A memória das palavras


Em Sophia há uma escrita realizada em plenitude esclarecida. Construída com base no valor das palavras e nos valores de uma sociedade em transformação paulatina e orientada pela ideologia do, tristemente célebre, estado novo. As suas palavras, quer nos poemas, quer noutros géneros de escrita são sempre conscientes e didácticas. A par da revelação de um mundo injusto, percorre os lamentos, litânicos algumas vezes, de uma religião adulterada e adulteradora (Porque os outros se mascaram mas tu não).
Os temas recorrentes perpassam quase sempre pelos mesmos tópicos: a Grécia, o sol, o mar, o branco e o azul. Cinco palavras-paixão para a escritora. A Grécia, mais espaço cultural que físico, foi uma das atrações primordiais tantas vezes percorrida, tantas vezes bebida. Sintam-se os poemas de “Geografia” e “ Navegações” e ficamos imersos na paixão pela clareza da antiguidade e dos espaços de eleição: Creta, Delfos, Atenas, Cnossos. Berços exemplares de uma civilização feita de harmonia, isto é, tentativas de harmonia do ser humano com os deuses. O fogo que esclareceu a civilização europeia até aos nossos dias.
Depois paralelamente com a Grécia, o sol. Também ele claro, brilhante, iluminador. Elemento necessário à capacidade de transformar, de criar. Ou de destruir? Não me parece que seja neste sentido, nem vejo onde, na obra de Sophia, possamos ver esta componente simbólica. Mas o sol, sempre o sol, condição essencial ao acto poético, à claridade das palavras. A transfiguração de uma realidade baça e cinza. A denúncia de dias cinzentos, negros e tristes.
Necessário à sua respiração poética vem inexoravelmente o mar. Poseidon revisitado constantemente. Força centrípeta na sua escrita, força revigoradora e calmante. O mar da praia da Granja, o mar de Lagos e Cacela, o mar Egeu – mãe criadora. O mar difusor de cultura forjador da diáspora homérica. O mar espelhado. O mar re-ligador original. O mar a quem nunca se poderá fugir, nem se quer fugir. O mar, o mar, o MAR.
E as cores: branco e azul. Branco da cal. Branco do horizonte. Branco da espuma. Branco da cultura. Branco dos ideais. Branco do olhar. Branco do fumo. Branco das casas. Branco das palavras. E azul do mar, claro. Azul do céu. Azul das ideias. Azul transparente. Azul diáfano. Azul de coral. Azul de humanidade.
Uma nota final: a RTP1 passou há dias um filme de Manuel Mozos sobre Sophia que não se deve deixar de ver. Recuperou muitos documentos em que a poeta aparece quer a falar sobre poesia, quer a recitá-la. A poeta aparece íntegra, sem adaptações, sem modificações. Nas palavras de que tanto gostava, mas que lhe causavam arrepios e com que não tinha medo de encarar a vida. Ou como escreveu a jornalista Joana Emídio Marques: ““Um dia mortos e gastos voltaremos a ser livres como os animais”, diz-nos o poema que ela recita com uma entoação que nos causa estranheza porque é declamatória. Mas é também um prodígio da articulação limpa das palavras, das sílabas. Como se Sophia quisesse chegar à mais ínfima tonalidade dos fonemas. Cada palavra é gerada para ser dita e é nessa música efémera das palavras faladas e não escritas que se engendra a poesia. Manuel Mozos rasgou nestes dias uma janela para Sophia respirar de novo, ela que um dia escreveu: “Ressurgiremos onde as palavras são o nome das coisas”.” (Observador, 26.10.2019)