O famigerado Covid-19 alterou em muito os fluxos turísticos.

As zonas mais cosmopolitas de muitos países, que nos períodos tradicionais de férias têm lotadas as estâncias, estão a acusar a situação, enquanto outras, tradicionalmente mais esquecidas e menos preferidas, procedem a oportunas campanhas de visibilidade e ofertas turísticas diversificadas alternativas. A Guarda parece querer também não perder a oportunidade. Os meios de comunicação social já se fizeram eco de uma campanha promovida pela Câmara Municipal anunciada em finais de Maio enquanto aparecia em vários locais o outdoor – bem conseguido, aliás - anunciador da boa nova: «Agora já é tempo para visitar a Guarda e desfrutar da cidade».O objecto da campanha é todo o concelho - o seu território e a sua sede, a Guarda cidade - com o objectivo de «contribuir, neste período de desconfinamento, para a captação de novos fluxos turísticos» e ainda «alavancar a recuperação da economia local.» Assim se lê num comunicado camarário. E mais diz o comunicado. Em «Período de desconfinamento», «é chegada a hora de apelar a que todos voltem, aos poucos, a desfrutar do nosso concelho». É um apelo dirigido a todos, para que «todos voltem» a «desfrutar», agora, a formosura da cidade, a Guarda e seus encantos. Porque «Agora já é tempo!» O apelo é para que «todos voltem». Todos, eu também, desconfinado que sou. Sendo embora de cá e correspondendo ao apelo municipal, decidi-me a visitar a cidade, a Guarda dos 5 F’s, aquela que também dizem “formosa”. Passeei-a com os olhos de quem aqui chega pela primeira vez à descoberta dos encantos da sua formosura com que ela se veste, assim se diz. Comecei pelo centro centrinho. Era ali, pensava eu, que palpitaria o coração da cidade. E eu queria sentir-lhe o coração. E senti o coração de um Rei. Eu conto.Entrei pela Porta da Erva, conhecida por Porta do Sol e Porta da Estrela, percorri a Rua Rui de Pina, cronista, e embrenhei-me, ao sabor do vento e com sentimentos contraditórios, pelas ruelas estreitas do antigo burgo, onde me cheguei a desorientar. Guiado por S. Vicente, encontrei a rua que me conduziu, direitinho, à praça maior e mais nobre da cidade.O Fundador da Guarda lá estava, ao cimo, a lembrar outros agora de outrora, quando o tempo era sonho de povoamento a pensar no futuro. Contemplando a majestosa catedral, aproximei-me. No seu trono de granito beirão, o Rei pareceu-me pouco à vontade, tristonho e não sei se mesmo um tanto envergonhado. É que agora… Agora o tempo despovoou a sua Beira e parece ter parado na sua cidade onde há quem acredite que tenha perdido muito da sua formosura. A catedral lá está, não a dele, é certo, com duas torres de fortaleza, mas já cansadas de olhar tristemente para uma casa em ruínas, ironicamente entaipada por um cartaz de promoção turística. A praça, a que foi dado o nome do poeta de «Os Lusíadas» e a que muitos chamam “Praça Velha” e “Sala de Visitas” da cidade, também lá está, mas guardada, assim parece, por bichos sem nome a viverem em imóveis abandonados, dolentes, feridos por uma guerra qualquer. Nem as mui formosas petúnias vermelhas dos canteiros colocados no imenso lajedo conseguem que o visitante desvie o olhar daquelas ruínas de feitiço de janelas entaipadas com figuras negras!Voltei a olhar para o Rei, D. Sancho I. Por momentos cruzaram-se os nossos olhos, e logo o vi, misterioso, a olhar para o canto esquerdo da praça – aliás todo ele, desde o trono, se encontra virado para a esquerda - e com a espada em posição de descanso a acompanhar o braço, esquerdo também. Tinha deixado de lutar. E os seus olhos pareciam querer esquecer a rua de seu nome e fugir a contemplar o estado em que se encontra o Centro Histórico do seu burgo por onde há séculos se passeara a sonhar com a Ribeirinha. E evocou seu pai, o primeiro dos reis e primeiro Afonso que, em Guimarães, escudado