Aconteceu num dia quente. Estacionado o carro no parque, dirigíamo-nos para um dos espaços do complexo comercial situado na zona dos Galegos, junto à cidade da Guarda.

À nossa frente ia um casal de meia-idade acompanhado de uma jovem. Uma filha, assim se supõe. Entrou numa loja com a mãe, no preciso momento em que nós íamos a passar. O cavalheiro, aparentando algum cansaço, sentou-se num daqueles bancos do corredor externo do complexo comercial, já com a sombra da tarde. Foi então que ainda o ouvimos dizer:
- Não vos demoreis. Eu fico por aqui.
Já sentado, no preciso momento em que íamos passar à sua frente, ouvimo-lo exclamar de satisfação, como quem agradece ao ar que dá a vida:
- Abençoado seja quem colocou aqui este pedregulho!
Primeiro sorrimos, e depois rimos com vontade. A situação, de inesperada que era, não deixava de ter graça. Enquanto as duas senhoras, lá dentro, fariam as compras que satisfariam os seus desejos ou necessidades, ele ali ficaria descansando sentado à sombra daquela tarde. Depois…
Bem, depois caímos em nós - o pensamento é livre como o vento – e aquele «pedregulho» veio agitar as águas da tranquilidade com que nos havíamos ali deslocado, também nós à procura de um qualquer objecto para satisfazer qualquer necessidade caseira. Afinal, pensámos, a exclamação, na simplicidade da sua espontaneidade e singeleza, expressava um sentido de gratidão a que é impossível corresponder a não ser invocando uma bênção que em tudo nos transcende. Abençoado «pedregulho» que, pela voz de um anónimo transeunte, assim nos falou.
Não será fácil identificar quem havia colocado ali aquele «pedregulho». Obviamente, foi uma pequena multidão. E começámos a enumerar os intervenientes: quem teve a ideia de ali construir aquele complexo; aqueles que, no centro de decisão administrativa, aprovaram o projecto; os engenheiros e arquitectos que, no recolhimento dos gabinetes, desenharam aquele espaço de comércio imaginando compradores cansados; os empresários do empreendimento; o mestre-de-obras que orientou os trabalhos da construção; os operários que, com esforço e fadiga, os executaram; o camionista que transportou os materiais; os operários de uma pedreira situada lá longe na encosta de uma montanha. E a montanha? E o planeta que sustenta o banco de que somos hóspedes? E o Criador? Foram tantos os agentes benfazejos que o ritmo da escrita é forçado a ignorar, porque é impossível enumerar.
Tanta gente e tantas vontades a contribuírem para que aquele «pedregulho» ali fosse colocado e desse descanso a transeuntes cansados! Para além da organização social, laboral e comercial, e independentemente de eventuais injustiças praticadas no processo criativo de todos os bens, da voz daquele homem pareceu-nos emergir uma espécie de organização mística de dádivas. Tanta gente abençoada na oração espontânea do transeunte cansado que naquele momento se atravessou no nosso caminho!
E foi assim que entrámos também nós numa das lojas pejadas de infindos objectos marcados com os respectivos preços. Nesse dia, porém, para além dos preços do comércio, refulgia no mercado a luz de outra verdade, esquecida e invisível. Mas que está lá, está!
Nesse dia aquele «pedregulho» transformou-se em metáfora da existência dos humanos. Passamos os dias, quantas vezes, a lamentar as agruras da vida, a gritar imprecações contra tudo e contra todos, como se tudo e todos fossem empecilhos no traçado do nosso caminho, quando, em verdade, tudo e todos são dádivas de que deveríamos estar gratos. Somos, todos e cada um, a confluência de uma infindável cascata de dádivas. Tantas, talvez, como as estrelas do céu ou as areias do mar! Que, também elas, são dádivas!
Poderemos pensar, talvez, noutros «pedregulhos» em que muitas vezes tropeçamos. Mas estes, se não podem ser de descanso, poderão ser de despertar.
Baste lembrar-nos do que se passou há tempos, quando estava no auge o anúncio da greve dos motoristas de transporte de combustíveis e de mercadorias. De repente, a grande cadeia de dons pareceu tropeçar em «pedregulhos» a barrarem o caminho da nossa tranquilidade e consumismo diário. E todos mudámos um pouco de vida nesses dias, da grande indústria à nossa vida caseira, passando por todas os organismos e associações humanas, sem esquecermos os governantes que foram obrigados a olhar também para a realidade real. Nesses dias aquele «pedregulho» do espaço comercial ficou a dar descanso às moscas, porque nós, os humanos portugueses, passámos a andar sem descanso a saltar outros «pedregulhos» para que a anunciada greve nos afectasse o menos possível. Será que conseguimos então dar o salto da comum tranquilidade consumista para a rede dos dons que sustenta a nossa existência? Também se pode aprender com as crises por que passamos.
Naquela tarde olhámos para aquele centro cheio de «dádivas» e nós com algumas no carrinho de compras, fomos atendidos na caixa com profissionalismo por uma jovem. Também ela foi uma dádiva para nos servir e nós uma dádiva também para o seu trabalho. Nós, como tantos outros.
Paguei com um cartão. Quer dizer, paguei com electrões, seja lá o que isso for. Digam os físicos. Abençoada natureza que assim coloca ao meu serviço as forças físicas que a constituem e que o cientista descobre.
Saímos e voltámos a passar pelo «pedregulho». O cavalheiro já não estava e o «pedregulho» encontrava-se sem ninguém. Vi então naquele cavalheiro uma espécie de anjo mensageiro. Desde então cada vez que ali passo, lá está o «pedregulho» a lembrar-me a mensagem.
Se me é permitido pedir alguma coisa ao leitor, o pedido aqui fica: se teve a gentileza de ler este texto até aqui, lembre-se que ele, sendo por mim escrito, não é só escrito por mim. Também o leitor é seu Autor. Obrigado.
Abençoado «pedregulho»!
Guarda, 3 de Setembro de 2019