Era uma vez um professor de Filosofia que pretendia analisar um pequeno texto argumentativo com alunos do ensino secundário.

Tristemente foi descobrindo que aqueles jovens mal sabiam ler e desconheciam, quase por completo, as bases mais simples da gramática da língua, esse CORação que vai dando sangue ao movimento das palavras.
Esse professor era eu, ou outros como eu, e eram muitas vezes aquele era uma vez das histórias infantis. Levando em conta que todos os professores deveriam ser professores de Português, também muitas vezes dei comigo a falar de nomes, pronomes e verbos, adjectivos, advérbios e preposições. Muitas vezes ainda, notei a admiração daqueles jovens quando me ouviam as adversativas – mas, porém, todavia, contudo -, ou outra qualquer das conjunções. E não acrescentarei mais nada aos diálogos que, muitas vezes, se seguiam.
A cada dia que passa, a idade faz-nos reCORdar os tempos da antiga escola de que se saía a saber de COR preposições, conjunções, nomes, pronomes e verbos, cujo sentido profundo nos ia muitas vezes escapando, mas que o tempo, conjugado com novas aprendizagens, nos ia paulatinamente desvendando. Foi assim que vim mais tarde a descobrir que saber de COR – era de COR que muito se aprendia -, mais do que um saber mecânico, era saber de CORação.
Do latim «COR, cordis» vem o nosso «CORação». Há palavras assim: fortes, densas, cintilantes. Entram suavemente no CORação do homem, expandem-se em metaforismos múltiplos e dão nome às suas realidades, inCORporando-as em horizontes de novas significações. Tão ricas e expressivas que explodem tanto no âmbito da língua como nas realidades da vida.
Hoje andam por aí muitos «CORações» espalhados por esse mundo, real e virtual. De órgão físico vital, o CORação passou a ser visto também como sede da alma, da inteligência e sensibilidade. Daí, em dinamismo próprio da pregnância simbólica de metáfora viva, o CORação é a parte mais íntima do ser, berço onde se embalam os afectos, os sentimentos, o ânimo e CORragem. E espalhou-se a outros centros. Falamos do CORação da família, como falamos do CORação da cidade; do CORação de um país como falamos do CORação do planeta.
Não sei qual a verdade mais acertada: se somos nós que criamos as palavras ou se são mais as palavras que nos criam a nós. Mas sei que não podemos viver sem CORação. Há palavras que esperam por nós para elas se manifestarem em toda a sua significância e esplendor. Como plantas do mais belo jardim, as palavras criam ramos, vão florindo e dando frutos que nos chegam à mesa do discurso.
Amparados ao cajado da língua e conforme o nosso CORação – de ouro, de pedra ou de chumbo, pequeno ou grande, de pomba ou de abutre - vamos construindo os nossos mundos, de CORações feitos. E vem-me ao CORação da memória – reCORdo - a voz da raposa para o Principezinho: «Só se vê bem com o CORação. O essencial é invisível para os olhos».
Aqui dizemos «mal que se ignora CORação que não chora», ou «olhos que não vêem são CORação que não sente»; ali uma «boca de mel e um CORação de fel» ou uma «cruz na boca e o diabo no CORação», mas também «vão os pés onde quer o CORação» ou então, como diz o evangelista, «onde está o vosso tesouro, aí está o vosso CORação».
Estamos prestes a encerrar o ano jubilar da miserCÓRrdia. De CORação a CORação eu me confesso. Nos velhos tempos da infância também aprendi a recitar de COR as catorze obras de miseriCÓRdia. Como aconteceu com as formas gramaticais, também não sabia que recitar de COR, em cantiga bem deCORada, não era saber de CORação. Isso só veio a acontecer quando comecei a entrar no “COR” do latim que tantos frutos deu à nossa língua, quer na proliferação de expressões idiomáticas, quer na variedade de aforismos populares. Atrás já ficam alguns.
As palavras portuguesas, filhas do “COR” latino são tantas, que elas enchem o nosso linguajar diário: usamo-las, gastamo-las, deformamo-las e esquecemos as raízes de onde lhes vem o sabor. E elas aí estão, em sono profundo à espera que sejam aCORdadas e manifestem o sentido. Sabendo que «o CORação tem razões que a razão desconhece», se formos CORdiais estaremos de aCORdo na leitura do aforismo latino: «ConCORdia parva res crescunt, disCORdia maxume dilabuntur» (= na conCÓRdia crescem as pequenas coisas; na disCÓRdia dissipam-se as maiores).
Acreditando que importa superar a frieza da razão com o sabor do CORação, haja a CORagem de sermos CORdatos (de coração dado) e, em conCÓRdia, não encerremos o ano da miseriCÓRdia. Infelizmente as misérias do mundo – também as de cada um de nós - não vão acabar e elas continuarão por aí a falar ao CORação de todos.
Seja o leitor miseriCORdioso comigo. Mais uma vez me socorro do latim, que, repito, está também no CORação da nossa língua. O “credere” (crer) latino deriva de “cor dare” (dar o coração). Assim sendo, o meu crer, a minha fé, que é também o meu CORação, é uma singular pertença da miseriCÓRdia do CORação de Deus. Quero crer, quero estar aCORdado.
6 de Novembro de 2016.