DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


Alexandre Herculano (1810-1877), uma das figuras ilustres do século XIX português, é considerado o pai da historiografia portuguesa, para além de ter sido autor de poemas e romances que o transformaram numa figura fundamental do romantismo. Colaborou e fundou várias revistas e jornais de âmbito cultural e noticioso. Com o regime liberal do século XIX assumiu a gestão de diversas bibliotecas.
Membro e dirigente da Academia Real das Ciências publicou a sua obra mais conhecida, a “História de Portugal”, ainda hoje uma obra de referência.
Em 1839, foi nomeado bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda, entregando-se a um sistemático trabalho de pesquisa histórica.
Encarregado pela Academia Real das Ciências de recolher documentos antigos para a coletânea “Portugaliae Monumenta Historica” percorreu várias regiões do país, incluindo a região da Guarda. Dessas viagens nasceu a obra “Cenas de um Ano da Minha Vida e Apontamentos de Viagem (1853-1854)”.
Desse livro, transcrevemos aqui um excerto da sua viagem à Guarda:

Agosto 2. – Partida às 2 da noite. Uma viagem de noite por caminhos péssimos: o cavalo branco mosqueado: a memória das localidades incrível : João Mendes: este moço seria o melhor chefe numa guerra guerreada. A figura dele ao romper a manhã – a de um puritano do tempo de Cromwel – Despedida – Insignificância da paisagem da Guarita a Viseu. Chegámos às 10 da manhã. Francisco Mendes: cópia física e moral do João. O moço Barros: fisionomia profundamente inteligente. Os elegantes da província iguais na elegância aos de Lisboa, superiores nas formas que indicam a força sem danar à delicadeza. Discussão viva ao jantar acerca da corrupção atual e da desesperança política. Passeio de tarde além do riacho que passa junto à cidade. Visita à Cava do Viriato. É um acampamento romano como o de Condeixa Velha? Era um octógono regular, a que faltam já todos os lanços de nascente. Existe ainda em parte o fosso deixado pela terra com que se formou o cômoro: nalgumas partes mais bem conservadas o plano sobre o cômoro tem acompanhado pelo lado do sul a Serra d’Águas-Boas: além do rio levantam-se serranias de fraguedo calvo, em cujos contrafortes para o rio fica o sítio de Coruche onde se deu a batalha em 1826. No fim da chapada de Águas-Boas desce-se para as origens do Vouga, que sucessivamente se passam em dois vales estreitos e depois subindo para a Lapa encontra-se a principal que é a fonte pública do lugarejo da Lapa. A Senhora da Lapa: a igreja: a passagem entre rochas na capela-mor: lenda do grande lagarto, e pintura ridícula do milagre: os Jesuítas não podendo tornar férteis aquelas rochas fizeram-nas produzir milagres: descida áspera e inculta da Lapa para o Grajal – uma légua – Riqueza e formosura do Vale do Grajal sobre o Távora; passagem do rio a vau: medíocre a porção de águas.
Subida para Sernancelhe a meia légua do Grajal: castelo quase demolido: povoação decadente: portal da igreja Século XII – seis estátuas da mesma época de 3 a 4 palmos, metidas em dois nichos, um de cada lado com três estátuas na altura de dez ou doze palmos. Chamam-lhe os economos. Representam seis clérigos em diversas atitudes: os cabelos à Saint-Simoniana: sobrepelizes e livros nas mãos. Representam evidentemente os beneficiados da colegiada que havia aqui. A igreja era de Malta. Caminho de Sernancelhe até à Prova (légua e meia). Paisagem insignificante e geralmente inculta: passamos a Teja ao luar de noite pelos estevais. Chegada à Prova: quiproquo: temo-a pela aldeia de Cancelos. Dormida em casa do médico Lacerda.

Agosto 23 a 26. – Guarda, povoação insignificante como cidade: muralhas meio demolidas: apenas duas torres na cerca e uma que parece ser a de menagem e no sítio onde devia ser a Alcáçova: a fortificação parece dos fins do século XIV ou princípios do XV séc. A Sé: estado do arquivo da Sé. O edifício da época joanina: semelhança das linhas arquitetónicas interiores com as da Batalha: necessidade de demolir as obras exteriores modernas e estúpidas para reduzir este monumento, a mais bela igreja da Beira, ao desenho primitivo.
Os guardas do tabaco: parecem uma quadrilha de ladrões: violências deles contra o povo e do povo contra eles. O clima da Guarda: o dia 24 de Agosto semelhante a um dia sereno de Fevereiro. Espetáculo no dia 25 de uma trovoada medonha correndo ao longo do Cima-Coa. Ventania e frio na tarde de 26. Aridez e pedregoso por todos os lados da cidade: ao baixo vales férteis.