Na última vez que estive na minha terra natal – Vale de Espinho —, deu-me pena de já não ter encontrado o habitante mais velho da nossa aldeia,

que era o que nós designávamos Almo. Ao dirigir-me à Praça Maior, onde se encontram o chafariz, a escola, o Lar de São José, os pastorinhos de Fátima, a estátua do emigrante, o Café do Tó Coixo, o Café do Freu Raposas, a Casa do Povo,  os castanheiros seculares, os jardins públicos, o campo de jogos, notei que faltava a alma daquela grande praça — o nosso Almo. É nesta excelente praça — e talvez não se encontre outra mais bela no concelho e arredores —, que se encontra a alma da aldeia. Não me admira, pois, que os nossos antepassados tivessem colocado aquela eminente árvore naquele lugar. Ela era o Almo, o masculino de alma, porque todos sabiam que era ela que dava ânimo e alegria àquela grande praça. O Almo conhecia a vida de todos nós. Gerações de Valdespinhenses sentaram-se ao pé dele. Foi à sombra deste Almo que fomos crescendo e que vimos crescer a aldeia. Ali perto, sob a sua proteção, e ainda crianças, jogávamos à choina, ao pião, ao rilha, à chicalagorra, em frente de magotes de adultos, especados como estátuas ou sentados em parapeitos de granito, sempre em animadoras e intermináveis conversas. Toda a aldeia era passada a pente fino e bem escrutinada debaixo daquela árvore. É nós ouvíamo-las como barulho de fundo e tudo nos ficava na memória para compreensão futura. Eram conversas íntimas, sobre mortes, intrigas, infidelidades, roubos e tantas coisas que, em princípio, não podíamos ouvir. Alguns insurgiam-se até contra a nossa presença e enxotavam-nos para longe, a fim de conversarem à vontade.  O Almo das Eiras devia ter assistido ao despertar de todas as uniões e à fundação dos lares que se faziam e desfaziam na nossa aldeia. Era nos bailes, organizados periodicamente, que os olhares dos rapazes e das raparigas se cruzavam e se descruzavam, ao som das concertinas dos melhores tocadores da região. O Almo das Eiras conheceu os corridinhos do Chico dos Forcalhos, as modinhas do Lei Béra dos Foios, e vibrou ao som das canções do Ceguinho de Malcata e de tantos outros. Ele esperava com ansiedade os bailes do Entrudo e sobretudo os mais animados, na festa anual de S. João que duravam três dias.Para os habitantes da aldeia, este Almo teria existido sempre. Era como que eterno. Portou-se sempre às mil maravilhas e, no nosso imaginário, nunca poderia ter morrido. Era como as pessoas boas da nossa aldeia que, no tempo da fome, não nos deixaram morrer e que, no tempo do contrabando, não nos denunciaram à guarda-fiscal. Respeitou sempre a nossa maneira de viver, a nossa pobreza e o nosso viver remediado. Este Almo sarou os nossos males quando estávamos doentes e, tal como os nossos pais e amigos, acolheu-nos ao longo das nossas vidas. Após tantos anos de amizades, de cumplicidades, de bons momentos passados debaixo daquela frondosa árvore, o mais velho companheiro de todos os Valdespinhenses já não se encontra na Praça das Eiras da nossa aldeia.