pelo imponente Castelo, olha em frente, com orgulho, para o Centro Histórico da cidade, tão excepcionalmente bem recuperado, conservado, limpo e cheio de vida que tem a glória de pertencer ao Património Mundial da Humanidade desde 2001 e valeu à cidade, em 2012, a honra de Capital Europeia da Cultura. Qual servo fiel, tentei consolar o Rei mas respondeu-me com enigmático silêncio.E foi a pensar na candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 que deixei a praça pela Rua da Torre. A Torre dos Ferreiros, já de rosto lavado, encontrava-se em obras – foi-me dito, em segredo, que têm a protecção de Santa Engrácia – mas observei, com agrado, a sua imponência e anotei a montagem de uma estrutura metálica. Dizem-me que é para a instalação de um elevador que irá possibilitar uma visita à Guarda lá do alto. Impedido de subir, desci na direcção do Jardim José de Lemos e, de passagem, demorei-me um tempinho a observar o mau estado em que se encontra um painel de Frei Pedro da Guarda, que foi para Ilha da Madeira onde é venerado como “santo” e aqui assim tratado. Contrastes!... Abanei a cabeça de admiração triste!E cheguei ao jardim que logo reconheci como se já ali estivera antes. Era, sem dúvida, o jardim do outdoor que me havia trazido à cidade. Notei, com satisfação, que se encontrava relativamente bem cuidado, embora me parecesse que nos canteiros a erva se encontrava a medrar com maior viço do que as singelas plantas floridas. Menos mal. Assim pudessem estar, ali ao lado, os espaços abandonados ao mundo de plantas selvagens, altas e rasteiras, secas e verdes à mistura, defronte de uma fiada de edifícios que até possuem alguma dignidade arquitectónica e mereciam jardins tratados a condizer.Sentei-me numa esplanada. Com cortesia, foi-me servido um café e uma água fresca. Enquanto o saboreava, olhei em frente na direcção de um sóbrio edifício feito da cor da terra, o granito beirão. Informaram-me ser o edifício do antigo Hotel de Turismo, outrora referência na cidade e até na região. Outrora, não agora, porque agora ali está abandonado, já sem esperança, talvez, de regressar à vida, onde já nem uns taipais, pretensamente a anunciar o futuro, parecem resistir à tempestade que sobre ele se abatera.Apesar do calor, ainda me atrevi a percorrer mais algumas artérias da cidade. Aqui e ali, tantos aqui e ali, passeios com buracos, paralelepípedos arrancados e espalhados à espera que neles tropece alguém mais distraído. Aqui e ali, tantos aqui e ali, vai medrando erva, ou medrou, porque com o calor já foi secando, mas ali se encontrava ainda a retractar a vida descuidada de uma cidade Tudo a fazer jus a casas abandonadas ou em ruínas, para venda ou não, em qualquer rua, em qualquer espaço! Pobre cidade!Poderá haver, e é sabido que há, muitas virtualidades turísticas mais ou menos à espera de serem descobertas, mas a imagem que a Guarda oferece aos olhos de quem chega, agora, não é de grande formosura, mas de abandono e desleixo. Assim pensei eu, turista de ocasião no centro desta cidade sanchina.Acabei a visita lamentando não ter podido subir à Torre dos Ferreiros. Lá do alto, lá de onde os edifícios arruinados, os buracos e a erva desaparecem, lá do alto, talvez os telhados, no fulgor do sol nascente, escondam as misérias e os visitantes possam ver a outra cidade, aquela por que clama a campanha de promoção turística.Regressei à “Praça Velha”. D. Sancho I lá se encontrava no seu trono de granito. Até parecia aguardar o meu regresso! Encontrei-o de semblante mudado e a tristeza de há momentos dera lugar à sobriedade de um mestre e conselheiro. “Povoador” da Beira e do Reino, pareceu-me ouvi-lo dizer, solene e zelosamente, como professor que dita um trabalho de casa para os seus alunos: - «Agora já é tempo» de cuidarem do rosto da minha Guarda que eu, com amor, fundei a cantar.Guarda, 8 de Julho de 2020