a lutar contra quaisquer maus-tratos.
No mundo jornalístico, diz-se que não é notícia o facto de um cão morder um homem, mas já será notícia se um homem morder um cão. Nestes dias subverteram-se os critérios. Com este programa de Governo «O cão mordeu o homem» tem feito notícia.
Guarda, 31 de Outubro de 2019