AAA-BBB-CCC

«Um, dois, três é a conta que Deus fez», diz o ditado. Também para um pai que ensinava o abecedário aos filhos através de tríades de letras. AAA-BBB-CCC: três conjuntos de letras, três vezes soletradas com a musicalidade fonética correspondente e respeitando a pausa musical entre cada conjunto. E isto até ao final do alfabeto. Tente o leitor entoar como quem canta brincando à infância para aprender a ler: AAA-BBB-CCC. E sinta o resultado, como eu senti quando o filho mais novo, que tem a bondade de me contar entre os seus amigos, me referiu a história recordando a pedagogia caseira feita da experiência da vida aldeã num recanto de Trás-os-Montes. Esta tríade didáctica de um pai transmontano fez-me lembrar o «um-dois-três» do «macaquinho chinês» das brincadeiras de criança. E, com ela, entrei na minha aldeia, perdida na geografia das distâncias da Beira Alta. É para lá que vamos primeiro, se o leitor me quiser acompanhar em divagações caseiras.«Um, dois, três é a conta que Deus fez» também na minha aldeia, constituída por três ruas e com nomes bem castiços: Rua da Cruzina, ou Curzina, como muitos dizem, Rua do Fundo-da-Rua e Rua do Cimo-da-Quinta. Quem a passeia pela primeira vez dirá depreciativamente, como já ouvi, que é a aldeia das Ruas-do-Volta-Atrás. Esses não conhecem a mística da terra. As três ruas formam uma cruz em cujo centro sobressai a Capela do orago da terra, São Miguel, que, vestido de soldado romano, ostenta também ele, na imagem, uma tríade: a espada na mão direita e os dois pratos de uma balança na mão esquerda. É verdade que as três ruas, aqui ou ali, se ramificam em rebentos de vida: pequenas quelhas ou ruelas, quase becos, mas que não desfazem a solidez de uma cruz em cujo braço cimeiro se encontra a capela a fazer pensar na cabeça, já desfalecidamente inclinada, de Cristo Redentor. Ali se alimenta a espiritualidade de todo um povo, feita de liturgia sacramental e devoções de piedade, de Janeiro a Dezembro. É verdade que, em tempos recentes, a modernidade chegou, e duas artérias se estenderam para além da cruz antiga. As ruas foram rebaptizadas e até as ruelas passaram a ter nome próprio. Mas a cruz do seu Centro Histórico lá se encontra ainda resistente como o granito das suas casas. Por isso, as três ruas do abecedário cantigado, AAA-BBB-CCC, continuarão lembradas como Rua da Cruzina, Rua do Fundo-da-Rua e Rua do Cimo-da-Quinta. São uma tríade única e perfeita, no desenho e na originalidade antiga dos nomes. É a aldeia mais triádica do mundo; uma tríade de ruas que muitas histórias têm para contar.Conte e cante o leitor comigo: AAA-BBB-CCC, e saiba que está a cantar a tríade de ruas do Centro Histórico da minha aldeia, que será também de quantos souberem ler este triádico guia turístico. A Rua da Cruzina - por onde se entra - anuncia que a terra tem forma de cruz. A Rua do Fundo-da-Rua - está a ver-se - anuncia que, ao Fundo lá está a ribeira a lembrar a água, símbolo da vida. É por isso, creio bem, que é hoje conhecida com o nome Rua da Ribeira. A Rua do Cimo-da-Quinta – quem poderá não concluir? – anuncia que a aldeia se chama Quinta, a carinhosa Quintanzinha, e que o Cimo é o extremo da aldeia e o extremo do braço direito da cruz com origem na capela de São Miguel. Talvez por isso ela tenha sido rebaptizada com o nome do Arcanjo, o Anjo Guardião das virtudes das gentes da terra. Depois - hipótese bem atrevida – ancorado na tríade trasmontana AAA, BBB, CCC, imaginei na tríade da minha aldeia uma espécie de centro do mundo em que se condensam as múltiplas tríades da aventura do pensamento humano. Uma hipótese bem atrevida, certamente, mas o pensamento é, muitas vezes, uma espécie de cavalo à solta a que importa dar toda a rádea. Passei primeiro pelo velho filósofo Sócrates com o seu «saber-do-não-saber». Visitei depois a alegoria da caverna de Platão em que se conjugam três mundos: o mundo das sombras na caverna, o mundo exterior com o brilho do seu sol e o mundo do pensamento dos prisioneiros. Três mundos platónicos que nos poderão transportar para outras tríades emergentes no pensamento contemporâneo, da linguística, com a tríade «signo-significante-significado», à psicanálise, com a tríade do psiquismo humano «consciente-subconsciente-inconsciente». Pelo meio, nos vários séculos de História, aparece, já na modernidade, Descartes com a sua teoria das três substâncias: res cogitans (substância