Somos inteligentes porque somos dignos; somos dignos porque estamos dominados pelo Transcendente;

e ao Transcendente é inerente uma insaciável curiosidade. Afinal, o Mundo está cheio de respostas. As respostas que eu e o leitor queremos – e alcançamos com o nosso empenho.
O sentir-se de bem consigo próprio e com os outros; o sentir-se inseparável da sua comunidade e, deste modo, afirmar-se como um dos seus, nem que seja num dos mais triviais actos do quotidiano; o reagir com elevação a certas situações (“Conto até cem e no fim as coisas já passaram”); o intuir que a proximidade vale mais que o aparato e terá como retorno um generalizado, digamos, apoio; tudo ressumando de uma criação de qualidade em que o resultado são factores inestimáveis que lhe alicerçaram a vitória.
Claro que, doutro ângulo, – o supremo – Marcelo (MRS) é indisputadamente um produto da TV. Ao longo de anos o povo comum, normal, por habituação, identificação q.b. da sua personalidade, aderiu a uma postura de tão intensa proximidade. E MRS assim se transformou num”ídolo da praça” – um dos idola fora.
Convocar a Astrologia é aqui crucial. “Sagitário”, de 12-XII-1948 (rosto cavalino, testa alta e larga, nariz direito), os supremos horizontes, ambição – sublinho ambição – optimismo, fé sem limites, lógica inteligência, agudeza, agitação … “sagitarianos”, uma vez estabelecido um objectivo nem por um mícron dele se desviarão. Afinal, o trajecto da seta do arqueiro é rectilíneo. Arqueiro que, todavia, em certos níveis, é, ao mesmo tempo, de uma chocante falta de tacto (“Como vai o negócio”?, perguntou na agência funerária), tropeção e… trapaceiro. Mas reiterar que nada os fará desviar do seu caminho é obrigatório.
A nós impõe-se-nos a verdade, que está na ponta do optimismo. Condição sine qua non daquela é o nu e cru conhecimento da realidade. Vamos a isso – já.
No discurso de vitória MRS disse mais ou menos isto (cito de cór): “Tudo quanto sou devo-o ao Direito”. Por mais adequada ao lugar, momento e circunstância, uma tal afirmação é indicadora de uma nada despicienda estreiteza de horizontes. Com efeito, o máximo de horizontes provém da luminosa Filologia, da portentosa História, da rigorosa, inexorável Filosofia (o 1º parágrafo de A FILOSOFIA COMO CIÊNCIA DE RIGOR, de Edmundo Husserl, aí está a atestar tão nobre identidade), da inefável Astrologia, da esforçada Antropologia, da… – mas nunca do Direito. Este é, tão-só, “o mínimo ético”, como se lhe refere um filósofo amigo. Que um filho de um prócere do regime anterior ao 25-IV o afirme só avacalha tal regime. De resto, na década de 50 do século passado, alguém que foi Governador Civil de Setúbal, desdenhoso, dizia para outrem com um livro debaixo do braço: “Pois fique sabendo que eu nunca li um livro e que isso não me fez falta nenhuma”.
Num artigo absolutamente demolidor, no PÚBLICO, sugestivamente intitulado (cito de memória), “Um actor mais perfomante que Berlusconi”, J.-M. Nobre-Correia, Prof. da Universidade Livre de Bruxelas na área dos media, dizia que a acção de MRS no EXPRESSO tinha sido um embuste de tal ordem que nada de semelhante era possível encontrar-se na Europa. E que Francisco Pinto Balsemão não fazia cerimónia em declarar que o candidato “não era uma boa pessoa”. Mais. Interrogava-se se ia mantê-lo no Conselho de Estado.
Uma das mais valentes mulheres do Portugal hodierno, a continuar as destemidas heroínas de antanho, perante a qual me curvo até aos pés, Madalena Homem Cardoso, no mesmo jornal (22-I-2016), citou MRS: “Para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar para dar a supremacia ao Brasil”. E a egrégia senhora exarou que tais declarações “deveriam por si mesmas ser impeditivas de uma candidatura à Presidência da República”. Apoiada!!
O Professor António Jacinto Pascoal, no mesmo periódico, em artigo titulado “Entalados” (29-I-2016) apodou os 10 candidatos de “os dez matraquilhos”. Mais. “Às recentes presidenciais faltou tudo menos imbecilidade. Despojado da dimensão hierática de outros tempos, o campo político abriga a decadência da boçalidade que conquista quase todo o espaço do visível e atinge áreas contíguas às dos meios intelectuais e dos centros de irradiação do saber, como as universidades”. Ou seja: como poderíamos rever-nos em qualquer dos candidatos!?
E, contudo, no discurso de vitória, MRS foi ainda mais grave, de uma indescritível limitação, ao citar o rancoroso baladeiro Zeca Afonso: “o povo é quem mais ordena”. Deveras!? Numa partidocracia e tal…Como é que o até agora Director da monárquica Fundação da Casa de Bragança, filho de um prócer do regime substituído a 25-IV, ainda por cima supostamente monárquico, não sabe que “mandar é estar sentado” ? (Leia Ortega y Gasset, p.f.). De facto o povo quer é ser bem governado e não ser achincalhado – o que a bandalheira republicana, tanto de 10 a 26 como desde o 25-IV, traiçoeira e desdenhosamente ignora. E, como esta 2ª versão jamais deixará de ignorar, a erosão ética e moral continuará. Baste olhar para as preocupações do regime, com a adopção de crianças por “casais” de pederastas e lésbicas e o relevo dado ao aborto – ao arrepio de toda a Natureza e Espiritualidade.
MRS não oferece garantias nenhumas; e uma prova está em ter convidado para o Conselho de Estado Eduardo Lourenço, cuja categoria está nos antípodas de tal. Ao nosso conterrâneo desculpas por esta franqueza, ainda por cima dada a sua honrosíssima idade – mas esta é uma questão tão colossal, digamos, que voltarei a ela tão celeremente quanto possível.
Por que não convidou, v.g., Brandão Ferreira ou uma qualquer personalidade dos Amigos de Olivença? Isto para não ir já a uma personalidade da oliventina “Associação Além-Guadiana”.
O que estava em causa, nas últimas presidenciais, era de tal magnitude que votei MRS. Mas eu não poderia aceitar que o Prof. de Direito fosse alguém que pudesse tomar a sério. Baste lembrar um amigo que fala de “leituras à Marcelo”… Não raro temos que decidir entre o mal menor.
Guarda-6-II-2016
P.S.- A MRS desejo, todavia, uma longa e feliz vida anímica e biológica. É verdade que dorme só 3-4 horas por noite? Não sei. Sei que me pareceu prematuramente envelhecido e é de elementar atenção dizer-lhe que, por mais robustos que os “sagitários” sejam, as leis cósmicas – que são as genuínas – têm que respeitar-se. Reverter a situação é prioritário. Aceitará esta franqueza.