pensante), res extensa (a realidade física como extensão) e a res divina (Deus), não esquecendo a tríade da chamada lógica dialéctica «tese-antítese-síntese» ou «afirmação-negação-superação/negação da negação» das correntes ligadas a Hegel, que, por sua vez, se terá inspirado nas clássicas três vias de afirmações filosóficas sobre Deus: a via da afirmação (Deus existe; Deus é bom), a via da negação (Deus não existe do mesmo que existem as outras coisas; Deus não é bom como pode ser bom o ser humano) e a via da eminência, pela qual se atribui a Deus a eminência do ser (Deus é a Existência, Deus é a Bondade).Neste vaivém entre os momentos da história do pensamento humano em que nos vimos passeando, lembremos a tríade dos chamados três reinos da natureza, «mineral, vegetal, animal» as denominadas três formas de vida, «vegetativa-sensitiva-intelectiva» e ainda a tríade clássica das potências da alma humana, «memória-inteligência-vontade». Voltaremos a encontrá-las. De momento, avancemos. A conhecida obra de Santo Agostinho, Confissões, é sempre um manancial de iluminação: ao dar-se a conhecer a quem o lê, conduz o leitor ao conhecimento de si mesmo. Aí, no último livro, o Livro XIII, Santo Agostinho surge-nos com outra interessante tríade, escrevendo: «As três coisas que digo são: existir, conhecer e querer. Existo, conheço e quero. Existo, sabendo e querendo; e sei que existo e quero; e quero existir e saber. Repare, quem puder, como a vida é inseparável nestes três conceitos: uma só vida, uma só inteligência, uma só essência, sem que seja possível operar uma distinção que, apesar de tudo, existe.» Desfolhando as páginas deste conhecido livro do célebre Mestre saber-se-á que a tríade «existir-conhecer-querer» aparece num pequeno parágrafo assim iniciado: «Quem compreende a Trindade Omnipotente? E quem não fala dela, ainda que a não compreenda? É rara a pessoa que ao falar da Santíssima Trindade saiba o que diz.»Não errarei, creio eu, se disser que muitos leitores já teriam pensado no mistério Santíssima Trindade, «Pai-Filho-Espírito Santo», tríade que está na essência do Cristianismo e que o crente cristão proclama quando só, ou em comunidade, recita o Credo. Ou, então, poderão os leitores já ter pensado também no mistério do Verbo feito Homem, que, depois de ter sido adorado por uma tríade de Reis Magos em Belém e de viver no silêncio de uma família em Nazaré – sagrada tríade familiar –, veio a revelar-se, na vida pública, como «Caminho-Verdade-Vida». Discretamente, entrámos na tríade teologal «Fé-esperança-caridade» que será também o princípio da iluminação da tríade das potências da alma «memória-inteligência-vontade»: a fé que fortifica a inteligência, a esperança que purifica a memória e a caridade que orienta a vontade. Não sou eu que o digo, ignorante entre os ignorantes. São muitos mestres da filosofia, da teologia e da espiritualidade.Poderíamos terminar aqui. E seria um bom final. Mas desçamos novamente à terra e, muito devagarinho para não sermos de todo ridicularizados pelos mestres da ciência, lembremos, na Física, a tríade «onda-partícula-campo» de que fazem parte fotões, electrões e outros elementos que tais. Ou, limitando-nos a um mundo mais à nossa escala, fiquemos pela tríade mais simples «fenómeno-teoria/lei-modelo»: o «fenómeno» que observamos, a «teoria/lei» com que relacionamos os conceitos e, finalmente, o «modelo» que dá expressão matemática às relações conceptuais. Comecei pela infância e com ela termino lembrando a tríade do sistema habitual de contagem infantil: «um, dois, muitos». Trata-se, neste caso, de um exemplo típico de tríade tão natural e instintiva na criança que bem podemos pensar que a tríade é um tripé com que expressamos, nós humanos, as relações complexas que vamos estabelecendo com a realidade imediata ou com aquela que nos transcende. As tríades dos vários ramos do saber humano, da filosofia à teologia e à religião, da linguística à psicologia, da vida comum à mais elaborada teoria física, bem o parecem confirmar. Mas confirmarão também que a tríade «saber-ignorar-duvidar» é o AAA-BBB-CCC do alfabeto com que nós, pobres humanos interrogantes, vamos construindo imagens das coisas que nos circundam. Em tempo de regresso às aulas contiguemos AAA, BBB, CCC, «um, dois, muitos». Como crianças, que somos. Nascidos nesta ou naquela aldeia em que aprendemos a ser.Guarda, 2 de Setembro de 2021